Espírito natalino o ano todo: Professor ensina capoeira de graça em Itaúna

ItaúnaMinas Gerais
Por -25/12/2025, às 08H30dezembro 23rd, 2025
Filhote durante evento de capoeira: dedicação à causa social (Foto: Acervo pessoal)

Há 25 anos Filhote leva modalidade a crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos

O espírito natalino que desperta o desejo de ser solidário com o próximo nem sempre aflora apenas em dezembro. Às vezes esse ímpeto solidário marca presença durante todo o ano. É o que acontece com o professor de capoeira Denis Soares Mariano, mais conhecido como Filhote. Nascido em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, formou-se há 35 anos na Abadá-Capoeira – escola de renome internacional.

Ao longo desse tempo, consolidou valores que norteiam o trabalho social que o destaca como pioneiro da prática em praças esportivas, centros comunitários e bairros em situação de vulnerabilidade social em Itaúna, no Centro-Oeste de Minas.

Filhote toca atabaque durante roda de capoeira (Foto: Acervo pessoal)

Por meio da oferta gratuita de aulas de capoeira há 25 anos, Filhote cria oportunidades para crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos que até então não as tinham (e provavelmente não as teriam). Coordena projetos inclusivos, como aulas e atividades para crianças, jovens, adolescentes, idosos e também pessoas com deficiência. Ocupa um cargo no Conselho Municipal de Cultura de Itaúna, representando a capoeira.

Filhote durante ministração de aula de capoeira (Foto: Acervo pessoal)

Em entrevista ao PORTAL GERAIS, ele conta detalhes da trajetória, marcada pelo compromisso com a inclusão, educação e democratização do acesso ao esporte e à cultura por meio da capoeira.

“Quando eu era garoto e estava começando, a gente ia para a academia treinar. Éramos uma turma grande, de 47 alunos. O meu mestre, nosso professor Sapão, sempre levava a gente para outras rodas e outros eventos. Também nos levava aonde ele treinava e tinha o mestre dele. Sempre, mesmo às vezes com dificuldades, a gente ia um ou outro junto com ele. Eu era sempre um desses que estava no meio. Sempre que a gente chegava, eu perguntava: ‘o Sapão está aí’? O pessoal dizia: ‘o Sapão trouxe os filhos dele’, de forma bem carinhosa”.

Apelido ‘Filhote’ foi herança de mestre

Filhote durante aula de capoeira em escola pública (Foto: Acervo pessoal)

Até mesmo o apelido pelo qual o atleta e professor é conhecido tem a ver com a evolução dele na capoeira. “O tempo foi passando, até que ele não podia mais ir a essas rodas. Quando eu chegava sozinho, o pessoal perguntava: ‘Cadê o Sapão?’ e ‘O Sapão não veio?’. ‘Ah, ele mandou o filho dele’. E daí foi ficando ‘Filho’, ‘Filhinho’ e depois virou ‘Filhote’.”, recorda.

Começo de Filhote na capoeira

Filhote durante momento de aprendizado sobre as origens da capoeira (Foto: Acervo pessoal)

A capoeira é uma expressão artística brasileira que mistura esporte, luta, filosofia, dança, bem como musicalidade. Essa variedade de possibilidades chamou atenção do jovem Denis quando foi apresentado a ela.

“Faço muito para a garotada o que antes foi feito por mim. Tanto a capoeira quanto o meu mestre me deram a oportunidade de ser uma pessoa melhor. De buscar ali perspectiva de vida melhor. A luz no fim do túnel. A ponto de eu vir estudar, de eu ter o controle de me formar, estudar, me formar em educação física. E até hoje a capoeira, a cada dia que passa, me faz ser uma pessoa melhor e ver as coisas de uma forma melhor”, conta Filhote.

As lições de vida do professor não chegam só a crianças e adolescentes. Também a adultos e idosos que integram suas turmas de capoeira gratuitas. “Sempre tem uma luz no fim do túnel. Sempre que a gente procura alguma perspectiva, a gente está desanimado, a gente quer prosperar, a capoeira está aí para nos ajudar – tanto em se tornar um profissional quanto em ser uma pessoa melhor e poder ajudar o próximo”, acrescenta.

