Pedro, de 10 anos, escreveu a história a partir de experiências com as próprias emoções; mãe, que é psicóloga e fonoaudióloga, acompanhou o processo
Pedro Luciano encontrou na escrita uma maneira de transformar sentimentos em palavras. A criança, que tem TDAH e mora em Nova Serrana, começou a escrever depois de uma situação em que ficou irritada. A mãe, Márcia, que é psicóloga e fonoaudióloga, sugeriu que ele colocasse no papel aquilo que estava sentindo.
A partir daí, o que começou como uma forma de lidar com uma frustração ganhou novos textos. Aos poucos, Pedro passou a escrever sobre diferentes emoções e, posteriormente, surgiu a ideia de transformar esse material em um livro: Dicionário de Sentimentos e Emoções de um Cérebro com TDAH.

Pedro conta como surgiu a ideia do livro
Segundo Pedro, a criação começou depois de um momento de frustração. A mãe sugeriu que ele registrasse as emoções que estava sentindo.
“Veio de uma frustração que um dia eu estava irritado e minha mãe veio para mim e falou: Pedro, quer colocar essas emoções em um papel? E eu falei sim.”
Depois disso, Pedro passou a escrever sobre outros sentimentos. A mãe percebeu que havia um conjunto de textos relacionados às emoções e propôs transformar o material em um livro.
Para Pedro, falar sobre sentimentos também tem relação com a vontade de ajudar outras crianças. Ele explica que escolheu esse tema porque não queria que outros meninos e meninas passassem pelas mesmas experiências.
“Eu não queria que mais nenhuma criança se sentisse o que eu senti.”
Além disso, durante a escrita, ele passou a observar as emoções de outra maneira. Pedro percebeu que até sentimentos considerados ruins podem ter uma função em determinadas situações.
Ao falar sobre a raiva, por exemplo, ele citou uma situação durante uma partida de futebol.
“Se você estiver em um jogo de futebol e estiver perdendo, ficar irritado pode ajudar a começar a jogar melhor. A raiva vai estar te ajudando.”
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Livro também fala sobre autoconhecimento
Pedro espera que outras crianças consigam se identificar com a história. Para ele, cada pessoa pode sentir as emoções de uma maneira diferente.
“Que todos sentem as coisas.Só que pode ser de um jeito diferente.”
O jovem escritor também acredita que o livro pode ajudar crianças com TDAH a compreender melhor os próprios sentimentos.
“Vão poder saber mais como lidar com os sentimentos, ficar e não ter que ficar pensando por que que eu fiz aquilo? Por que eu fiz isso? Para essas coisas. Então o livro pode ajudá-las a entender, a se conhecer melhor.”
Nesse sentido, a escrita se tornou uma experiência de autoconhecimento para Pedro. Durante o processo, ele conta que passou a olhar de outra forma para aquilo que sentia e a pensar em maneiras de controlar as emoções.

Márcia acompanhou criação do filho
Márcia Oliveira acompanhou o processo desde o início. Ela conta que Pedro estava muito nervoso em uma situação e apresentava dificuldade para se autorregular. Por isso, sugeriu que ele escrevesse sobre o que estava sentindo:
“Coloca tudo aí para depois reler, para entender e para ver o que que vai acontecer, porque pode ser que te ajude.”
Depois do primeiro texto, Márcia passou a incentivar Pedro a escrever sobre outras emoções. Assim, o material foi crescendo até que ela propôs a criação do livro.
“Quando a gente percebeu, tinha algum material escrito nesse sentido de emoções e sentimentos. E aí chegou uma hora que eu falei: vamos tentar escrever um livro, vamos fazer isso daqui, virar um livro.”
Segundo ela, a ideia central da obra partiu de Pedro. Márcia participou do processo ao lapidar os textos, melhorar a fluidez e acrescentar elementos lúdicos.
“A ideia central é sempre dele, o cerne ali do que a gente vai conseguir compreender e entender do sentimento e dele. Eu ajudei, lapidando um pouco o texto, deixando o texto mais fluente, mais agradável para leitura, mais lúdico, colocando algumas rimas que eu acho que são importantes.”

