Alisson relatou série de agressões contra a companheira Henay Amorim, até passar pelo pedágio da MG-050; Ele nega acidente para ocultar feminicídio
A investigação da Polícia Civil de Minas Gerais aponta que Henay Amorim, de 31 anos, já estava morta uma a duas horas antes do acidente registrado na MG-050, em Itaúna, no Centro-Oeste de Minas. Câmeras de segurança mostram o momento que o casal passa pela praça de pedágio, em Itaúna, com a vítima desacordada no banco de motorista e Alison de Araújo Mesquisa conduzindo o carro pelo banco do passageiro. O empresário confessou que bateu a cabeça dela contra o carro e a enforcou até desfalecer, mas nega que tenha provocado o acidente para ocultar um crime de feminicídio, conforme detalhado nesta terça-feira (16/12) pela polícia.
Os laudos periciais indicam que a causa da morte pode ter sido traumatismo craniano ou asfixia, com lesões identificadas na cabeça e no pescoço. Diante dos indícios, a polícia contesta a versão apresentada pelo suspeito de que ela não estava morta no momento do acidente.
Henay e Alison mantinham um relacionamento havia cerca de um ano e moravam juntos há sete meses em um apartamento no bairro Nova Suíça, em Belo Horizonte. Testemunhas ouvidas pela Polícia Civil relataram que o relacionamento era conturbado e marcado por agressões graves. Apesar das orientações de familiares, Henay não registrou ocorrência formal contra o companheiro.
Agressões começaram no dia anterior ao feminicídio
A discussão começou no sábado (13/12), durante uma festa. Depois, o casal seguiu para o apartamento, onde a briga teria continuado. No local, Alison teria batido no nariz de Henay. A polícia encontrou sangue humano no imóvel, ainda sem confirmação oficial de que o material seja da vítima.
“Ele diz que usou um lenço umedecido para limpar esses respingos de sangue”, afirma o delegado responsável pelo caso João Marcos Amaral.
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Câmeras e pedágio levantaram suspeitas
A Polícia Civil recolheu imagens das câmeras de segurança do prédio, onde o casal morava e ele era síndico para verificar se ela deixou o apartamento com vida, desacordada ou já sem sinais vitais. Eles teriam saído por volta das 5h do domingo (14/12) com destino a Divinópolis onde buscariam “algumas mudas de roupas”. Henay, conforme a polícia, tinha uma loja na cidade do Centro-Oeste.
Durante o trajeto, conforme ele, as discussões começaram novamente. Entre Belo Horizonte e o pedágio em Itaúna, eles teriam parado duas vezes.
“Estas duas paradas foram em razão de brigas e agressões entre eles. A vítima estava conduzindo o veículo e, segundo ele, ela teria iniciado as agressões, parando o veículo. Foi quando ele teria ido para cima dela, jogado-a com força contra a coluna do veículo e comprimido o pescoço dela. No primeiro momento, ela não teria desfalecido, mas, no segundo momento, antes de chegar ao pedágio, ele jogou a cabeça dela com mais força contra o veículo e comprimiu o pescoço do lado direito, só parando após ela ficar inconsciente”, detalha o delegado.
Alison disse que assumiu a direção pelo lado do passageiro, manteve Henay no banco do motorista porque não queria “mexer no corpo” e passou pelo pedágio por volta das 5h55. A operadora estranhou a situação, ofereceu ajuda e acionamento da concessionária, mas ele recusou e seguiu viagem.
Entre o pedágio e o local do acidente, ele alegou que a vítima teria acordado e que novas agressões ocorreram. Em outro trecho do relato, afirmou que ela o teria ameaçado de morte e jogado o carro contra o ônibus, versão rejeitada pela Polícia Civil diante dos laudos. O acidente aconteceu cerca de 10 minutos após passarem pelo pedágio.
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Duas necropsias e prisão no velório
Foram realizadas duas necropsias: a primeira, quando a morte ainda era tratada como decorrente do acidente; a segunda, após a reviravolta do caso com indícios de feminicídio. O corpo de Henay foi retirado do velório para novos exames.
Conforme o médico-legista Rodolfo Ribeiro as lesões “não são compatíveis com acidente de trânsito”.
“Tanto traumatismo cranioencefálico quando asfixia podem ser a causa da morte, como as duas concomitantemente. Pelo acidente ela não morreu.”, afirma. Pelos achados, ainda conforme o médico-legista “até umas duas horas antes do acidente é possível que ela já estivesse morta”.
O motorista do ônibus, de 30 anos, envolvido no acidente desceu para prestar socorro. Em depoimento, ele relatou que ao pegar no pulso para verificar os sinais vitais de Henay, ela já estava sem vida, com o corpo gelado, boca cerrada e roxa. Ela ainda apresentava sangue já seco no nariz, o que corrobora com as provas periciais.
As investigações começaram após a operadora do pedágio desconfiar da situação.
“Ela perguntou a ele o que estava acontecendo (…) Como ele falou que ela tinha tido uma queda de pressão, essa funcionária teria se disponibilizado para que uma equipe prestasse socorro. Pediu que parasse o veículo mais a frente para a assistência. Ele teria acenado positivo, mas arrancou o carro e seguiu sentido Divinópolis”, explica o delegado.
Ela acionou um supervisor, que repassou as imagens a um policial militar. As imagens chegaram à família, que acionou a Polícia Civil. Desde então, Alison passou a ser monitorado e acabou preso durante o velório.
Histórico do suspeito
De acordo com a polícia, Alisson possui três registros policiais: dois por dirigir embriagado, em 2013 e 2016, e um por violência doméstica em 2023.
O acidente na MG-050 em Itaúna
Conforme a Polícia Militar Rodoviária, o acidente ocorreu por volta das 6h05, no km 90 da MG-050. O VW T-Cross seguia no sentido Itaúna–Divinópolis quando, em um trecho de curva, cruzou a pista contrária e atingiu transversalmente um ônibus que trafegava no sentido oposto. O motorista do coletivo, de 30 anos, tentou frear, mas não conseguiu evitar a colisão.
Alison quebrou a clavícula, recebeu atendimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, sendo encaminhado ao Hospital de Itaúna. Lá, recusou a permanecer e saiu da unidade hospitalar.
Investigação segue
A Polícia Civil informou que o inquérito segue em fase de conclusão. A corporação analisa os depoimentos, as imagens, os laudos periciais e demais provas para definir a responsabilização criminal no caso. O delegado pediu que a prisão em flagrante seja convertida em preventiva.



