Hospital Regional abre, mas resolverá a saúde de Divinópolis e região?

Minas Gerais
Por -05/01/2026, às 16H57janeiro 7th, 2026
hospital reigonal de divinópolis
Foto: Rafael Mendes/SES/Imprensa MG

Especialistas e gestores analisam a abertura do Hospital Regional de Divinópolis e alertam: é preciso investimento contínuou e rede fortalecida

A abertura do Hospital Regional de Divinópolis representa um marco para a saúde pública do Centro-Oeste de Minas. No entanto, análises técnicas e avaliações de especialistas indicam que a nova unidade, por si só, não elimina o vazio assistencial que afeta a macrorregião Oeste, formada por 53 municípios e uma população estimada em 1,2 milhão de habitantes.

Embora o hospital amplie leitos e serviços de média e alta complexidade, seu impacto real depende de financiamento contínuo, regulação eficiente e fortalecimento de toda a Rede de Atenção às Urgências e Emergências.

Implantação pactuada, mas funcionamento gradual

O funcionamento do Hospital Regional foi pactuado entre os gestores municipais no âmbito do Plano Assistencial Regional.

“A proposta visa ampliar a capacidade assistencial da região, especialmente no que se refere à atenção hospitalar de média e alta complexidade, com reflexos diretos sobre os atendimentos de urgência e emergência”, afirmou o secretário executivo do Consórcio Intermunicipal de Saúde da Região Ampliada Oeste (Cis-URG Oeste), José Márcio Zanardi.

O consórcio é responsável pela gestão da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Divinópolis e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu Oeste/Centro).

Entretanto, Zanardi lembra que a implantação ocorrerá de forma progressiva. “O que poderá gerar uma lacuna assistencial temporária até a completa implantação de seus serviços”, explicou. Conforme ele, a divulgação de um cronograma oficial torna-se essencial.

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José Márcio Zanardi defende investimento contínuo na rede de urgência e emergência já existente (Foto: Reprodução)

Mais qualidade pode gerar mais demanda

Na avaliação do secretário executivo do Cis-URG Oeste, a entrada em funcionamento do Hospital Regional tende a produzir impactos positivos na Rede de Atenção às Urgências e Emergências. “Com potencial para reduzir a sobrecarga atualmente observada em unidades de pronto atendimento, hospitais de menor porte e serviços municipais”, destacou. Ainda assim, ele pondera que a qualificação da assistência costuma aumentar a procura pelos serviços.

Como exemplo prático, Zanardi cita a experiência da UPA Padre Roberto, em Divinópolis. “Observa-se que a implementação de ações de humanização, a ampliação do quadro de profissionais médicos e multiprofissionais e a reorganização dos fluxos assistenciais resultaram em um aumento aproximado de 50% no volume de atendimentos”, afirmou.

Dessa forma, ele reforça que a abertura do hospital deve vir acompanhada de planejamento contínuo.

“Ainda que o Hospital Regional represente um avanço significativo para a rede, é esperado que sua implantação gere maior procura por serviços de urgência e emergência, demandando planejamento contínuo e ajustes operacionais”, alertou.

Rede fortalecida e investimentos contínuos

José Márcio Zanardi reforça que a abertura do Hospital Regional exige investimentos complementares em toda a rede. Conforme ele, a estratégia precisa contemplar recursos humanos, infraestrutura, tecnologia e integração entre os serviços.

“Considera-se necessária a manutenção e, quando indicado, a ampliação de investimentos na Rede de Urgência e Emergência já existente”, afirmou.

Entre as prioridades, ele cita:

  • Qualificação e ampliação do quadro de profissionais;
  • Fortalecimento da regulação assistencial e dos fluxos de referência e contrarreferência;
  • Melhoria da infraestrutura física e tecnológica;
  • Integração efetiva entre os diferentes pontos da rede.

Zanardi destaca ainda o papel da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). “A UFSJ dispõe de corpo técnico e setor de planejamento com conhecimento da realidade epidemiológica e assistencial da região, o que favorece a adequada condução do processo de implantação”, disse. Ainda assim, ele ressalta que novas demandas só aparecerão após o início das atividades.