TDAH não impede desenvolvimento de potencialidades
Como mãe, psicóloga e fonoaudióloga, Márcia também observa no filho características que contribuíram para o processo criativo. Segundo ela, Pedro é muito criativo, tem rapidez de raciocínio, linguagem avançada e facilidade para conectar informações.
“O Pedro é muito criativo. Ele é muito rápido. Ele tem uma linguagem muito avançada e até por ter lido inúmeros números, ele tem um vocabulário muito grande.”
Ela também destaca que o filho consegue compreender informações e criar raciocínios que, em alguns momentos, vão além do esperado para a idade.
“Escrever o livro foi uma forma também de valorizar e de validar que, independente do modo de funcionamento cerebral, todos têm capacidades e potencialidades e elas podem ser exploradas e elas podem ser compartilhadas desde que a gente esteja envolvido, esteja motivado, esteja engajado para isso.”
Ao mesmo tempo, Márcia explica que Pedro enfrenta dificuldades relacionadas à atenção. Segundo ela, ele apresenta uma atenção difusa e pode prestar atenção em diferentes estímulos ao mesmo tempo, o que pode aumentar o tempo necessário para concluir determinadas tarefas ou levar a mais erros.
Ainda assim, ela ressalta que o diagnóstico não determina o que Pedro poderá fazer no futuro.
“Mas, apesar disso, ele escreveu um livro e isso é um feito que poucos fazem. Então ele tem as questões que são do TDAH, mas elas não o impedem e nunca vão impedir de ser aquilo que ele quiser ser.”
Além disso, Márcia acredita que o processo contribuiu para a autoestima do filho. Segundo ela, Pedro demonstra orgulho da própria produção e chama o livro de sua “obra prima” e de seu “melhor trabalho”.
Receba a notícia no seu celular. Participe do nosso grupo de WhatsAppReconhecer sentimentos contribui para o autoconhecimento
Para Márcia, ajudar uma criança a reconhecer e compreender aquilo que sente é fundamental para o desenvolvimento.
“É fundamental que todos nós tenhamos essa consciência de si. A gente fala da construção do eu.”
Ela explica que compreender uma emoção não significa justificar comportamentos inadequados. Em vez disso, o reconhecimento permite que a pessoa entenda o que provocou determinada reação e encontre maneiras de lidar com ela.
“Reconhecer e compreender não significa ter atitudes inadequadas ou agir de uma forma que não deveria. Mas entender que certas coisas realmente incomodam, deixam com raiva, deixam muito nervoso. E tudo bem. Mas aí o modo como vai lidar com tudo isso é que vai fazer diferença para que seja produtivo.”
Nesse processo, a escrita também teve um papel importante para Pedro. Conforme registrava os sentimentos, ele conseguia compreender melhor as próprias emoções e pensar em maneiras de se reorganizar e se acalmar.

Pedro quer que livro ajude outras crianças
Agora, Pedro espera que a obra alcance outras crianças e contribua para que elas compreendam melhor os próprios sentimentos. Desde o início, segundo ele, a motivação estava relacionada à possibilidade de ajudar outras pessoas.
“Acho que vai ser ótimo, porque desde o início minha motivação era ajudar pessoas mesmo. E esse livro vai ajudar muitas pessoas.”
Além disso, ele espera que os leitores desenvolvam empatia e entendam que cada pessoa pode experimentar as emoções de uma forma diferente.
Para Márcia, a expectativa também envolve a relação entre crianças e famílias. Ela espera que a obra proporcione momentos de alegria, diversão e reflexão.
“Que provoque momentos bons, momentos alegres, divertidos e de reflexão. Um momento em família, de estar junto e, principalmente, de que os adultos possam enxergar nas crianças.”
Por fim, ela defende que os adultos enxerguem as crianças para além de diagnósticos ou dificuldades específicas.
“Que os adultos especialmente, consigam enxergar que ela é muito mais do que isso e que ela pode ser brilhante, que essa criança pode ser brilhante.”
Assim, a história de Pedro reúne literatura, emoções e autoconhecimento. Ao transformar uma experiência de irritação em escrita, ele encontrou uma maneira de compreender os próprios sentimentos e, agora, pretende compartilhar esse aprendizado com outras crianças.






