Se os memes ajudam a popularizar uma imagem distorcida do CAPS, eles também podem contribuir para um problema maior: o estigma em torno da saúde mental.
Memes, piadas e comentários nas redes sociais muitas vezes associam o CAPS à loucura ou a situações de crise. Entretanto, essa imagem está longe de representar todo o trabalho realizado pelas unidades de saúde mental de Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas.
Na prática, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) integram uma rede de cuidado que atende pessoas com diferentes necessidades. Além disso, o município possui unidades com públicos e formas de atendimento específicas.
Para entender o que existe por trás dos memes e esclarecer dúvidas sobre o serviço, o PORTAL GERAIS conversou com profissionais que atuam na rede de saúde mental de Divinópolis.
A reportagem integra uma série especial que marca o Setembro Amarelo. A ideia é gerar reflexoes, quebrar tabus e falar abertamente sobre saúde mental.
CAPS não atende apenas casos de crise
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Segundo o médico psiquiatra Dr. Samuel Ângelo, existe uma ideia de que a pessoa só deve procurar o CAPS quando o quadro já chegou a uma situação grave. No entanto, ele explica que não é necessário esperar uma crise para buscar ajuda.
“O CAPS, apesar de ser um serviço especializado em saúde mental, ele não funciona necessariamente com crises, com surtos, principalmente na questão de álcool e drogas.”
Ainda de acordo com o psiquiatra, a identificação dos primeiros sinais é importante. Mudanças de comportamento e hábitos que começam a provocar prejuízos sociais, emocionais e financeiros podem indicar a necessidade de acompanhamento.
“A pessoa percebendo esses primeiros sinais, ela já pode vir ao CAPS e passar por um acolhimento com um profissional em saúde mental.”
A partir desse primeiro contato, a equipe avalia cada situação e define qual modalidade de acompanhamento é mais adequada.
Portanto, não é preciso esperar o problema se agravar para procurar o serviço.
Como funciona o atendimento nos CAPS de Divinópolis?
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O diretor da Atenção Secundária, Geraldo Almeida, explica que Divinópolis conta com diferentes modalidades de CAPS.
Entre elas, estão unidades voltadas para pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas, além de serviços destinados a pacientes com transtornos mentais.
O município também possui o CAPS IJ, voltado para crianças e adolescentes com demandas relacionadas à saúde mental.
Além disso, a rede conta com o Centro de Convivência, que recebe pessoas que já passaram pelos CAPS e estão estáveis. O espaço também atende pacientes que apresentam quadros mais leves e precisam de acompanhamento.
Nesse ambiente, os usuários podem participar de oficinas terapêuticas, como atividades de crochê, música, pintura e artesanato.
Segundo Geraldo, essas atividades também podem ajudar no desenvolvimento de habilidades e, em alguns casos, contribuir para que o paciente encontre uma possibilidade de geração de renda.
A rede ainda possui a Unidade de Acolhimento Adulto (UAA). O espaço funciona como uma espécie de casa de transição para pacientes que perderam vínculos familiares ou sociais e precisam de suporte antes de retomar a autonomia.
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Atendimento 24 horas e porta aberta
Um dos pontos que Geraldo destaca é o funcionamento de algumas unidades em regime de 24 horas.
Esses serviços recebem pessoas em situações de urgência relacionadas à saúde mental. A entrada pode acontecer de diferentes formas.
A própria pessoa pode procurar o serviço. Além disso, familiares podem levar o paciente. O atendimento também pode ocorrer por meio do Samu ou do Corpo de Bombeiros.
Ao chegar, o paciente passa por acolhimento e triagem. Depois disso, a equipe avalia a necessidade de permanência no serviço.
Dependendo da situação, o paciente pode permanecer por 24 horas, passar o dia na unidade ou frequentar o serviço em dias determinados.
A equipe também elabora um Projeto Terapêutico Singular, considerando as necessidades de cada paciente.
Tratamento vai além da medicação
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Outro ponto destacado pelos profissionais é que o cuidado em saúde mental não se resume à prescrição de medicamentos.
