Idosos são 14% das notificações de dengue, mas respondem por 42% dos casos graves, aponta pesquisa em Uberaba

Minas Gerais
Por -17/06/2026, às 16H43junho 17th, 2026
morte suspeita de dengue divinópolis 2025
Prefeitura pede que população dedique 10 minutos para medidas de combate a dengue (Foto: 41330/Pixabay

Estudo do HC-UFTM em Uberaba acompanhou 55 pacientes idosos ao longo de dez anos e alerta para sintomas atípicos que dificultam o diagnóstico na terceira idade

Uma pesquisa realizada no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (HC-UFTM), em Uberaba, revelou uma disparidade preocupante: embora idosos representem apenas 14% das notificações de dengue no Brasil, respondem por 42% dos casos graves da doença. O estudo acompanhou 55 pacientes com 60 anos ou mais atendidos na unidade entre 2014 e 2024 e foi publicado na Revista Sociedade Científica.

O geriatra Guilherme Rocha Pardi, um dos autores, explica o que motivou a pesquisa. “A gente começou a perceber que os pacientes idosos estavam internando com quadros de dengue cada vez de formas mais graves e, às vezes, os sintomas eram muito atípicos, que não eram muito clássicos de dengue, e confundiam o diagnóstico. Então, nós tivemos a ideia de fazer um levantamento desses casos”, pontua.

Comorbidades e queda de plaquetas marcam os casos

Os dados mostram que 83,63% dos idosos hospitalizados por dengue possuíam ao menos uma comorbidade. Além disso, mais da metade — 53,2% — apresentou trombocitopenia grave, ou seja, queda significativa no número de plaquetas no sangue, além de alterações hepáticas e risco aumentado de sangramentos.

Diante dos achados, os pesquisadores recomendam a revisão dos protocolos da Organização Mundial da Saúde (OMS) para incluir indicadores específicos à geriatria no manejo da dengue.

Diagnóstico mascarado pelo envelhecimento

Para Pardi, o ponto mais crítico do estudo é o risco de o diagnóstico ficar encoberto pelas condições típicas do envelhecimento. “É importante, em épocas de epidemia, a gente sempre suspeitar, em qualquer quadro clínico atípico, de dengue nos idosos”, alerta o geriatra. Ele reforça ainda que, sem vacina aprovada para esse público, a atenção precisa ser redobrada. “Precisamos lembrar que os idosos são mais sensíveis, apresentam mais doenças, por isso os quadros costumam ser mais graves”, destaca.

Próximos passos

A autora principal do artigo, a estudante de Medicina Ana Maria Della Torre Ielo, aponta que os resultados abrem caminho para novas pesquisas e políticas públicas. “Os resultados encontrados foram relevantes, caracterizando a epidemiologia, a clínica pré-existente dos pacientes e as manifestações clínicas e laboratoriais da dengue na população idosa. Dessa forma, políticas públicas podem se basear nos achados, além da elaboração de novos estudos com outras correlações”, comenta. Um segundo artigo com novas variáveis já está em fase de preparação para publicação.

O HC-UFTM integra a Rede HU Brasil, responsável pela administração de 46 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.