Nos 114 anos de Divinópolis, a trajetória do cantor, compositor e regente revela como a música ajudou a construir a identidade cultural da cidade
Por Heloisa Benicio
Divinópolis completa 114 anos e, ao longo de mais de um século de história, construiu sua identidade por meio de pessoas que ajudaram a transformar a cidade em uma referência cultural no Centro-Oeste de Minas Gerais.
Entre esses nomes está o cantor, compositor, instrumentista, regente e escritor Gê Lara, cuja trajetória se entrelaça com a própria história artística do município. Mais do que testemunhar as transformações da cidade, ele ajudou a construir parte de sua memória cultural por meio da música.
As raízes musicais no coração de Divinópolis
Nascido em Divinópolis, Gê Lara cresceu em um ambiente marcado pela arte, pela espiritualidade e pelo aprendizado coletivo. Sua história com a música começou no Centro Franciscano de Formação e Cultura, antigo Convento Santo Antônio.
Ainda criança, integrou o coral Pequenos Cantores da Cruz de São Damião, coordenado pelo frei franciscano Joel Postma, músico holandês que chegou à cidade na década de 1960 e se tornou uma importante referência para a formação artística de jovens divinopolitanos.
A influência da música e da fé católica acompanhou Gê Lara ao longo de toda a sua trajetória. Na adolescência, participou ativamente de grupos de jovens, cantou em celebrações religiosas e encontrou nos ensinamentos franciscanos uma das bases de sua formação humana e artística.
Foi também dentro do convento que surgiu um ambiente fértil para o desenvolvimento musical de uma geração inteira. O grupo de jovens interessados em música recebeu uma sala de ensaios onde tinha acesso a instrumentos como contrabaixo acústico, harmônio francês, violino, violoncelo, violões e flautas. Além disso, um baú repleto de partituras permitiu que aqueles jovens aprendessem teoria e notação musical.
Os grupos que marcaram uma geração
Desse encontro nasceram importantes grupos que marcaram a cena cultural de Divinópolis. Um deles foi o Fórmula, formado por Lemão Lara, Kiko Lara, Jairo Lara, Lou Petrus e Davi Dâmaso, conhecido como Grão.

Pouco depois, no início da década de 1970, surgiu o grupo Ad Canto, que mesclava influências do pop e do rock e contava com Lemão Lara na bateria, percussão e voz; Jairo Lara na guitarra, violão, flauta e voz; Kiko Lara no baixo, violoncelo e cavaquinho; e Lou Petrus no violão, violino e voz.

A partir dessas experiências, Gê Lara transformou a paixão pela música em uma carreira sólida e reconhecida. Enquanto Divinópolis crescia e se desenvolvia, o artista também ampliava sua atuação e consolidava seu nome na cultura mineira.
Divinópolis nos palcos do Brasil
Embora tenha vivido experiências em outras cidades, incluindo o Rio de Janeiro, Gê Lara jamais rompeu os laços com Divinópolis. Pelo contrário, levou consigo as referências culturais adquiridas na cidade e as transformou em parte essencial de sua obra.
Seu trabalho valoriza a música brasileira, os ritmos populares e as manifestações culturais do interior. Além disso, participou de festivais nacionais, dividiu palco com importantes nomes da música brasileira e levou o nome de Divinópolis para diferentes regiões do país.
Mais do que representar a cidade, Gê Lara ajudou a projetar sua riqueza cultural para além das fronteiras do Centro-Oeste mineiro.
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Muito além dos palcos e o legado para a cultura
Além da carreira como cantor e compositor, Gê Lara também se dedicou à formação artística. Ao longo dos anos, coordenou grupos vocais que marcaram a cultura de Divinópolis, como o Uirapuru Canto Livre, o Coro Corinho, o Sambei e o Bloco Uirapirô. Dessa forma, reuniu diferentes gerações em torno da música e, ao mesmo tempo, incentivou novos talentos..
Entre as contribuições mais marcantes de Gê Lara para Divinópolis está o tradicional Concerto de Natal, realizado desde 1976. Ao longo dos anos, o evento se consolidou como uma das mais importantes manifestações culturais do município, reunindo gerações de músicos, famílias e admiradores da arte.

A literatura como extensão da arte
Além da música, Gê Lara também encontrou espaço na literatura. Em 2014, lançou o livro Tundé no Mundo da Lua. Em seguida, em 2015, apresentou o audiolivro O Perdão de Nelinha, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais. Já em 2021, publicou O Último Voo da Borboleta. Assim, ampliou sua contribuição para a cultura e para a formação de leitores.

Um espaço para criar e ensinar
Paralelamente, Gê Lara criou o Studio DuGê, dedicado a gravações, ensaios e aulas de ukulelê. Além de desenvolver seus próprios projetos, o artista passou a apoiar músicos da região. Com isso, ajudou a fortalecer a produção cultural e a cena musical de Divinópolis.
Uma vida que se confunde com a história da cidade
Ao celebrar 114 anos, Divinópolis também celebra personagens que ajudaram a construir sua identidade cultural. A trajetória de Gê Lara demonstra como a arte é capaz de atravessar gerações, preservar memórias e fortalecer os vínculos entre uma cidade e seu povo.
Assim como Divinópolis cresceu e se transformou ao longo de mais de um século, a música de Gê Lara acompanhou essa caminhada. Em cada canção, apresentação ou projeto cultural, o artista ajudou a escrever capítulos da história divinopolitana, transformando sua trajetória em parte da memória afetiva da cidade.
Porque algumas pessoas passam pela história de um município. Outras, como Gê Lara, ajudam a cantá-la para que nunca seja esquecida.



