
Com chuva em queda e o Rio Pará perdendo 35% de superfície, a mobilização no bairro vira referência de sobrevivência ambiental no Centro-Oeste mineiro.
Por Amanda Quintiliano e Heloisa Benicio
A água que chega aos rios nasce, em grande parte, em pequenas áreas de preservação. Cuidar desses espaços é proteger os recursos hídricos direto da fonte. Em Divinópolis, a experiência da Nascente Bela Vista ilustra o impacto da mobilização comunitária para a segurança hídrica regional, um tema que ganha urgência diante dos impactos climáticos.
A história de recuperação da Nascente Bela Vista começou em 2004, impulsionada por um período de escassez hídrica no município que antecedeu o ano. Em 2003, por exemplo, o volume de chuva ficou 17,3% abaixo da média histórica, conforme dados compilados da doClima – plataforma de inteligência que disponibiliza dados climáticos em parceria com o Portal Gerais de 46 municípios do Centro-Oeste de Minas.
O PORTAL GERAIS estreia com essa reportagem a editoria EcoGerais com conteúdo abordando as mudanças climáticas, os impactos na comunidade, as ações de conscientização e passando, claro, pela construção de soluções por meio de iniciativas individuais, da comunidade e do poder público.

Nascente Bela Vista reúne mais de duas décadas de preservação
Geraldo Oliveira, voluntário e ex-presidente da associação local, esteve à frente das primeiras mobilizações. Desde então, novas ações deram vida à Nascente Bela Vista. Em 2006, a comunidade realizou o batismo.
Já em 2007, criou a Corrida da Defesa das Nascentes. A iniciativa chegou à 14ª edição em 2026. No entanto, ela ficou interrompida entre 2018 e 2025 e retornou no ano passado.
Desde então investimentos a partir da iniciativa da comunidade ocorreram para preservar o espaço. Houve a implantação de técnicas ecológicas para a captação da água de forma segura com a instalação de canos, preenchimento com pedras que funcionam como filtro natural, dentre outras práticas.
Geraldo também destaca a participação de estudantes na recuperação da área. Segundo ele, muitas árvores foram plantadas por alunos de escolas em atividades de conscientização ambiental.
“Olha pra você ver as árvores crescendo, a natureza vem junto, os bichos vêm juntos, as criações vêm junto.”
Assim, a experiência da Bela Vista mostra que preservar uma nascente envolve mais do que manter a água. A recuperação da vegetação também favorece a biodiversidade e transforma o espaço em uma área verde de convivência.

Divinópolis recebe 246 mm de chuva a menos do que na década de 1980
Mas afinal, como preservar as nascentes impactam na sua vida? Dados compilados da doClima – plataforma que disponibiliza dados climáticos em parceria com o Portal Gerais de 46 municípios do Centro-Oeste de Minas – revelam também que Divinópolis recebe hoje cerca de 246 mm de chuva a menos por ano do que na década de 1980, uma queda estatisticamente significativa.
A menor quantidade de chuva, aliada à sua irregularidade, pressiona as nascentes que são de extrema importância para a manutenção dos recursos hídricos. Elas representam pontos de afloramento de água que alimentam córregos, ribeirões e rios, exercendo um papel de grande relevância, sobretudo em épocas de baixa precipitação.
“Preservá-las pode garantir água em qualidade e abundância, tanto para o equilíbrio dos ecossistemas quanto para as necessidades da população, sobretudo quando funcionam também como SACs, a exemplo das nascentes Bela Vista e Canto da Mina, em Divinópolis (MG)”, explica o professor universitário e biólogo Adriano Parreira.
A preservação envolve a proteção da vegetação nativa no entorno das nascentes (Áreas de Preservação Permanente – APPs), o que favorece a infiltração da água da chuva, o controle da erosão, do descarte de resíduos e do acesso de animais, além da prevenção da contaminação da água por descarga de esgoto, entre outros fatores. “Essas ações contribuem para a segurança hídrica e para a conservação da biodiversidade”, completa.
Menos água nos rios, menos água nas torneiras
Em outras palavras, menos água nos rios representa, consequentemente, menos água chegando às torneiras. Cuidar dessas áreas significa manter o ciclo hidrológico ativo, permitindo que a água armazenada no solo e no subsolo emerja e abasteça os cursos d’água.
“As nascentes cumprem um importante papel como elemento mantenedor do nível dos rios, mesmo em períodos de volumes baixos, ou seja, não deixam a água acabar, lembrando que o Rio Itapecerica é o responsável por mais de 70% da água que o divinopolitano consome”, destaca o biólogo Claudemir Cunha.
Preservar a nascente também significa proteger os rios
A escassez hídrica reflete um desafio estrutural em toda a bacia do Rio Pará. Com 365 quilômetros de extensão e cortando 35 municípios, ele tem como um dos principais alfuente o rio Itapecerica que abastece mais de 70% de Divinópolis. Conforme o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pará (CBH Rio Pará), José Hermano Oliveira Franco, o Rio Pará perdeu 35% de sua superfície de água nos últimos 20 anos.
Para ele, a preservação passa pela conscientização. “Conscientizar é uma das coisas mais necessárias, porque conscientizar é conseguir mostrar para as pessoas que todo mundo tem que atuar de alguma forma.”

