Leucena está presente em várias áreas de Divinópolis, principalmente às margens do Rio Itapecerica e do Córrego Flecha; Prefeitura prepara ações para controlar a espécie e projeto prevê corte e substituição
A leucena, espécie originária da América Central, está presente em diferentes regiões do Brasil, inclusive em Divinópolis e chama atenção pelo avanço sobre áreas de vegetação nativa. A planta chegou ao Brasil como fonte de proteína para alimentação animal e, por apresentar grande capacidade de produção e dispersão de sementes, acabou se espalhando por diferentes ambientes.
Segundo o engenheiro agrônomo Geraldo Magela, a leucena foi levada para diferentes países justamente pelo alto teor de proteína. A espécie pertence à família das fabáceas e apresenta características que favorecem sua reprodução.
Cada árvore pode produzir milhares de frutos, enquanto cada fruto carrega muitas sementes. A planta também apresenta facilidade para germinar e utiliza o vento para dispersar suas vagens.

Leucena encontra condições favoráveis em áreas abertas
Em Divinópolis, a leucena aparece em diferentes pontos da cidade. Conforme Geraldo, a espécie encontra condições favoráveis principalmente em locais com bastante incidência de sol, como terrenos abandonados, lotes vagos, obras paralisadas e áreas sem vegetação ocupando o solo.
A planta também consegue se desenvolver em solos com baixa fertilidade, o que facilita sua presença em áreas degradadas e às margens de estradas.
A Prefeitura de Divinópolis afirma que a espécie está espalhada pelo território municipal. Entretanto, as vistorias técnicas apontam maior ocorrência nas Áreas de Preservação Permanente (APPs) do Rio Itapecerica e do Córrego Flecha.

“A leucena (Leucaena leucocephala) é encontrada em diferentes regiões de Divinópolis, estando presente ao longo de todo o território municipal. Entretanto, a partir das observações técnicas e das vistorias realizadas pelo município, verifica-se uma maior ocorrência nas Áreas de Preservação Permanente (APPs) do Rio Itapecerica e do Córrego Flecha, onde são observados trechos com maior concentração da espécie.”
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Avanço pode prejudicar biodiversidade
O problema ambiental aparece quando a leucena ocupa grandes áreas e dificulta o desenvolvimento de outras espécies. Segundo Geraldo, a planta pode dominar o território e impedir o crescimento de novas árvores e vegetações.
“Ou seja, ela se torna uma monocultura, ela se torna uma única planta dominando o local. E isso não é interessante, nós temos uma grande diversidade de espécies no Brasil, uma biodiversidade grande, e ela dominando um território, ela cria um ambiente de uma única diversidade.”
A diretora de Meio Ambiente da Prefeitura de Divinópolis, Valdirene Gomes, também aponta preocupação com o avanço da espécie sobre áreas de vegetação nativa. Segundo ela, a capacidade de disseminação e ocupação de áreas abertas pode dificultar a regeneração natural e alterar a composição da vegetação.
“A principal preocupação é o avanço da leucena sobre áreas de vegetação nativa, devido à sua capacidade de disseminação e ocupação de áreas abertas, podendo dificultar a regeneração natural de espécies nativas e alterar a composição da vegetação.”
Geraldo destaca ainda que a leucena pode formar uma espécie de “deserto verde”, com grande concentração da mesma planta. No entanto, ele ressalta que ainda faltam estudos para definir em quais situações a presença da espécie passa a representar um problema maior.
Prefeitura prepara plano para controlar a espécie
Diante desse cenário, o município iniciou a elaboração do Plano Municipal de Arborização Urbana (PMAU). O trabalho inclui um censo dos indivíduos arbóreos existentes na área urbana, o que deverá permitir identificar com mais precisão a distribuição da leucena e outras espécies.
A Prefeitura afirma que o levantamento será importante para orientar as próximas medidas de manejo.
“Esse levantamento possibilitará identificar com maior precisão os locais de ocorrência e concentração das leucenas, fornecendo informações importantes para o planejamento das futuras ações de manejo e controle da espécie.”
Dados extraídos do Painel Climático – disponível no Portal Gerais em parceria com o DoClima – revelam que a vegetação primária (mata que nunca foi derrubada) de Divinópolis caiu de 21.870 hectares em 1985 para 12.112 hectares em 2024. Já a secundária (que regenerou) subiu para 5.111 hectares.
O plano de arborização vem para ampliar a cobertura verde da cidade ao mesmo tempo que surge para identificar essas espécieis que precisam ser controladas por colocarem em risco a biodiversidade.
Paralelo, existe o Projeto de Lei 181/2025 em tramitação na Câmara Municipal que trata exatamente do corte e da substituição da leucena. A proposta de autoria do vereador Vitor Costa (PT) está parada na câmara há um ano. Na justificativa, ele afirma que a “Leucena compromete a biodiversidade local, impede o crescimento de espécies nativas e dificulta projetos de reflorestamento”.
“Sua erradicação está em consonância com os princípios da sustentabilidade, além de contribuir para a melhoria paisagística e ambiental do município”, afirma Vitor Costa.
Depois da conclusão do PMAU, a Prefeitura prevê a elaboração de um Plano de Erradicação de Espécies Invasoras e Recuperação Ambiental. O documento deverá estabelecer critérios, prioridades e estratégias para o controle e a erradicação de espécies invasoras, incluindo a leucena.

