“Viés ideológico elevado ao extremo, pão e circo para manter popularidade, enquanto a economia fraqueja, a educação definha e a saúde agoniza.”
Enquanto o viés ideológico e a polarização têm afundado o país e o levado para a pior crise política, a politicagem encontra terreno ainda mais fértil para se propagar, sem qualquer preocupação. A palavra “cristão” nunca esteve tão em alta. Virou moda, e políticos de diferentes partidos, percebendo o potencial de engajamento, surfam nessa onda. Em Divinópolis, não é diferente. A mais recente demonstração disso foi a aprovação, pela Câmara Municipal, de um projeto que permite o uso da Bíblia como material paradidático em escolas públicas e privadas.
Isso, como se a educação não tivesse problemas mais urgentes a enfrentar, da infraestrutura precária à carência pedagógica, os vereadores optaram por criar mais um debate de cunho ideológico. Uma rápida conversa com famílias atípicas ou com educadores já seria suficiente para mostrar que as prioridades deveriam ser outras.
O argumento usado para sustentar a proposta foi de que “90% da população é cristã”. E, ignorando a minoria, derrubaram a emenda que ampliaria a medida para incluir outras obras religiosas, como o Alcorão, textos da Umbanda ou livros espíritas. Uma emenda que, na verdade, nem precisaria existir se o projeto original não fosse, desde o início, direcionado para atender um eleitorado específico.
Embora o vereador Matheus Dias, eleito pela comunidade católica, alegue não ter especificado qual versão da Bíblia, o efeito prático da proposta é evidente: privilegiar uma fé em detrimento de outras. E aqui, mesmo reconhecendo méritos em outros projetos de sua autoria, não há como elogiar esta iniciativa que tangencia a laicidade do Estado, a liberdade religiosa e o papel da educação. Ainda que não seja obrigatória, a medida carrega consigo a semente da imposição.
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Fé como ferramenta de capital político
O problema vai além da discussão sobre religião nas escolas. O que está em jogo é o uso da fé como ferramenta de capital político. Em nome de Deus, discursos excludentes e intolerantes se fortalecem, minando direitos de minorias e servindo de combustível para polarizar a sociedade. Políticos esquecem que o Estado é laico e que o dever do legislador é governar para todos, inclusive para aqueles que não compartilham da fé da maioria.
Quando surgiu a chamada “nova política”, e Divinópolis, vale lembrar, tornou-se escola dessa promessa, muitos acreditaram em uma revolução. Mas o que se vê é a velha prática travestida de novidade: viés ideológico elevado ao extremo, pão e circo para manter popularidade, enquanto a economia fraqueja, a educação definha e a saúde agoniza.
Na vida real, longe dos discursos inflamados e das postagens de autopromoção nas redes sociais, a população continua enfrentando filas nas unidades de saúde, estudando em escolas sucateadas, vivendo entre esgoto a céu aberto e poeira de ruas sem calçamento. Enquanto isso, no universo paralelo da política, legisla-se para as redes, e governa-se para a bolha ideológica.
O país não precisa de mais cortinas de fumaça. Precisa de prioridade, de políticas públicas reais e de coragem para enfrentar o que realmente importa. Até porque, na história, nunca foi a retórica ideológica que asfaltou ruas, construiu hospitais, salvou vidas, gerou emprego e renda, controlou a inflação.
Enquanto perdura a malfada briga ideológica, o que é urgente definha: o povo.


