Com investimento público e esforço coletivo, bairros recebem contêineres, também chamados de lixeiras sustentáveis, para evitar entupimento de bueiros, assoreamento de córregos e preservar o meio ambiente.
Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas, produz em média 240 toneladas de lixo diariamente, o equivalente a cerca de um quilo por morador, segundo dados da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur). Na busca por uma cidade mais limpa, um projeto-piloto ganha força: áreas com acúmulo histórico de entulho começaram a receber contêineres para evitar que os resíduos se espalhem pelas ruas e gerem transtornos urbanos.
O PORTAL GERAIS esteve em um dos pontos para conferir o funcionamento da ferramenta. No bairro Candelária, a chamada “lixeira sustentável” foi instalada na rua Iriri, bem no cruzamento com um córrego de nome sugestivo “Sujo”.
O objetivo da implantação dos 30 contêineres já espalhados pelo município é preservar o espaço urbano e evitar que o lixo espalhado vá parar no leito do córrego, prevenindo o assoreamento e transbordamentos no período chuvoso.

Em áreas de mata, a iniciativa também combate a formação de criadouros para o aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya.
“Os contêineres de coleta de resíduos domésticos auxiliam na diminuição do impacto ambiental negativo no nosso cotidiano”, afirmou o ambientalista e biólogo Claudemir Cunha.
Qualidade de vida
Para se ter ideia, uma simples garrafa PET leva em média 425 anos para se fragmentar. “A matéria prima para a composição do elemento plástico é altamente contaminante no solo, citei esse exemplo, pois dentro do nosso dia-a-dia, não vivemos sem o plástico. Quantas toneladas são geradas diariamente e necessitam serem recolhidas e destinadas de maneira adequada?”, indaga.
Para ele, toda ação eficaz que impossibilite o descarte inadequado é uma atividade positiva na manutenção da qualidade de vida.
Como surgiu o projeto?
O projeto surgiu por iniciativa do vereador Welington Well, com a destinação de R$ 130 mil em emendas. A aquisição de outros 100 contêineres já está em processo de licitação pela prefeitura, conforme informou o parlamentar.
“Antes de manifestar o interesse de fazer o projeto, sentamos na Secretária Municipal de Serviços Urbanos com as pessoas que já trabalham o lixo em Divinópolis e entendemos que o contêiner vem para colaborar, ser uma peça a mais a disposição da comunidade, visto nos bairros, onde tem concentração e lixo mais visível”, explica o parlamentar.
Os 30 primeiros equipamentos foram distribuídos pelos bairros Jardim das Oliveiras, Danilo Passos, Vila Romana, Universitário, Manoel Valinhas, São Lucas, Niterói, bem como na região de bares de Santo Antônio dos Campos (Ermida).
“A instalação nesses locais estratégicos evita que o lixo armazenado em dias incorretos possa ir para o córrego, entupindo leitos.”, explica o gerente de Manutenção Urbana, Edson Antônio Fernandes.
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Como funciona?
Em vez de colocar o lixo na porta de casa, o morador deve armazená-lo ensacado dentro do contêiner. Nos dias e horários definidos no cronograma municipal, o caminhão da coleta, então, recolhe os resíduos. A manutenção e higienização das lixeiras devem ocorrer a cada três meses pela equipe da prefeitura, de acordo com o gerente de manutenção.
Contudo, para o sistema funcionar, o engajamento da população é fundamental. “A prefeitura sozinha não consegue. Dependemos da ajuda da população. Tem informado nos contêiners a data das coletas. É importante que a população armazene de forma correta, de preferência próximo ao horário que ocorre a coleta, as pessoas sabem o horário próximo que o caminhão passa, para evitar transtorno. Porque o lixo colocado de forma errada vai para o meio do mato, causa dengue, causa o entupimento da rede pluvial, do córrego”, completa o gerente.

Transformação do ambiente
A população local já sente a diferença. O trecho antes coberto por mato e entulho começou a ganhar uma nova rotina.
“O trabalho ocorreu junto com a comunidade, provocando o envolvimento. As margens do Córrego Sujo, a partir da limpeza, a comunidade se uniu e está recuperando o trecho para transforma-lo em um espaço de convivência”, conta o vereador.
O local já recebeu a instalação de um guarda-corpo e há um projeto de revitalização financiado pelos próprios moradores. A expectativa é que a mudança permita até rebatizar o córrego com um nome que represente esta nova fase.
“A gente não depende apenas da prefeitura para fazer o trabalho dela. Isso é conscientizar toda a população para que consiga nos ajudar a manter os espaços bem organizados”, afirma o morador Maicon Carvalho.
A estrutura reduz o carregamento do lixo pela água da chuva até bueiros, galerias pluviais e o próprio leito do córrego. Assim, minimizando o risco de obstruções e alagamentos.
