Do humor a racismo: Por que a postagem do prefeito de Divinópolis legitima o preconceito, conforme especialista

Minas Gerais
Por -16/02/2026, às 10H06fevereiro 18th, 2026
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Foto: Reprodução Redes Sociais

Especialista alerta que o chamado racismo recreativo naturaliza estereótipos, legitima desigualdades e ultrapassa os limites do humor.

*Por Brenda Fernandes

Uma publicação do prefeito de Divinópolis gerou uma forte onda de acusações de racismo recreativo e indignação nas redes sociais nesta semana, após associar a imagem das partes íntimas de um macaco aos lábios de um assessor negro. O conteúdo, que viralizou rapidamente, foi classificado por parlamentares e especialistas como uma forma de “violência simbólica” que, sob o pretexto de humor e brincadeira, legitima o preconceito e reforça estereótipos raciais na gestão pública.

A vereadora Kell Silva criticou a postagem e denunciou o prefeito no Ministério Público por racismo recreativo. Em vídeo nas redes sociais, ela afirmou: “Isso não é humor, não é brincadeira, é racismo. Esse tipo de postagem legitima o preconceito, reforça estereótipos e normaliza a violência simbólica contra os nossos corpos, contra os corpos negros” .

O debate se intensificou por envolver uma autoridade pública. Após a repercussão, em novo vídeo Gleidson Azevedo pediu desculpas e apagou a postagem. Mas afinal, o que é racismo recreativo e porque a postagem do prefeito legitima o preconceito?

Especialista aponta violencia simbolica

O PORTAL GERAIS ouviu o cientista social da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e o doutorando em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Genivaldo Souza. Conforme ele, quando uma autoridade compartilha esse tipo de conteúdo, a ação legitima práticas racistas, ainda que não haja agressão física.

“Quando uma pessoa como prefeito faz isso, ele está legitimando o racismo, ainda que não seja por meio de uma agressão física, verbal, mas ele está fazendo uma violência simbólica, e aí ele não mensura o impacto que isso tem em outras pessoas”, afirma.

O cientista social destaca que o cerne do episódio reside na tentativa histórica de desumanização e na estigmatização da população negra. De acordo com o especialista, a prática de vincular traços físicos ou intelectuais a algo que seja socialmente negativo, por exemplo, o caso do gorila, ignora o impacto sobre grupos que já enfrentam exclusões sistemáticas.

“Seja um animal, no caso do gorila, um ser irracional, seja com relação à escolaridade, falando que as pessoas negras são menos inteligentes, poderia listar aqui uma série de outras coisas”.

Minoria étnica

Em seguida, completa:

“O ponto é que isso foi naturalizado, e aí você desfoca a ação para o sujeito, independente do conteúdo do vídeo. Esse sujeito faz parte de uma minoria étnica, minoria de cor, enfim, de grupos que são tradicionalmente excluídos das políticas públicas, da sociedade, do acesso a uma série de coisas. E são alvos principalmente da desigualdade. “Então acho que esse é o ponto central”, analisa.

Ele também afirmou:

“Eu acho que ao usar uma pessoa negra no vídeo onde se tem um macaco, você automaticamente é racista. Isso não é para brincar, isso não é pra rir e, principalmente, isso não é para ser feito no espaço público, na internet, no debate público. Isso cabe, sim, repúdio, pela maneira como isso chega até as pessoas.”

Até onde a internet é ‘Terra sem Lei”

Ainda conforme o pesquisador, o ambiente digital não elimina responsabilidades.

“A pessoa pega a trend e fala: é uma pessoa negra fazendo, ou seja, ela legitima o discurso do blackface, que é um discurso extremamente pejorativo e criminoso, dentro dessa dinâmica de que na internet pode tudo”, afirma.

Especialista pondera que a amplitude da internet não deve ser confundida com a ausência de limites éticos ou legais, especialmente quando o conteúdo parte de figuras públicas. Para ele, o fato de a rede abrigar uma diversidade de vozes e ideologias é justamente o que torna o respeito às regras fundamental para a convivência social.

“A internet é um espaço democrático. Mas é exatamente por ser esse espaço que ela exige regras. Não quer dizer que as pessoas podem acessar aquele espaço e falar qualquer coisa ou mostrar qualquer coisa”, ressalta.

Racismo pode ser humor?

O racismo é crime inafiançável e imprescritível no Brasil desde a promulgação da Constituição Federal. A regulamentação específica veio com a Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei Caó, que define crimes resultantes de preconceito de raça ou cor.

De acordo com dados da Educafro, os casos de racismo contra a coletividade aumentaram de 14.919 em 2023 para 18.923 em 2024. Já os registros de injúria racial contra indivíduos saltaram de 12.813 para 18.200 no mesmo período. Portanto, os números indicam crescimento nas ocorrências.

O cientista reforçou:

“O ponto central é a gente perceber que racismo e recriação nunca devem andar juntos. O racismo, além de ser um crime formalizado a partir do código penal e tudo mais, ele também é uma forma de violência simbólica, porque muitas vezes ele age de maneira talvez nem percebida pela população.”

Ele também destacou a relação de poder envolvida, devido ao grau de hierarquia.

“Acho que o primeiro deles é uma relação de poder, porque afinal de contas é uma pessoa que está no centro do poder e consegue ter a ideia de fazer isso, que no caso é esse prefeito, é esse sujeito político, e outro que está abaixo, então a gente tem ali uma hierarquia. Isso poderia abrir uma discussão muito mais ampla, isso escancara as relações de poder. Por outro lado, o que eu quero trazer aqui também é, na inconsequência ou na irresponsabilidade de pegar esse fato, que pode ser tratado como isolado, como brincadeira, como não ofendido. Para quem estava envolvido, mas que capilariza na rede social, e aí que a gente tem uma situação problemática.”

Blackface, o que é?

A prática conhecida como blackface surgiu no século XIX, nos Estados Unidos, quando atores brancos pintavam o rosto de preto para ridicularizar pessoas negras em espetáculos de humor. A prática associava estereótipos negativos à população negra e se espalhou por programas de entretenimento ao longo dos anos.

Com o avanço dos movimentos antirracistas, o blackface passou a ser amplamente reconhecido como ofensivo e discriminatório. Ele utiliza estigmas históricos para gerar humor às custas de um grupo social que enfrenta desigualdades estruturais.

Letramento racial e naturalização

Após a repercussão, o assessor citado no vídeo afirmou nas redes sociais que não se sentiu ofendido e que a ideia partiu dele. No entanto, o especialista destacou que o racismo opera como estrutura social.

“Existem pessoas que não vão sentir, não vão ter essa percepção, não foram racialmente, para entender que o racismo atravessa a vida delas. Esse é o discurso do vídeo. Ah, eu não me incomodo, mas, poxa, isso é a forma como a estrutura opera naturalizando ou tornando as coisas de maneira mais divertida, entre aspas, com relação ao próprio racismo, a essa situação de violência.”, explica o cientista.

O caso continua repercutindo nas redes sociais e no cenário político local, enquanto o debate sobre racismo, humor e responsabilidade pública segue em evidência.