Disse me disse

Num mundo de tantos fatos o que é a verdade, então? Será uma mera fração do que antes era entendido como razão? Num ambiente de extrema divisão em que cada um entende ter razão, a verdade é frágil.

Ninguém está muito preocupado com ela. O que é preciso é estabelecer roteiros, criar narrativas e sustentá-las à exaustão. Assim, com o tempo o discurso vai se tornando palatável, fácil de absorver.

Entenda, o dito não se tornou verdade. Só se passou a acreditar nele. De mentira em mentira, ou como preferirem, de meia verdade em meia verdade, o entendimento vai se formando.

Na análise do que é fato, a lógica e o bom senso vão se perdendo e o entendimento vai se tornando visceral. Algo tão primitivo que parece ter razão quem grita ou tem mais repetidores. Ecos.

Nesse tipo de ambiente não há espaço pro razoável… para o debate. É no confronto que se mede a força. No exercício do medo e da pressão. Eu não preciso ter bons argumentos, basta eu deslegitimar o meu oponente. Mesmo que a razão esteja com ele.

Num mundo tão urgente e repleto de narrativas a verdade pode carecer de tempo para se impor. Muito do que é defendido agora pode cair amanhã, semana que vem ou daqui a dois anos ou mais.

O problema é quando compramos o engodo como verdade e nele apostamos fichas para só depois saber que a verdade confiada e alardeada era só mais uma fraude. Vai faltar tempo para arrepender.

Em termos de contemporaneidade, o Brasil anda cheio de falsas verdades. Somos um povo, em certa medida, dócil. E todo dócil é crente ou temente a autoridade ou a quem ela representa. O problema é que não dá para confiar nas “verdades” defendidas por determinadas autoridades.

Esta instabilidade no trato da verdade leva a um quadro de convulsão social e a autoridade fica desacreditada. Sem ninguém para guiar fica cada um puxando para um lado e os poderes se atropelam… Se agridem.

Neste momento de travessia, determinadas verdades foram e são negligenciadas. O resultado se chora, se quantifica em covas e no número de desempregados.

A verdade pressupõe luz, lucidez e clareza. Isso é tão óbvio e clichê e mesmo assim parece soar estranho para algumas pessoas.

“E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”.

Escrita por João, 8:32, a passagem, acima, é reveladora. Mas mesmo clara e assertiva ela vira mera narrativa na boca dos profanadores da boa fé de quem anda cansado de tanto “disse me disse” que não leva a lugar nenhum e tão pouco resolve os problemas.

Faltam, falta a verdade.

Rodrigo Dias

Rodrigo Dias

É jornalista e web poeta, há mais de duas décadas trabalha no mercado de comunicação. Formado em Publicidade e Propaganda, também atua como assessor de comunicação.

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