Pesquisadora destaca que as celebrações vão além da cultura e representam devoção, pertencimento e resistência da população negra
Por Heloisa Benicio
Julho transforma as ruas de Divinópolis em um grande cenário de fé e tradição. Durante todo o mês, guardas de Congado percorrem bairros, carregam coroas, entoam cantos centenários e renovam uma história transmitida de geração em geração.
Entretanto, quem observa apenas os cortejos pode não compreender o verdadeiro significado dessas celebrações. Antes da música, das cores e das danças, existe a devoção.
Segundo a pesquisadora do Projeto Memória do Rosário e presidenta da CongaDiv, Jéssica Moreira da Silva, esse é o primeiro aspecto que qualquer visitante precisa entender.
“Para quem nunca participou do Reinado, de algum terno ou guarda ou de uma Festa do Rosário, é necessário saber que ali acontece, antes de tudo, uma celebração de devoção, como qualquer outro ato de fé.”
Além disso, ela explica que as irmandades cultuam Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora das Mercês. Ainda assim, cada comunidade preserva sua própria maneira de celebrar.
“Cada irmandade possui sua própria forma de conduzir a festividade, respeitando os saberes recebidos e o modo como aprendeu a preservar suas raízes.”
Muito além dos cortejos
Quem participa de uma Festa do Rosário encontra procissões, missas, coroações e guardas de Congado. No entanto, o trabalho começa muito antes do primeiro toque dos tambores.
Durante semanas, moradores organizam os espaços, preparam alimentos e recebem as guardas visitantes. Assim, toda a comunidade participa da construção da festa.
“Quem chega a uma Festa do Rosário encontra muito amor, fé e preparação coletiva. Há a procissão com os santos patronos, os Reis do Trono Coroado e os Reis Festeiros. Há também o almoço preparado para receber os ternos visitantes, porque, naquele momento, toda a comunidade está em festa.”
Por isso, Jéssica resume o significado dessas celebrações em poucas palavras.
“É fé, mas também é família, acolhimento, memória e resistência.”
Além disso, ela ressalta que cada canto e cada dança carregam um propósito.
“Quando a gente dança e canta, não está simplesmente fazendo uma apresentação para quem está olhando. Há um sentido. Há uma história que começou muito antes de nós.”
O conhecimento passa pela convivência
Diferentemente de muitas tradições, o Reinado transmite seus ensinamentos principalmente pela convivência.
Segundo Jéssica, ninguém aprende apenas ouvindo explicações.
“A gente aprende vivendo. Aprende olhando, caminhando junto, ouvindo as histórias, ajudando e participando das festas.”
Consequentemente, boa parte desse conhecimento nunca foi registrada em livros.
“Muito do que sabemos não está escrito em um papel. Está na convivência.”
Assim, os mais velhos ensinam os mais novos por meio dos exemplos, da participação nas guardas e da vivência diária.
A ancestralidade encontra novos caminhos
Muitas guardas passam de pais para filhos. Entretanto, essa não é a única forma de manter a tradição.
Segundo a pesquisadora, o principal compromisso está no cuidado com os ensinamentos recebidos.
“A continuidade de uma guarda pode acontecer por sucessão, de pai para filhos, mas também por meio de alguém que assume a responsabilidade, o zelo pela fé e o mandamento.”
A própria história de Jéssica demonstra isso.
Ela fundou o Moçambique Santa Bárbara. Mais tarde, descobriu que um tio também havia conduzido uma guarda.
“Isso me fez compreender que as nossas raízes ancestrais sempre encontram maneiras de fazer o legado continuar.”
Além disso, ela acredita que ninguém inicia essa caminhada sozinho.
“Nós não começamos essa história. Antes de nós, já existiam pessoas carregando coroas, caixas e sua fé, enfrentando muitas dificuldades para que tudo isso permanecesse vivo.”
Mais do que cultura
Embora muitas pessoas enxerguem o Reinado apenas como patrimônio cultural, quem participa das celebrações o define como uma manifestação religiosa.
“Religiosamente, estamos falando de devoção. Para nós, não é uma apresentação cultural e nem um espetáculo.”
Além disso, Jéssica explica que cada elemento possui um significado específico.
“Talvez, para quem olha de fora, seja bonito ver as cores, ouvir as caixas e acompanhar o cortejo. Mas, para quem está dentro, cada elemento possui um sentido.”
Uma história que resistiu ao tempo
O Reinado também preserva parte da história do povo negro brasileiro.
Segundo a pesquisadora, muitas dessas memórias sobreviveram graças à oralidade.
“Existe uma história que foi escrita no papel e existe também uma história que foi guardada pelas pessoas.”
Ela explica que os cantos, os mandamentos e os costumes preservam conhecimentos que atravessaram gerações.
Além disso, cada comunidade construiu sua própria forma de celebrar.
“Não podemos olhar para o Reinado como se fosse uma manifestação única e igual em todos os lugares.”
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O Reinado também transforma quem participa
Ao longo da conversa, Jéssica deixa claro que sua relação com o Reinado vai além da pesquisa acadêmica.
Segundo ela, a tradição também transformou sua própria vida.
“Eu não mantenho o Reinado vivo sozinha. O Reinado também me mantém.”
Ela afirma que o Reinado ensina valores como coletividade, respeito, pertencimento e fé.
Além disso, acredita que dar continuidade à tradição representa uma forma de agradecer às gerações anteriores.
“A fé, o amor e a devoção não começam na nossa geração e não terminam nela. Nós somos parte de um caminho ancestral que continua encontrando formas de permanecer.”
A festa termina. A tradição continua.
Quando uma Festa do Rosário chega ao fim, a tradição continua presente na vida das comunidades.
As famílias se reencontram. As crianças crescem acompanhando pais e avós nas guardas. Enquanto isso, os mais velhos percebem que aquilo que construíram permanece vivo.
Por isso, Jéssica acredita que o Reinado preserva muito mais do que costumes.
“O Reinado não preserva somente uma tradição. Ele preserva modos de lembrar, de acreditar, de reunir e de ensinar.”
E conclui:
“Quando uma festa acontece, não é somente o passado que está sendo lembrado. Uma comunidade está dizendo, no presente, que sua história continua viva e que ela mesma ainda é capaz de contá-la.”
Cinco comunidades celebram o Reinado em julho
Neste mês, cinco comunidades de Divinópolis mantêm essa tradição viva. A programação começou entre os dias 3 e 5 de julho, com a 19ª Festa de Reinado do Bairro Campina Verde.
Na sequência, Amadeu Lacerda realiza sua Festa de Reinado no dia 5 de julho. Logo depois, entre 8 e 12 de julho, acontece a Festa de Reinado dos Branquinhos.
Em seguida, entre 15 e 19 de julho, a comunidade de Ermida promove a 30ª Festa de Reinado. Por fim, entre 24 e 26 de julho, o Bairro Tietê recebe o Reinado de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.
Ao longo de todas as celebrações, guardas de Congado, irmandades e moradores renovam uma tradição centenária. Mais do que preservar uma manifestação religiosa, eles reafirmam a identidade, a memória e a ancestralidade do povo negro em Divinópolis.