O psiquiatra Samuel Ângelo explica que o CAPS conta com uma equipe multidisciplinar, formada por diferentes profissionais.
“Aqui no CAPS, a gente conta com uma equipe multidisciplinar. Conta com médicos psiquiatras, médicos clínicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais.”
O acompanhamento pode envolver consultas, avaliações clínicas e psiquiátricas, acompanhamento psicológico, grupos e atividades de socialização.
Por isso, cada paciente recebe uma abordagem de acordo com a própria necessidade.
“Então, não é somente a questão de medicação.”
Geraldo Almeida reforça essa característica do serviço.
Segundo ele, o tratamento de saúde mental precisa considerar diferentes aspectos da vida do paciente. Por isso, a equipe reúne profissionais de diversas áreas, como médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais.
Além disso, o atendimento também envolve familiares e cuidadores.
A participação da rede de apoio ajuda a equipe a compreender melhor a realidade do paciente e acompanhar sua evolução.
O atendimento não se limita aos casos tradicionalmente associados ao consumo de álcool ou drogas.
Geraldo explica que pessoas que enfrentam dependência relacionada a jogos, telas e outras situações de sofrimento mental também podem procurar a rede.
O primeiro passo, portanto, é buscar acolhimento e apresentar a situação à equipe.
A partir daí, os profissionais avaliam qual serviço ou modalidade de acompanhamento atende melhor aquela necessidade.
O preconceito ainda é uma barreira
Se os memes ajudam a popularizar uma imagem distorcida do CAPS, eles também podem contribuir para um problema maior: o estigma em torno da saúde mental.
Para Samuel, essa percepção pode atrasar tanto o diagnóstico quanto o início do tratamento.
“Eu acredito que sim, causa um atraso no tratamento, causa um atraso no diagnóstico e um atraso na instituição do tratamento.”
O psiquiatra defende que o assunto seja tratado de maneira mais aberta.
Para ele, a população precisa entender que procurar ajuda em saúde mental não significa necessariamente estar em uma situação extrema.
Geraldo também considera o preconceito prejudicial. Segundo ele, o município chegou a realizar uma campanha para esclarecer o funcionamento do serviço.
“O CAPS é um serviço de saúde como outro, qualquer que cuida da saúde mental.”
A comparação ajuda a explicar a proposta: assim como uma pessoa procura atendimento quando percebe um problema físico, ela também pode buscar ajuda quando identifica sofrimento emocional ou psicológico.
Além do atendimento clínico, a estrutura oferece oficinas terapêuticas, alimentação, acolhimento, acompanhamento multiprofissional e diferentes modalidades de cuidado.
Segundo Geraldo, os pacientes que permanecem durante todo o dia também recebem alimentação na unidade.
O objetivo é oferecer um cuidado que acompanhe o paciente de acordo com sua evolução. Assim, uma pessoa pode passar por uma modalidade mais intensiva e, posteriormente, avançar para um acompanhamento menos frequente.
Para o diretor da Atenção Secundária, conhecer essa estrutura é fundamental.
“Acho que a gente precisa, mais uma vez, reforçar que é um serviço de porta aberta, valorizar esse serviço.”
Ele também chama atenção para a necessidade de ampliar o conhecimento da população sobre a rede.
“O tratamento de saúde mental é complexo e precisa de uma estrutura multidiciplinar.”
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Mais do que os memes
Por trás das piadas e dos estereótipos que circulam na internet, existe uma rede de profissionais que atende pessoas em diferentes situações de sofrimento mental.
O CAPS pode receber quem enfrenta uma crise, mas também pode acolher quem percebe os primeiros sinais de um problema e precisa entender qual caminho seguir.
Além disso, o cuidado pode envolver consultas, grupos, oficinas, acompanhamento psicológico, atendimento médico e participação da família.
Por isso, conhecer como o serviço realmente funciona ajuda a combater o preconceito e, principalmente, pode fazer com que mais pessoas procurem ajuda antes que o sofrimento se agrave.