‘Cama em qualquer lugar não é leito para covid’, diz infectologista

Profissional critica políticos que mostram leitos vazios: ‘é muito mais complexo’

Depois de ver políticos de Divinópolis publicando na internet imagens de leitos vazios na Santa Casa de Carmo da Mata e afirmando que esses espaços deveriam ser destinados ao atendimento de pacientes com covid-19, a infectologista Rosângela Guedes esclarece que não é tão simples como parece.

A profissional, que atua na linha de frente do Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD), acompanha de perto a realidade da falta de vaga nos leitos de UTI no Centro-Oeste mineiro e se diz angustiada pelo teor das mensagens transmitidas pelos políticos fizeram os posts.

“A angústia que eu quero compartilhar é a angústia de várias famílias que estão aguardando vagas em terapia intensiva para seus familiares na nossa cidade. A forma como foi colocado traz para essas pessoas a impressão de que o problema é de falta de leitos pode ser resolvido rapidamente. Que é coisa pra amanhã e que, às vezes, algum gestor, seja ele municipal ou do Estado, está sendo omisso em relação a isso”, comenta.

Segundo a especialista, pacientes com covid têm chegado em condições extremamente graves à terapia intensiva. Pessoas mais jovens do que o observado há alguns meses. Doentes que precisam de ventilação mecânica.

“Um leito de CTI para paciente com covid-19 não é simplesmente uma cama com um soro e um cateter para introdução de oxigênio. É um leito extremamente complexo. Não só dos pontos de vista físico e estrutural. Um leito que exige um profissional tecnicamente habilitado. Um médico intensivista. Uma equipe de enfermagem muito bem treinada para estar junto prestando assistência a esse paciente”.

Esses leitos também demandam apoio de um grupo de profissionais. Fisioterapeutas, fonoaudiólogos, suporte de laboratório, médicos de outras especialidades, pneumologistas, nefrologistas, infectologistas, dentre outros.

“Um leito é muito mais do que isso”, desabafa.

De acordo com dados da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), um paciente com covid que entra na UTI tem de 14% a 80% de chances de morrer durante o processo de tratamento.

“Claro que isso depende de uma série de condições de comorbidades do paciente. Mas, o estudo mostrou que isso também está relacionado a estrutura física da UTI onde esse paciente se encontra e da capacidade técnica da que que está atendendo esse paciente”.

A discrepância nessa estimativa se deve ao fato de as UTIs de alto-nível terem profissionais especializados e infraestrutura muito boa.

“E 80% das UTIs do Brasil estão no interior do país. Será que estar hoje num leito de terapia intensiva de algum dos nossos hospitais particulares de Divinópolis ou do CSSJD seria o mesmo que estar numa UTI improvisada em um hospital que às vezes tem boa intenção de atender, mas não tem condições técnicas e estruturais de fazer isso?”

A infectologista ressalta que é preciso exigir dos gestores públicos muito mais do que improviso de leitos.

“Nós vimos o que os Estados Unidos passaram e o que vários países da Europa passaram. Não há sistema de saúde no mundo que suporte essa abertura desenfreada de leitos”, pontua.

Leito têm limites

Os limites para funcionamento de leitos não se limitam a fatores econômicos. Também há desafios técnicos e de pessoal.

“O que a gente precisa fazer para conter a pandemia agora é diminuir transmissão viral. Todos os hospitais de Divinópolis, sejam particulares ou que atendem ao SUS e a UPA, ampliaram seus leitos rapidamente. Alguns hospitais dobraram seus leitos de terapia intensiva. Isso não é suficiente. Não está sendo e nem será suficiente se não diminuirmos a transmissão comunitária. Como nós vamos vencer isso? Vacina e isolamento social”.

Ainda de acordo com a especialista, como as vacinas estão demorando a chegar a toda a população brasileira, as pessoas precisam entender que não é com brigas políticas e nem com aberturas de leitos improvisados que a questão será resolvida.

“Cama em qualquer lugar não é leito para covid. É muito mais complexo do que imaginamos. Acho que é o momento de focar as energias no que realmente resolve. É buscar vacina, isolamento e tentar prestar assistência de qualidade. É disso que os nossos pacientes precisam”, finaliza.

Ricardo Welbert

Ricardo Welbert

Ricardo Welbert, jornalista formado pela Uemg em Divinópolis e mestrando em Ciências da Comunicação na Universidade do Porto, em Portugal.

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