Desastre de Mariana completa 10 anos e moradores ainda buscam justiça

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Por -05/11/2025, às 08H36novembro 5th, 2025
Barragem da mineradora Samarco se rompeu no distrito de Bento Rodrigues, zona rural a 23 quilômetros de Mariana, em Minas Gerais - Foto Corpo de Bombeiros/MG - Divulgação

Uma década depois, dor e visão dos escombros continuam vivas na memória das vítimas

Auxiliar em um consultório odontológico, Mônica Santos, então com 30 anos, moradora do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), saiu de casa para o trabalho perto das 6h da manhã daquele 5 de novembro de 2015. Ela não imaginava que só veria sua casa novamente 24 horas depois coberta de lama e que, dez anos depois, ainda lutaria por justiça.

“É como se estivesse tudo acontecendo agora”, disse à Agência Brasil a líder comunitária, atualmente desempregada.

Naquele dia, a barragem do Fundão, operada pela mineradora Samarco, se rompeu e liberou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. O desastre matou 19 pessoas e deixou mais de 600 desabrigadas. Outras comunidades atingidas foram Paracatu de Baixo, Paracatu de Cima, Pedras, Águas Claras e Campinas.

“Eu não tinha mais nada”

Mônica recorda que recebeu uma ligação de uma prima naquela tarde, avisando sobre o rompimento. Desesperada, buscou a mãe no trabalho e tentou voltar para casa. Passou a noite na estrada. “O sol apontava no horizonte quando cheguei a um ponto mais alto e vi tudo coberto de lama. Foi nesse momento que a ficha caiu. Eu não tinha mais nada.”

A casa onde vivia com a mãe foi destruída. Segundo Mônica, a empresa garantia que a barragem era monitorada 24 horas por dia e que não havia risco. Ela perdeu cinco amigos próximos na tragédia.

Hoje, mora no reassentamento de Novo Bento Rodrigues, construído pela Samarco, a cerca de 13 quilômetros da antiga comunidade. “Mas a nossa casa ainda está cheia de problemas. Não foi entregue 100%. Ainda há obras em andamento e famílias que continuam desabrigadas”, relata.

Mesmo após tantos anos, ela segue em busca de reparação. “Enquanto eu tiver força, vou lutar para que as pessoas sejam de fato indenizadas e restituídas.”

Luta por justiça e memória

A principal esperança de Mônica é ver todos os atingidos reassentados e as indenizações concluídas. “Se tivesse acontecido a punição, não teria ocorrido a tragédia de Brumadinho”, afirmou, referindo-se ao rompimento ocorrido em 2019, que deixou 272 mortos.

Para Márcio Zonta, da direção nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, o caso revela como as decisões sobre mineração desconsideram a população local. “São projetos antidemocráticos. As empresas não levam em conta as comunidades atingidas”, avaliou.

Segundo ele, o Brasil ainda corre risco de novos desastres. O país tem 916 barragens, das quais 74 apresentam alto risco de colapso e 91 estão em alerta. “É onde o sistema de mineração da Vale está mais concentrado. Episódios como Mariana e Brumadinho são o colapso desse modelo”, afirmou.

“Mais que crime ambiental, uma violação de direitos humanos”

O promotor de Justiça Guilherme de Sá Meneguin, do Ministério Público de Minas Gerais, lembra que o rompimento atingiu cerca de 3 milhões de pessoas em Minas Gerais e no Espírito Santo.

“Afetou o meio ambiente, matou pessoas, destruiu economias. Mais do que um crime ambiental, foi uma grave violação de direitos humanos, que se perpetua ao longo do tempo”, disse, em entrevista ao programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil.

O superintendente executivo da Agência Nacional de Mineração, Júlio César Rodrigues, destacou que a regulamentação de barragens avançou, mas ainda há lacunas. “A política nacional de segurança de barragens está mais robusta, mas o mesmo não se repete nas pilhas de rejeitos”, afirmou.

Indenizações e reconstrução

De acordo com a Samarco, já foram destinados R$ 68,4 bilhões em ações de reparação e compensação desde 2015. Desses, R$ 32,1 bilhões foram pagos em 735 mil acordos individuais.

A empresa defende que os recursos “têm transformado a realidade econômica da bacia, estimulando o comércio, fortalecendo cadeias produtivas e gerando empregos”.

O agricultor Francisco de Paula Felipe, reassentado recentemente, ainda espera por melhorias. “Tem dois meses que consegui mudar para minha casa. Recebi parte da indenização, mas o restante ainda está na Justiça. Não foi fácil viver esses dez anos”, contou.

Ele tenta olhar para o futuro: “Espero ter saúde para criar minhas duas filhas, ver elas estudarem e seguirem a vida delas.”