Projetos sociais são mais do que só oferta de esporte

A capoeira, nos projetos de Filhote, vai além do aspecto esportivo. Por meio de um trabalho contínuo, além de formar capoeiristas, utiliza a modalidade como ferramenta de educação, disciplina, fortalecimento da autoestima e construção de cidadania, contribuindo para a permanência de crianças e adolescentes em ambientes saudáveis e de desenvolvimento social.

Inclusão social de pessoas com deficiências também é característica do trabalho de Filhote (Foto: Acervo pessoal)

“Eu me identifico muito com a capoeira no sentido de resistência, de sobreviver a um sistema que ele é opressor, um sistema que exclui, um sistema que desfaz das pessoas, um sistema desumano. A capoeira eu acho que é uma atividade, um esporte, uma luta, uma ação muito solidária e humana. A humanidade no meio da capoeira prevalece muito forte”.

Alunos manifestam gratidão a Filhote

A reportagem do PORTAL GERAIS também perguntou a alunos de Filhote o que pensam sobre a iniciativa do professor. A gratidão é algo comum nas respostas de todos.

O contador Jaime de Oliveira Freitas conta que ingressou na capoeira há 15 anos, com o objetivo de incentivar as filhas à prática de um esporte. Depois de algum tempo, as meninas saíram e ele gostou tanto que resolveu ficar e continuou treinando.

Jaime de Oliveira Freitas (à esquerda) com Filhote (ao centro) e crianças que participam de projeto social (Foto: Acervo pessoal)

“Era um projeto da Prefeitura chamado ‘Escola Aberta’. Foi onde conheci o professor Filhote. O projeto acabou e continuei treinando, sempre sendo incentivado por ele a continuar. Filhote é uma pessoa muito dedicada e que não mede esforços para proporcionar o melhor da arte da capoeira aos alunos, promovendo cursos, jogos e tudo que está ao alcance para divulgar a arte. Hoje vejo a capoeira não só como um esporte ou atividade física, mas também como terapia e lazer. Tudo isso graças ao professor Filhote”.

Humberto Luciano em roda de capoeira do professor Filhote (Foto: Acervo pessoal)
Humberto Luciano em roda de capoeira do professor Filhote (Foto: Acervo pessoal)

Aluno de capoeira desde 2000 em Itaúna

Outro aluno que agradece bastante a Filhote é Humberto Luciano da Silva, de 38 anos. Ele recorda que começou a ter aulas com o professor no ano de 2000. Passados 25 anos desde então, guarda com carinho lembranças daqueles tempos.

“Sou fruto de trabalho social do professor Filhote. Quando comecei com ele, em um trabalho social na praça de esportes dos Garcias, de forma muito humilde, eu e vários amigos éramos atendidos e isso fez muito bem para a minha vida. Não apenas na capoeira, mas também como cidadão. Lembro que para participar do projeto, além de boas notas na escola, o bom comportamento na sociedade era obrigatórios”.

Humberto recorda ainda que, por causa do rigor de Filhote na exigência de bom comportamento social, por várias vezes ele se viu provocado e prestes a brigar com algum garoto e sempre pensava que, se fizesse aquilo, poderia ficar fora do projeto. Então escolhia não brigar. Por causa de “problemas pessoais” ele precisou se afastar da capoeira até outubro de 2021.

“Dessa data em diante, voltei para a capoeira com o Filhote e não vejo mais a minha vida sem isso. Hoje não faço parte de projeto social, mas convivo com alguns alunos dos projetos e vejo como isso muda as vidas deles, como mudou a minha vida. Principalmente os alunos com necessidades especiais, que, na capoeira, são introduzidos a atividades com alunos normais, mostrando a eles que eles podem e devem ser tratados como iguais diante da sociedade”, finaliza.

Helbert Henrique Batista e Filhote em registro feito durante a pandemia de covid-19 (Foto: Acervo pessoal)

Outro aluno com muita história para contar é Helbert Henrique Batista, hoje com 33 anos e que conheceu o trabalho de filhote na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).

“Fui aluno dele por lá e comecei a frequentar a academia. Já tem dez anos que estou com o Filhote. O trabalho dele é incrível pra caramba! Já viajei para vários lugares para participar de competições. O trabalho dele é muito bom”.

Cristiano, Marciluse e Filhote (Foto: Acervo pessoal)

Já o aluno Cristiano Eustáquio Dias gostou tanto da experiência de ser aluno de Filhote que até teve a ideia de apresentar a capoeira à esposa, Marciluse Adelina de Avelar Dias, que logo percebeu vários benefícios da atividade para o corpo e a mente.