Divinópolis possui outras áreas que precisam de proteção
A Nascente Bela Vista representa uma experiência de preservação, mas não é a única área do município que precisa de atenção.
A diretora ambiental de Divinópolis, Valdirene Gomes, afirma que a Prefeitura trabalha no planejamento. Embora reconheça a importância, o município não tem, até o momento, catalogadas as áreas que possuem nascentes.
“Hoje nós estamos trabalhando com o planejamento e catalogação dessas áreas para que possamos iniciar ações como educação ambiental, cercamento, colocar placas educativas nessas áreas para que as pessoas tenham conhecimento e protejam essas áreas.”
Segundo Valdirene, o objetivo é avançar na proteção desses espaços. Para isso, ela destaca a participação da população.
“É essencial ter o apoio da comunidade, da população, de forma que possamos ter o cuidado com a preservação ambiental.”
Além disso, a diretora chama atenção para problemas que podem atingir essas áreas, como descarte irregular de resíduos, entulho e queimadas.
“É extremamente importante termos esse apoio da população de forma que juntos possamos contribuir para o meio ambiente ecologicamente equilibrado para os presentes e futuras gerações.”
Escassez hídrica reforça importância da conservação
A necessidade de preservar os recursos hídricos também aparece nos dados do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM). Para ter ideia, nesta mesma época do ano em 2025, o órgão declarou escassez hídrica na bacia do Rio Pará.
O episódio atingiu Divinópolis, mas também alcançou outros municípios do Centro-Oeste: Itaúna, Itapecerica, Cláudio, Carmo do Cajuru, Carmópolis de Minas, Igaratinga, Pará de Minas, Pitangui, São Gonçalo do Pará e Nova Serrana, entre outros municípios listados no documento.
Na época, a portaria estabeleceu reduções nas captações autorizadas para consumo humano, dessedentação animal e abastecimento público. Portarias como essa têm se tornado comuns. Em 2024, o IGAM também declarou escassez hídrica.
Receba a notícia no seu celular. Participe do nosso grupo de WhatsAppCBH acompanha três microbacias
O CBH Rio Pará desenvolve ações de acompanhamento em áreas de conservação. Atualmente, o Comitê monitora três microbacias onde desenvolve o Programa de Conservação Ambiental e Produção de Água.
São elas:
Ribeirão dos Custódios, em Cláudio;
Ribeirão do Sapé, em Carmo do Cajuru;
Ribeirão Pari, em Pompéu.
O acompanhamento inclui dados de precipitação e nível da água durante a fase de projeto e também durante a execução das obras. Nos Ribeirões dos Custódios e Pari, o monitoramento inclui ainda análises da qualidade da água.
Segundo o CBH Rio Pará, porém, a avaliação dos efeitos das intervenções exige uma série histórica suficientemente longa. Afinal, fatores como o regime de chuvas e as condições climáticas também influenciam os resultados.
Por isso, o comitê informou que busca ampliar o acompanhamento por meio de estratégias de ciência cidadã. A proposta envolve moradores e proprietários das áreas onde existem réguas para medir o nível da água.

Conservação depende da participação da população
Na Nascente Bela Vista, Geraldo defende justamente essa participação.
“Quem mora em torno dessas áreas tem que ajudar, porque não adianta nada se eu que estou aqui perto e os vizinhos não olhasse aqui, isso aqui virava um Deus dará.”
Para ele, a preservação também envolve atitudes simples do cotidiano, como retirar resíduos encontrados no local e dar a destinação correta ao lixo.
A fala encontra respaldo na orientação da Secretaria de Meio Ambiente de Divinópolis. Segundo Valdirene, a população pode comunicar possíveis problemas ambientais pelos canais oficiais do município, incluindo o telefone 3229-8169 e o aplicativo Divinópolis.
Preservar a nascente é cuidar da água no futuro
O trabalho realizado na Bela Vista mostra como uma nascente pode se transformar em espaço de preservação, educação ambiental e participação comunitária.
Assim, preservar esses espaços significa olhar para a água antes que ela chegue aos rios. Também significa proteger a vegetação, a fauna e as áreas verdes que ajudam a manter o equilíbrio ambiental de Divinópolis e de toda a região.




