
Desde a saída da Kaiser – um trauma econômico que a cidade nunca superou – o Complexo da Ferradura virou a grande aposta para resgatar a pujança que Divinópolis já teve.
Quando se faz jornalismo local por muitos anos, alguns detalhes simplesmente não passam despercebidos. Eles voltam, como ecos, e nos obrigam a questionar. Os políticos mudam. Os discursos mudam. Mas os jornalistas ficam e lembram.
Divinópolis anunciou, nesta sexta-feira (5/12), um pacote de megainvestimentos: galpões logísticos modelo americano, classificados como AAA para atrair empreendimentos. O primeiro começa no Centro Industrial do bairro Icaraí, com aporte de R$ 100 milhões vindos de um empresário local. A previsão é de gerar 540 empregos, com obras previstas para iniciar nos próximos seis meses.
O segundo investimento mira o Complexo da Ferradura, com a construção de um novo centro industrial. E, é aqui que a retrospectiva se impõe. Desde 2009, o local ocupa páginas de jornais. Cito esse ano porque foi quando começamos a acompanhar Divinópolis. Mas, ouvindo colegas e empresários, ousamos dizer que essa história começou muito antes, atravessando administrações e promessas.
Desde a saída da Kaiser – um trauma econômico que a cidade nunca superou – o Complexo da Ferradura virou a grande aposta para resgatar a pujança que Divinópolis já teve. Lembro também do porto seco, assunto recorrente até o fim do governo Vladimir Azevedo, embora idealizado em gestões anteriores.
Proema e um sonho
A área do Complexo da Ferradura chegou a ser prometida à Proema, em 2009. O termo de intenções foi assinado com pompa no Palácio da Liberdade, entre diretores da empresa, o prefeito da época e o então governador Aécio Neves. Oito anos depois, a Proema decretou falência sem investir sequer um centavo na cidade. O projeto morreu nos papéis, como tantos outros.
Mas, fazendo justiça, foi a partir dessa articulação, ainda no governo de Vladimir Azevedo, com participação do deputado federal, na época estadual, Domingos Sávio, que começaram os primeiros investimentos para ligar o atual Centro Industrial à rodovia Divinópolis–Carmo do Cajuru. A obra ficou parada por anos, com uma ponte que não levava a lugar algum. Faltavam as alças, faltava continuidade, faltava vontade política. Ainda assim, ali estava o pontapé inicial.
Só no ano passado houve a inauguração da ponte, novamente com articulação de Domingos Sávio, mas já dois governos após Vladimir, no mandato do atual prefeito Gleidson Azevedo. Talvez, se a obra não tivesse sido iniciada lá atrás, hoje não haveria nem ponte, nem inauguração e talvez muito menos planos de megainvestimento. Não como se esperava, claro, mas havia uma semente plantada.
Promessas, no entanto, nunca faltaram. As páginas dos jornais, porque, à época, mal se falava em internet, registraram ciclos de entusiasmo, maquetes, projeções, discursos e expectativas. Renovava-se o ânimo, mas a cidade permanecia à espera.
Megainvestimento e nova expectativa
Agora, com empresários envolvidos, lideranças de vários segmentos e termos assinados, há finalmente uma perspectiva mais concreta de que Divinópolis consiga atrair empresas, gerar empregos e elevar a renda. Na cerimônia desta sexta-feira, falou-se em elevar o salário médio de R$ 2,1 mil para R$ 2,8 mil. Aposta-se na diversificação, na chegada de grandes empresas e na área de tecnologia impulsionada pela nova lei de inovação.
As entidades, de forma delicada, levaram um puxão de orelha. Cada uma para um lado, trabalhando frentes diferentes e sem resultados. O secretário de desenvolvimento econômico Igor Cardoso falou na importância da união para dar impulso à economia da cidade. Disse que a prefeitura quer conduzir os projetos e investimentos com a participação de todas.
Representantes do Sebrae e da Agência Novo Oeste integraram a mesa, enquanto lideranças de várias outras entidades acompanhavam o anúncio.
50 anos em 5
Se o prefeito Gleidson Azevedo quer, de fato, se apropriar do lema de Juscelino Kubitschek, “50 anos em 5”, como falado, esta é a oportunidade. São R$ 1,5 bilhão prometidos e 5,1 mil empregos projetados. Mas é preciso garantir que esse anúncio não termine engavetado, como tantos outros.
Vale lembrar da também propagada Cidade Tecnológica, planejada para uma fazenda na Comunidade dos Lopes, próxima à BR-494. Havia lei aprovada em 2014. Hoje, o projeto está defasado, morto, sem sequer servir como referência. Era bonito no papel, e ficou no papel.
Divinópolis vive de esperanças e anúncios. Mas desenvolvimento não se faz com cerimônias. Se faz com continuidade. E continuidade, esta sim, é a grande obra que a cidade segue esperando. Que o anúncio, cheio de entusiasmo, de fato, se torne a realidade que o povo desta cidade cheia de potencial merece.
Como citado pela vice-prefeita Janete Aparecida (Avante), são poucas aquelas que podem acrescentar um “s” no final das palavras universidade e faculdade. Tanto privadas como públicas. São poucas as com a estrutura hospitalar que Divinópolis possui e que também cabe um “s”. Estamos em meio a rodovias importantes e vivemos um ciclo com investimentos estruturantes.
Que o anuncio rompa esse trauma da cervejaria Kaiser e inicie um novo clico de pujança econômica.