Avanço estrutural, mas não solução isolada

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Guilherme Lacerda defende ampliação da atenção primária e investimentos na média complexidade (Foto: Arquivo)

O especialista em saúde coletiva e em Urgência e Emergência, Guilherme Lacerda, faz coro a análise do secretário executivo do CisURG. Para ele, o funcionamento do Hospital Regional representa um ganho concreto para Divinópolis e para toda a região.

A nova unidade amplia, conforme ele, a oferta de leitos e serviços de maior complexidade e, com isso, contribui para reduzir a sobrecarga histórica da UPA e até mesmo do Complexo de Saúde São João de Deus, além de unidades menores espalhadas pela região.

Entretanto, o especialista reforça que a população precisa compreender os limites da iniciativa. “É fundamental esclarecer à população que a abertura do hospital, de forma isolada, não resolve o gargalo dos leitos”, alertou.

Gestão federal é ponto positivo, dizem especialistas

A administração do hospital pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) surge como um dos principais pontos positivos do projeto. De acordo com Guilherme Lacerda, a gestão federal agrega padronização de processos, adoção de protocolos assistenciais e maior qualificação administrativa. A unidade funcionará como Hospital Universitário.

“A gestão do hospital pela Ebserh, em nível federal, é um ponto positivo, pois agrega padronização de processos, adoção de protocolos assistenciais, qualificação da gestão hospitalar, integração com o ensino e maior alinhamento com o Sistema Único de Saúde (SUS)”, destacou.

Ainda assim, ele pondera que o modelo não elimina desafios estruturais. “Dados públicos demonstram que hospitais geridos pela Ebserh, assim como quaisquer outros modelos de gestão, também enfrentam desafios como subfinanciamento, alta pressão assistencial, filas por especialidades e forte dependência de uma regulação eficiente”, completou. Estima-se que a unidade custará mais de R$ 100 milhões ao ano.

Rede organizada define impacto real do hospital regional de Divinópolis

De acordo com o especialista, o sucesso do Hospital Regional depende de uma engrenagem maior. Para cumprir seu papel estratégico, a unidade precisa de custeio adequado, equipes completas e uma regulação regional bem pactuada, além do fortalecimento da atenção primária e da média complexidade.

“O hospital é parte da solução; a organização da rede e o financiamento sustentável são determinantes para o impacto real na saúde da população”, afirmou Guilherme Lacerda.

Mesmo entusiasmado com a chegada de um hospital universitário à região, ele defende cobranças mais amplas. “Sou um grande entusiasta de um hospital universitário em nossa região e esperançoso por novos tempos em saúde no Centro-Oeste. Mas, mesmo assim, é preciso cobrar resolutividade dos demais hospitais da macrorregião”, disse.

Estrutura do hospital e entrave legal

O hospital tem capacidade para cerca de 200 leitos, incluindo Unidades de Terapia Intensiva (UTI) adulto, pediátrica e neonatal, além de leitos de observação. A unidade possui mais de 66 mil metros quadrados de área construída e capacidade estimada para 8.761 internações por ano e 74.064 consultas ambulatoriais, conforme pactuação com a Secretaria de Estado de Saúde.

Apesar disso, a abertura depende da sanção do projeto de lei de autoria da deputada Lohanna França (PV), que autoriza a doação do imóvel à UFSJ. A Assembleia Legislativa aprovou o texto em 10 de dezembro. Agora, a expectativa recai sobre o governador Romeu Zema (Novo), que precisa sancionar a lei até o dia 12 de janeiro.

Hospital regional é parte da solução

Tanto especialistas quanto gestores convergem em um ponto: o Hospital Regional representa um avanço decisivo, mas não encerra o debate sobre o vazio assistencial no Centro-Oeste de Minas.

“Somente com investimentos permanentes, planejamento integrado e monitoramento contínuo dos indicadores assistenciais será possível assegurar a qualidade, a eficiência e a excelência do atendimento prestado à população da região”, concluiu José Márcio Zanardi.

Assim, o hospital surge como peça central, porém inserida em uma engrenagem maior, que exige decisões estruturais, financiamento sustentável e uma rede de saúde plenamente integrada.