Adolescente passa noite no Conselho Tutelar após ser recusada em abrigo em Divinópolis

DivinópolisMinas Gerais
Por -24/06/2026, às 12H20junho 24th, 2026
conselho tutelar 1 divinópolis
Foto: Divulgação/Prefeitura de Divinópolis

Conselheiras levaram a menina para a sede do Conselho Tutelar após abrigo alegar superlotação. Semds diz que não houve contato das profissionais para construção de alternativas

O vereador Vítor Costa (PT) acionou, nesta quarta-feira (24/6), o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) após uma adolescente de 16 anos passar a noite na sede do Conselho Tutelar 1, em Divinópolis, por ter sido recusada em abrigo. O caso aconteceu no domingo (21/6) e a prefeitura diz que os conselheiros não acionaram previamente a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Semds) para busca de vagas (lei a nota abaixo).

Conforme o Registro de Evento de Defesa Social (REDS) da Polícia Militar, a adolescente não possui familiares na cidade e não tinha recursos financeiros para retornar ao município de origem. O Serviço de Acolhimento Institucional para Adolescentes Casa Maria Paola recusou o recebimento sob a alegação de superlotação.

“Deixando a jovem sem um local adequado para permanecer”, informou.

Superlotação e negligência

De acordo com a ocorrência, conselheiras tutelares acionaram a PM após o abrigo Casa Maria Paola se recusar a receber a adolescente, alegando superlotação. Uma cuidadora e uma pedagoga que trabalham na instituição afirmaram que a ordem partiu da coordenação e que, caso acolhessem a adolescente, isso acarretaria negligência.

Com a recusa, as conselheiras levaram a menina, então, para a sede do Conselho Tutelar 1. Diante do caso, o vereador acionou o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e cobrou providências urgentes da Prefeitura de Divinópolis e da rede de proteção à infância e à adolescência.

“É inadmissível que uma menina de apenas 16 anos seja submetida a essa situação. O Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que a proteção integral é prioridade absoluta. O poder público precisa dar respostas imediatas e garantir que nenhum adolescente seja deixado sem acolhimento e sem dignidade”, afirmou o parlamentar.

Apuração das circunstâncias

Vítor Costa também defende a apuração das circunstâncias que levaram à negativa de acolhimento. Além disso, pede uma avaliação da capacidade da rede de proteção do município, para que situações semelhantes não voltem a acontecer.

“O que ocorreu é um alerta para toda a cidade. Não podemos naturalizar que uma adolescente em situação de vulnerabilidade durma no chão por falta de uma resposta do Estado. A proteção das nossas crianças e adolescentes é um dever inadiável”, concluiu.

O abrigo Casa Maria Paola tem como objetivo acolher adolescentes do sexo feminino entre 12 e 18 anos em situação de vulnerabilidade, sob medidas protetivas por determinação judicial, em decorrência de violação de direitos ou pela impossibilidade de cuidado e proteção por sua família, até que possam voltar ao seio familiar ou encaminhadas à adoção.

O que diz a prefeitura?

Em nota, a prefeitura afirmou que cumpre o “compromisso incondicional com a proteção integral e com a prioridade absoluta dos direitos de crianças e adolescentes, conforme previsto na Constituição Federal, no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e nas normativas do Sistema Único de Assistência Social (SUAS).”

Conforme a prefeitura, a adolescente, natural de outro município, teria chegado recentemente a Divinópolis e permanecido sob responsabilidade de terceiros. Ainda de acordo com o órgão, houve movimentações anteriores junto a órgãos do Sistema de Garantia de Direitos, inclusive com busca realizada pela genitora.

Nesses casos, o fluxo técnico e protetivo preconizado pelo ECA orienta, como regra, a priorização da convivência familiar e comunitária. Ou seja, com articulação intermunicipal para localização, aproximação e reintegração à família de origem ou extensa, sempre que presentes condições protetivas e observadas as competências dos órgãos envolvidos.

“Apenas após esgotadas essas possibilidades é que medidas mais restritivas, como o acolhimento institucional, devem ser consideradas.”, informou a prefeitura.

Conselho Tutelar não acionou a Semds

A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Semds), esclareceu que o Conselho Tutelar não acionou a pasta previamente para construção de alternativas, pactuação de fluxos ou tratativas relativas ao caso. O conhecimento da situação ocorreu posteriormente, por meio do próprio serviço de acolhimento institucional, que, no exercício de sua responsabilidade técnica, apresentou orientações quanto aos requisitos legais e operacionais para eventual acolhimento, inclusive questões relacionadas à capacidade instalada da unidade.

Conforme a secretaria, poderia ter construído a ampliação ou regulação de vagas institucionalmente junto à Semds. Isso, mediante articulação com a rede municipal de acolhimento e demais serviços públicos envolvidos, buscando assegurar resposta qualificada e em conformidade com as normativas vigentes.

A pasta tratou com preocupação a circulação de informações sensíveis relacionadas ao caso, especialmente por envolver adolescente.

“Situação que exige observância rigorosa ao dever legal de proteção da intimidade, da imagem e dos dados pessoais de crianças e adolescentes”, alegou.

A Prefeitura de Divinópolis reiterou que não se omite diante de situações de violação de direitos. Além disso, afirmou que mantém investimento permanente na política pública de proteção social. Atualmente, o município aplica mais de R$ 8 milhões anuais de recursos próprios exclusivamente nos serviços de acolhimento institucional e acolhimento familiar.

“A proteção integral de crianças e adolescentes é responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e Estado, exigindo atuação articulada entre os diversos órgãos que compõem o Sistema de Garantia de Direitos. Desqualificar serviços e trabalhadores que atuam diariamente na proteção de vidas, sem observância dos fluxos técnicos e legais, fragiliza uma política pública essencial e não contribui para a efetiva garantia de direitos”, finalizou.

A reportagem do PORTAL GERAIS tentou contato nos telefones disponíveis no site da Aliança de Misericórdia, responsável pela administração da Casa Maria Paola, porém as ligações não foram atenddas.