Divinópolis 114 anos: GTO, o homem que esculpiu a alma da cidade do Divino

CulturaMinas Gerais
Por -04/06/2026, às 14H24junho 4th, 2026
Arquivo Heloisa Benicio

Ao completar 114 anos, Divinópolis celebra também a trajetória de Geraldo Teles de Oliveira, artista que fez da madeira uma extensão da vida e levou a cultura popular da cidade para o Brasil e o mundo

Por Heloisa Benicio

Ao completar 114 anos, Divinópolis celebra uma história escrita por muitas mãos: trabalhadores, ferroviários, músicos e escritores. Histórias que nasceram nas margens do Rio Itapecerica e atravessaram gerações. No entanto, entre esses personagens, um nome ocupa um lugar singular na memória da cidade: Geraldo Teles de Oliveira, o GTO.

Mais do que um artista, ele se tornou um narrador da vida. Sem papel, sem tinta e sem palavras, ele escolheu a madeira como linguagem. Nela, registrou as festas, a religiosidade, os costumes e os sentimentos do povo do interior. Embora seu nome tenha conquistado reconhecimento nacional, a inspiração permaneceu sempre em sua terra. Antes de pertencer ao Brasil, a obra de GTO pertence a cidade do divino.

Quem me narra a tragetória da vida e arte de GTO é seu neto, o também escultor Alex Teles, o principal responsável por ainda manter em movimento o legado deixado pelo avô.

A Trajetória do Ferroviário que Virou Artista

Geraldo Teles de Oliveira nasceu em 1913 em Itapecerica- MG e mudou-se para Divinópolis ainda em seus primeiros meses de vida. Enquanto o município, que ainda se chamava Arraiá do Divino dava seus primeiros passos, começava também a trajetória daquele que se tornaria um dos maiores nomes da arte popular brasileira.

Foto: Ângelo Oswaldo de Araújo Santos
Historiador / Prefeito de Ouro Preto MG

A princípio, nada indicava que aquele menino simples, que trabalhava em lavoura se transformaria em um gênio da escultura. Assim como milhares de divinopolitanos, GTO construiu sua vida pelo trabalho duro. Durante décadas, trabalhou na Camig, antiga Usina de Álcool Motor , onde hoje opera o Teatro Municipal Usina Gravatáatuou, atuou também como ferroviário da Rede Mineira de Viação, levando uma rotina comum.

Portal Em Redes/Acervo CEMUD

Já impossibilitado de trabalhar em serviços pesados, Geraldo Teles recebeu a oportunidade de trabalhar como guarda noturno, durante a construção do hospital São João de Deus (Complexo de Saúde São João de Deus), por volta da década de 70. Em uma dessas noites, o artista diz ter sido conctado por algo maior, o que pra ele se configurava o próprio “Divino”. Foi através de um sonho que GTO visualizou o que viria a ser uma de suas primeiras obras, uma escultura em formato de uma capela, feita completamente em madeira.

Sem ter nenhuma experiência, nem ao menos conhecer as ferramentas, Geraldo começa a transformar seus sonhos em realidade. Não havia ambição financeira, mas sim uma necessidade vital de externalizar as imagens que carregava na memória: as festas religiosas, os cortejos de folia e o cotidiano do operariado. Três anos depois das primeiras criações, o país já passava a conhecer as esculturas que, logo adiante, ganhariam o mundo.

Quando a Memória Virou Escultura

As obras de GTO chamavam atenção imediata pela riqueza de detalhes e densidade. Centenas de pequenas figuras humanas se agrupavam em blocos de madeira, criando movimentos contínuos e simétricos. Era como se cada peça guardasse dezenas de histórias vivas.

Dessas interações nasceram as esculturas que remetiam às procissões, aos presépios e às manifestações culturais mineiras. Essas figuras sobrepostas e organizadas em estruturas circulares deram origem ao conceito mais famoso de sua produção: a “Roda da Vida”.

Arquivo pessoal da família Teles

Sem qualquer formação acadêmica ou técnica tradicional, GTO criou um estilo próprio, rústico, espontâneo e profundamente humano.

O Reconhecimento que Veio da Simplicidade

O trabalho que começou no quintal de casa logo chamou a atenção de críticos e intelectuais. As esculturas produzidas em Divinópolis encantaram grandes nomes da literatura e da cultura brasileira, tais como: Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Mário Quintana e com sua conterrânea Adélia Prado, com quem manteve uma amizade e um carinho cultivado mesmo após a partida do escultor.