Desafios e conscientização
Embora não resolva sozinha o gargalo da gestão de resíduos urbanos, a ação ajuda a minimizar os danos. O sucesso do projeto, no entanto, depende do alinhamento de toda a cadeia de serviços.
“A efetivação dos resultados que se buscam com a iniciativa do container dependem fundamentalmente da coleta regular pelo serviço de coleta de resíduos sólidos do município, a manutenção e higienização do contêiner, do dimensionamento prévio com vistas a atender o volume de resíduos gerados naquela localidade”, destaca o biólogo Adriano Parreira.
Além do respeito dos moradores aos horários e regras de uso, o especialista aponta que o poder público precisa atuar em outras frentes. Dentre elas, intensificar a fiscalização do descarte irregular, frequente nas regiões periféricas , ampliar os investimentos na coleta seletiva para reduzir o volume enviado ao aterro, implementar um programa robusto de educação ambiental nas escolas e buscar financiamento para o novo local de destinação final dos resíduos sólidos de Divinópolis.
Cidade mais limpa e a coleta seletiva
Em resumo, a construção de uma cidade mais limpa passa por três pilares fundamentais: políticas públicas com infraestrutura adequada, educação ambiental e valorização dos catadores. “A primeira delas é garantir uma estrutura pública que permita o funcionamento adequado da coleta e da destinação dos resíduos”, explica a presidente da ONG Lixo e Cidadania, Andréia Maria.
Isso envolve não apenas a coleta regular, mas também a oferta de locais e serviços apropriados para diferentes tipos de resíduos. Andréia defende o combate rigoroso a práticas ainda comuns nas áreas urbanas, como os bota-foras ilegais, utilizados para o descarte irregular de entulho, móveis e outros materiais.
“Também é fundamental estruturar e ampliar a coleta seletiva, para que os materiais recicláveis possam efetivamente chegar à reciclagem”, completa.
A presidente da ONG aposta em ações que despertem a consciência coletiva de que o lixo é uma responsabilidade de todos. “Essa responsabilidade começa na redução daquilo que consumimos e geramos e continua na separação e na destinação correta dos resíduos, especialmente daqueles que podem ser encaminhados para a coleta seletiva”.
Dentro desta estrutura não podem ser negligenciados a valorização e o apoio aos catadores.
“Eles são verdadeiros agentes ambientais, porque, por meio do seu trabalho diário de coleta em toda a cidade, contribuem para que uma parcela significativa dos resíduos seja encaminhada para a reciclagem. É um trabalho que beneficia não apenas o meio ambiente, mas toda a sociedade”, defende.
Combinação de políticas públicas
Não existe uma solução única ou mágica para a gestão dos resíduos sólidos. O caminho exige a combinação de políticas públicas, infraestrutura, educação ambiental e fortalecimento dos catadores. “Cada uma dessas partes tem um papel importante para que a cidade consiga lidar melhor com os seus resíduos”, pontua.
Embora a instalação de lixeiras e contêineres ajude, o problema exige uma engrenagem mais estruturada, que passa necessariamente pelo fortalecimento da coleta seletiva. “Não tem divulgação de rotas detalhadas, ninguém sabe em que ruas o caminhão passa. Algumas pessoas colocam seu resíduo e o caminhão não passa (o que desestimula a participação). Não são adequadamente divulgados os resultados da coleta, nem tampouco são feitas ações mais efetivas de educação ambiental especificamente voltadas para a coleta seletiva”, lista Andréia.
Para ela, gargalos persistem nas duas pontas: na operacionalização da coleta e no engajamento da população. “Dado o grau de desorganização do sistema de coleta seletiva, difícil saber onde está o maior problema”, conclui.
Atualmente a coleta seletiva funciona de segunda à sexta em bairros específicos de Divinópolis. Veja o cronograma mais recente divulgado pela prefeitura.
Panorama do resíduo sólido no Sudeste do Brasil
O Panorama dos Resíduos Sólidos Brasileiros divulgado anualmente pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA) aponta que a região Sudeste, em que Minas Gerais está inserida, produziu no ano passado 40,1 milhões de toneladas de RSU, representando 49,2% do total nacional.
A média per capita de Divinópolis ainda está um pouco abaixo da média da região, 1,241 kg por habitante diariamente.
Do total do lixo gerado, 71,3% dos resíduos da Região Sudeste encaminhados para disposição final vão para aterros sanitários (disposição adequada). Já 28,7% ainda têm destino inadequado. Esse é o caso de Divinópolis, que ainda dispõe de aterro controlado.
O Sudeste apresenta a maior despesa per capita anual do país em serviços de manejo de RSU, com R$ 132,80 por habitante/ano.