Retirada da leucena exige planejamento
Apesar da preocupação com a expansão da espécie, a retirada das árvores não deve ocorrer de forma indiscriminada. Segundo Valdirene, o simples corte pode não resolver o problema, já que a planta consegue se regenerar quando o solo permanece exposto ou quando não ocorre a recuperação adequada da vegetação.
“A simples retirada dos indivíduos de leucena nem sempre é suficiente. O controle da espécie deve estar associado a um planejamento de recuperação ambiental bem estruturado, especialmente quando a intervenção ocorre em áreas de vegetação nativa, APPs ou fragmentos florestais.”
Por isso, o município pretende associar o controle à recuperação das áreas afetadas. O planejamento deverá considerar a presença de vegetação nativa, a regeneração natural e o grau de ocupação pela leucena.
Outro cuidado envolve o destino do material retirado. Frutos, sementes, folhas, galhos e outras partes da planta que possam contribuir para a disseminação precisam receber destinação adequada para evitar novos focos.
Geraldo também defende que o município conheça melhor a distribuição da espécie antes de definir as ações. Para ele, o controle precisa partir de um planejamento baseado na realidade de cada local.
“Primeira ação é plano, planejamento, conhecimento melhor da espécie, conhecimento da realidade dela no local onde se pretende fazer esse plano.”
Moradores não devem retirar árvores por conta própria
A Prefeitura orienta que moradores não façam a retirada da leucena por conta própria. Qualquer solicitação de supressão de árvore deve passar por protocolo junto ao município, independentemente da espécie.
Segundo a administração municipal, o Código de Posturas de Divinópolis proíbe podar, cortar, derrubar, remover ou sacrificar árvores sem o prévio licenciamento da Prefeitura.
“A orientação é a mesma para leucenas e árvores nativas: havendo necessidade de supressão, é necessário abrir previamente o protocolo junto à Prefeitura e aguardar a avaliação e autorização correspondente.”
Após o protocolo, a equipe técnica avalia a espécie, o local e as condições ambientais para definir a medida adequada.
A recomendação ganha ainda mais importância quando a leucena está próxima de áreas de vegetação nativa, áreas de preservação, cursos d’água ou fragmentos florestais. Nesses casos, o manejo precisa evitar a dispersão de sementes e outros impactos ambientais.

Controle precisa considerar cada área
Para Geraldo, a leucena não deve ser tratada da mesma forma em todos os locais. Ele defende estudos para identificar onde a presença da espécie pode ser considerada aceitável e onde ela já prejudica a vegetação e a paisagem.
“E aí sim, tem um plano para que seja feito um manejo adequado para que ela não cresça de forma desorganizada, como na verdade já está.”
O agrônomo também afirma que a espécie merece atenção especial porque, em determinadas situações, pode dificultar projetos de restauração ambiental.
A Prefeitura trabalha para ampliar o conhecimento sobre a distribuição da leucena em Divinópolis e definir estratégias de controle e recuperação ambiental. Enquanto isso, a orientação é evitar a retirada sem autorização e comunicar ao município situações que possam exigir avaliação técnica.