Arquivo pessoal da família

Pouco a pouco, o ferroviário aposentado se transformava em referência na arte contemporânea. Apesar da notoriedade e dos convites, GTO nunca abandonou a simplicidade. Continuou residindo em Divinópolis, extraindo inspiração do povo comum. Sua arte não falava de reis ou de guerras; falava de fé, de memória e de vida.

As Marcas Deixadas na Madeira: A Identidade de GTO

As esculturas de GTO possuem elementos visuais únicos que tornam seu trabalho inconfundível para colecionadores e críticos de arte por todo o mundo. Todas as obras possuem uma mesma técnica: são todas feitas a mão. Sem interferência de lixas ou nenhum outro tipo de materias elético.

Os blocos de madeira eram minuciosamente perfurados, criando um jogo de luz e sombra que dava leveza às peças pesadas. As pequenas figuras humanas ostentavam olhos expressivos e profundos, esculpidos com batidas firmes de formão. Suas peças traziam a icônica marca “G.T.O.” entalhada diretamente na madeira, selando a autenticidade de sua narrativa popular.

O Museu GTO e as Três Gerações de Arte

A antiga casa onde Geraldo Teles de Oliveira viveu e produziu se transformou no Museu Residência GTO. Mais do que um espaço de exposição, o local concretiza o maior desejo do artista: ver sua obra preservada e compartilhada com as futuras gerações.

À frente dessa missão está Alex Teles, neto de GTO e diretor do Museu. Para ele, preservar esse patrimônio significa manter viva uma herança que ultrapassa a própria família e guarda a identidade do município.

Hoje o museu, juntamente com a secretaria de cultura de Divinópolis, abre as portas para receber o projeto de ate-educação Escola no Museu, Museu na Escola, onde atende escolas da rede munipal, estadual, federais, além de faculdades para apresentar as obras e a história de GTO, pensando também em criar um caminho para o apoio da saúde mental.

“A gente acredita que a arte é um grande remédio apra a saúde. ” Afirma Alex Teles

Ainda quando Alex era criança, o avô já enxergava no neto a continuidade do seu trabalho. Apelidado carinhosamente por ele de “Olhos Vivos”, o menino enchia o coração de Geraldo de alegria ao ver a terceira geração compartilhando da mesma arte. O mestre, então, confidenciava ao neto:

“Alex, lembre-se que seu avô não morre, onde você for a obra e a memória estarão vivas.”

Um Legado Eterno

O legado do mestre passou para seu filho, Mário Teles, e, posteriormente, chegou a Alex Teles. Essa transmissão aconteceu de forma natural, pelo convívio e observação na oficina familiar. Somando as três gerações, são cerca de 68 anos de dedicação à escultura e mais de 20 mil obras espalhadas pelo mundo.

Além das técnicas de corte e entalhe, a família destaca que GTO transmitiu valores fundamentais como o respeito às tradições populares, a perseverança e a criatividade.

Décadas após sua partida, a obra de GTO continua quebrando barreiras geográficas. Exposições recentes levaram suas esculturas para grandes capitais brasileiras como São Paulo, Brasília, Recife, Fortaleza e Belo Horizonte.

No cenário internacional, o nome do artista e de Divinópolis ganhou destaque em mostras na Europa, como na cidade de Bruges, na Bélgica. A consagrada exposição “GTO – De Divinópolis para o Mundo” reafirmou que a história do escultor se confunde de forma umbilical com o desenvolvimento do próprio município.

Como herdeiro direto do talento e da técnica do pai, o artesão Mário Pereira Teles foi agraciado com a Medalha da Inconfidência, a maior honraria concedida pelo Estado de Minas Gerais. O recebimento da medalha em Ouro Preto não é apenas um reconhecimento ao trabalho autoral e refinado de Mário, mas também a prova definitiva de que o legado de GTO permanece vivo, respeitado e em constante expansão. Ao receber a distinção, Mário Teles consolidou a arte que nasceu no quintal de Divinópolis como um pilar eterno da identidade cultural mineira.

GTO continua vivo em cada peça que emociona o espectador, nas mãos de Mário e Alex, e na memória coletiva dos divinopolitanos. Enquanto suas esculturas em madeira permanecerem de pé, o espírito do artista habitará as ruas e a cultura de uma cidade feita de trabalho, de fé e de grandes histórias.