“Já faz oito anos e meio que sou aluno dele e sei o quanto o trabalho do Filhote é incrível! Ajuda muito a gente. Principalmente em questões de saúde. No meu caso, passei por um transplante cardíaco. Depois de um ano passei a treinar com ele, com autorização dos médicos. Como sempre gostei de luta, desde pequeno, resolvi fazer uma aula experimental com ele e me apaixonei com a capoeira. Sempre que faço avaliações médicas, os resultados são melhores, por causa disso”.

A esposa de Cristiano tem diabetes. Por causa dessa doença, perdeu parte da visão. Ele, então, a levou para conhecer a capoeira e ela também melhorou. “Desde então ela tem bem mais confiança nela mesma e não gosta de faltar aos treinos”, comenta o marido.

Atuação em Itaúna foi planejada e enfrentou dificuldades

Em Itaúna o professor coordena projetos sociais inclusivos que atendem crianças, adolescentes, jovens, assim como idosos e pessoas com deficiência, com atividades adaptadas e acompanhamento contínuo. Entre as ações desenvolvidas estão aulas regulares gratuitas, oficinas socioeducativas, apresentações culturais em eventos comunitários, participação em campanhas sociais, além da integração das famílias nas atividades, fortalecendo os vínculos comunitários.

Crianças e adolescentes em um dos eventos de capoeira liderados por Filhote (Foto: Acervo pessoal)

“Minha vinda para Itaúna foi direcionada. Eu vim já com esse objetivo de implantar capoeira nas escolas, comunidades, praças de esportes e academias. Enfim, para todos os lugares. Me treinaram e me prepararam para isso”, relata.

Esses projetos também possibilitam a participação dos alunos em encontros, batizados e eventos de capoeira em níveis municipal, regional, estadual e nacional, garantindo vivência cultural, troca de experiências e reconhecimento para atletas e praticantes que surgiram dentro de contextos sociais vulneráveis.

“Desta forma, eu vou levando. Pego essa bandeira e vou levando ela. Ainda tomando rasteiras e sendo às vezes um pouco apertados no sistema, ao ponto que querem me desanimar. Querem fazer com que eu pare essa luta e me dê por vencido. Mas, a gente está aí. A gente está firme. A gente está aqui para poder inspirar as pessoas. Ser mais amigo das pessoas. Ser uma pessoa que inclui outras pessoas. Eu me coloco nessa posição de fortalecer essa ação que é importante porque inclui pessoas”.

Além do impacto local, Filhote já representou Itaúna, por exemplo, em eventos e projetos sociais de capoeira em diferentes estados do país, levando o nome do município e mostrando que ações sociais bem estruturadas podem ganhar relevância e reconhecimento nacional.

Recentemente, foi selecionado para participar do 25º “Zumbimba”, um congresso nacional de capoeira, representando o município. Isso foi percebido por muitos itaunenses como motivo de orgulho para a cidade.

Sob coordenação de Filhote, Itaúna sediou a 8ª edição dos “Jogos Mineiros de Capoeira”, evento importante da modalidade no estado. Ele também lidera o projeto “Capoeira Especial”, que busca, então, promover a inclusão de pessoas com deficiência por meio da modalidade.

Filhote durante uma das muitas viagens que faz para aprender mais sobre a capoeira (Foto: Acervo pessoal)

Dezembro também teve evento natalino

Filhote também organiza eventos maiores, como festivais, jogos e encontros de capoeiristas. De acordo com ele, isso ajuda dar visibilidade à capoeira local e envolver mais gente. Como um presente de Natal para a população itaunense, neste ano de 2025 organizou a segunda edição do “Gincana Abadá Itinerante”, com oficinas, brincadeiras, lazer e diversão nos dias 19 e 20 de dezembro.

Ao atuar na educação em escolas, praças, centros sociais e no movimento institucional via Conselho de Cultura e eventos de Itaúna, Filhote ajuda a manter viva a capoeira e a conectá-la com novas gerações. A trajetória do professor é exemplo de como atuar com política social, promover inclusão, oportunidades, assim como mudanças reais na vida das pessoas, do nível municipal ao nacional.

O capoeirista e professor de capoeira Filhote (Foto: Acervo pessoal)

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