Jovem e criança são vítimas de racismo por cabelo afro em Divinópolis

Elas tiveram que abaixar o volume do cabelo para tirar foto 3×4 que seria utilizada em documento de identidade; Caso será investigado pela PC

Fernanda Barreto

Com Amanda Quintiliano

A operadora de linha Sara Policarpo, de 25 anos, foi vítima de racismo ao ir a um estúdio de fotográfico para tirar uma foto 3×4, em Divinópolis. O caso aconteceu na última sexta-feira (20), data em que se celebra o dia da Consciência Negra. A história ganhou destaque nas redes sociais ao longo dos últimos dias. Indignada, ela registrou boletim de ocorrência e foi ouvida nesta segunda-feira (23) na delegacia.

A jovem veio de Itaúna, cidade vizinha, para renovar a carteira de identidade. Ela iria aproveitar para emitir também a da filha, de 3 anos. Sara levou uma foto já pronta, porém ela foi recusada devido ao enquadramento.

“Levei a foto e a moça falou que ela não servia porque não estava no tamanho deles, que tinha que aparecer mais pescoço e que quando fossem colocar o código, aqueles pontinhos não iam pegar”, conta Sara. 

Ela teria sido orientada pela atendente a ir ao estabelecimento do outro lado da rua e tirar novas fotos e retornar com elas para a conclusão da emissão do documento. Entretanto, ao chegar lá, foi orientada pelo fotógrafo a desfazer o penteado. Mesmo depois dela soltar os cabelos, que tem o estilo black power, ele ainda não queria aceitar dizendo que a foto seria recusada pelo posto da Unidade de Atendimento Integrada (UAI), onde seria emitido o documento.

“Ele tirou a foto da minha menina, que não é preta, ela é moreninha do cabelo cacheado, eu até pensei que ia ter que prender o cabelo dela por causa da outra, mas ele simplesmente pediu para ela sentar na cadeira. Quando eu fui sentar para tirar a minha ele falou que se eu quisesse eu podia ir no banheiro arrumar meu cabelo, porque eu não podia tirar foto com o cabelo daquele jeito. A única coisa que a moça do UAI falou foi que meu cabelo não ia aparecer todo, mas não disse que ele não podia aparecer. Eu desmanchei meu afro puf e descendo da escada ele já começou a xingar e disse que o cabelo ainda ia aparecer. Eu pensei comigo, meu cabelo é afro, desse tamanho, como ele quer que eu esconda?”, relata.

Sara não quis levar a foto dela, mas levou a da filha, que não precisou ser cortada. Ela decidiu que não faria o documento de nenhuma das duas. Mais tarde, ela publicou vídeos nas redes sociais relatando o ocorrido, e recebeu o apoio dos seguidores e outras pessoas. 

“Eu nem ia fazer nada nem chamar a polícia, eu ia ficar calada. Mas fiquei indignada. Eu só não pensei que ia dar todo esse alvoroço”, conta.

Outra vítima

Sara não teria sido a única vítima. Ao chegar no estúdio, ela encontrou com outra mulher, Sueli Helena, de 29 anos, que estava também com a filha, de 5 anos, para tirar fotos 3×4 da menina para a identidade. Sueli reclamou que teve que desfazer o cabelo da filha, pois o fotógrafo teria dito que da maneira que ele estava, o UAI não aceitaria. 

“Ela estava com o cabelo afro e um laço verde na cabeça. Ele tirou a foto e cortou o laço todo e praticamente o cabelo também. E falou: olha essa foto não vai ser aceita, porque o cabelo dela não está enquadrando como é feito no UAI. Eu levei a foto e a atendente disse que não podia aceitar porque ele cortou a cabeça dela. Ela reagendou para eu voltar lá 15 horas da tarde. Voltei e fiz a foto de novo. Isso já com o coque que eu tinha feito na cabeça dela, esse coque eu fiz lá no UAI. Ele tirou e falou eu não vou nem revelar porque o cabelo dela está interferindo. Te empresto o banheiro, você vai lá e arruma o cabelo dela”, conta Sueli.

Segundo ela, a própria menina teria perguntado à mãe se o cabelo dela estava feio.

“Custei a abaixar o cabelo dela, porque é um cabelo muito crespo. A sua filha de 5 anos perguntar porque o cabelo dela não pode aparecer é apertado, né? Ele tirou a foto e disse que era a terceira e última vez que ele ia tentar, porque ele estava perdendo tempo e eu meu dinheiro. Nisso a Sara entrou para tirar a dela”, afirma.

Sueli conseguiu fazer o documento da filha, mas com a foto cortada.

 

A sua filha de 5 anos perguntar porque o cabelo dela não pode aparecer é apertado, né?

 

“Mal entendido”

Procurado pela reportagem do PORTAL GERAIS, representante do estabelecimento disse que tudo não passa de um mal entendido.

“Meu pai é negro, eu sou moreno, não há motivo para isso, eu atendo todo mundo do mesmo jeito. Ninguém gosta de foto 3×4, a primeira coisa que eu peço é que vá ao espelho. Após o COVID, o UAI está tendo um padrão de que a foto deve ir do queixo até o couro cabeludo. Elas podem ter interpretado mal o que eu falei. Eu tenho 21 anos de profissão. Nunca tive nenhum processo. Não entendo porque isso está acontecendo. Até se elas quiserem voltar aqui e conversarem comigo, eu posso pedir desculpas”, argumentou.

Investigação

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), responsável pela emissão, informou que segue as normas previstas na Portaria nº 2, de 15 de abril de 2019, do Instituto de Identificação, que estabelece padrões técnicos mínimos para a fotografia a ser utilizada no processo de emissão de carteiras de identidade civil no Estado de Minas Gerais.

“A denúncia sobre a suposta conduta irregular do fotógrafo, que atua em um comércio, sem qualquer vínculo com a instituição, será investigada pela Delegacia Regional em Divinópolis. A Polícia Civil reforça que não coaduna com qualquer conduta de racismo”, informou.

A PCMG esclareceu que, a Unidade de Atendimento Integrado (UAI) em Divinópolis recebeu as solicitações de confecção de documento de identidade das duas denunciantes, na última sexta-feira (20), contudo, ambas fotografias estavam em desacordo com as recomendações da portaria. Ressaltou, ainda, que o cabelo ou penteado não interferem na confecção do documento.

Inquérito

A PC confirmou que a vítima, de 25 anos, acompanhada da advogada, acionou a polícia em Itaúna, para representar contra o proprietário do estabelecimento responsável pela fotografia. Ela foi ouvida e a investigação segue na delegacia de Polícia Civil em Divinópolis, onde o inquérito policial foi insaturado para apuração dos fatos.

Fernanda Barreto

Fernanda Barreto

19 anos, estudante de jornalismo na Faculdade Pitágoras, Divinópolis-MG.

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