A devoção a Padre Libério começou de forma orgânica e, agora, move projetos para profissionalizar pequenos negócios, tirar trabalhadores da informalidade e aquecer o turismo religioso
Antes mesmo do sol romper no horizonte, os primeiros devotos de Padre Libério chegam a Leandro Ferreira. O som dos passos se mistura ao abrir das portas do comércio local. A devoção que atrai milhares de fieis ao pequeno município de 3,1 mil habitantes no Centro-Oeste de Minas, faz mais do que alimentar o espírito: ele sustenta a mesa de quem empreende e mostra que a fé também se traduz em desenvolvimento a partir do turismo religioso.
De avó para netos. A barraquinha de artigos religiosos dedicados à padre Libério é o que garante renda familiar a Maria Eduarda de Faria. O comando passou de geração por geração desde a década de 1990, quando a avó, na época sacoleira – que conheceu o religioso – começou a vender os primeiros itens dedicados ao venerável.
“Ela conseguiu essa barraquinha aqui e começou a vender os artigos. Depois que ela morreu, minha mãe assumiu, a minha irmã e, agora, eu também ajudo”, conta Maria Eduarda que trabalhava enquanto a irmã cuidava do bebê.
A barraca fica na lateral da Matriz de São Sebastião, onde estão guardados os restos mortais de Padre Libério. A informalidade traz obstáculos. Em alguns grandes eventos, por exemplo, não só ela, mas também os demais ambulantes são retirados do local por questões de mobilidade.
Eventos religiosos ditam a economia
Em datas de maior peregrinação, a “cidade da fé” muda de ritmo e a população fica quase cinco vezes maior. Na Sexta-feira da Paixão devotos saem de várias cidades da região em caminhada, ainda pela madrugada, e seguem até a Matriz.
A “Cavalgada da Fé” que ocorre tradicionalmente no dia 30 de junho é outro exemplo. Restaurantes, lanchonetes, padarias, lojas de artigos religiosos se preparam para um dos principais eventos que celebra o nascimento de Padre Libério.
A data se soma a outras que garantem lotação máxima nas únicas três pousadas do município. “Nas comemorações da cidade não damos conta de manter tanta gente”, afirma a gerente da Pousada Divina Gula Neide Guedes. Mas, não é sempre assim. A efervescência econômica dos finais de semana dá espaço aos dias típicos de calmaria das pequenas e pacatas cidades do interior.
É exatamente neste silêncio que está o maior desafio de quem empreende no turismo religioso: a sazonalidade. “Precisamos de ações, estrutura, que consigam manter o movimento que temos nos finais de semana e, principalmente, em eventos, o ano todo”, destaca Neide que lamenta a oscilação do movimento local. “O comércio está fraco, o custo de vida muito alto e, a gente, não consegue repassar esses valores.”
A pousada simples e que carrega a hospitalidade como marca, tem capacidade para receber apenas 15 hospedes e emprega a mesma quantidade de trabalhadores. O espaço ainda funciona como lanchonete e restaurante. Falar em ampliar o negócio passa também por uma estrutura capaz de garantir frequência de turistas.

Os desafios da sazonalidade
A sazonalidade é um desafio natural para todo destino turístico. “Para sobreviver a essas oscilações, o empreendedor precisa entender que os períodos de alta temporada devem servir não apenas para gerar lucro, mas também para preparar o negócio para os períodos de menor movimento”, afirma o professor universitário e especialista em finanças Wagner Almeida. Isso exige planejamento financeiro, controle rigoroso do fluxo de caixa e formação de reservas financeiras.
“Além disso, é importante buscar formas de diversificar as fontes de receita. Um restaurante, por exemplo, pode desenvolver serviços voltados para o público local; uma pousada pode oferecer experiências, eventos ou pacotes temáticos em períodos de baixa demanda”, sugere.
De acordo o especialista, quanto menor a dependência de uma única época do ano, maior a sustentabilidade do negócio. “Do ponto de vista econômico, os empreendedores que conseguem transformar a sazonalidade em planejamento tendem a ser mais resilientes. O segredo não está apenas em vender mais na alta temporada, mas em administrar bem os recursos e manter a atividade saudável durante todo o ano”, orienta.
Outro ponto fundamental é investir em marketing e parcerias estratégicas para atrair visitantes em diferentes períodos do ano. “Municípios com forte vocação religiosa, como Leandro Ferreira, podem criar eventos culturais, gastronômicos ou educacionais que complementem o calendário principal e ajudem a distribuir melhor o fluxo de turistas ao longo dos meses”, explica.
O Festival Gastronômico é, exatamente, uma das apostas da administração pública para reforçar o calendário de comemorações. Realizado entre o final de fevereiro e início de março, o evento batizado de “Festival de Sabores” deu um fôlego para o comércio local.
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A fé que sustenta a economia
O governo local reconhece essa vocação que vai além da religiosidade, e sabe que o pequeno comércio se sustenta no turismo religioso. “A economia do município gira em torno do padre Libério. A fé das pessoas tem feito o giro da economia de Leandro Ferreira”, afirma o secretário de Cultura, Carlos Corrêa. A administração trabalha em duas frentes: criar e apoiar atrativos paralelos, como o festival, mas, ao mesmo tempo estruturar o principal motivo que leva fieis ao município.
Leandro Ferreira integra à IGR Verde Trilha dos Bandeirantes – uma Instância de Governança Regional do turismo em Minas Gerais. O circuito conecta vários municípios mineiros, promovendo o desenvolvimento sustentável, capacitação de rotas de peregrinação e fortalecimento da identidade tropeira e bandeirante na região.
Entendendo a dificuldade de quem empreende e, até, para tirar da informalidade quem faz renda a partir do turismo, desde 2024, o município trabalha para implantar o projeto “Caminhos de Padre Libério” junto ao IGR.
“Estão sendo demarcados pontos para fazermos caminhos de peregrinação, passando pelas cidades onde o Padre Libério já passou, como Maravilhas, Pequi, São José da Varginha, até chegar a Leandro Ferreira. Esse é um projeto em implantação que visa buscar também essa ampliação do turismo religioso”, afirma o secretário de Cultura.
Os setores de comércio e serviços são, juntos, o segundo maior empregador do município, com 102 vagas, conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de abril de 2026. Perde apenas para a agropecuária, com 117 vagas.
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A espera da beatificação
O fluxo de fiéis tem origem em uma devoção que atravessa gerações. Padre Libério é uma das figuras religiosas mais veneradas da região, atualmente, reconhecido pela Igreja como venerável, etapa importante no processo de beatificação. Agora, para avançar, precisa de um milagre atribuído à intercessão dele.
“Existem alguns casos que podemos considerar como presumíveis milagres, que ainda estão em início de análise. Pessoalmente creio que os milagres existem, estão aí. Cabe aos devotos do padre Libério nos comunicar aquilo que eles consideram um verdadeiro milagre”, afirma padre Adão Carlos Teixeira.
De segunda a sábado as missas, geralmente, são celebradas uma vez por semana na Matriz de São Sebastião. Já aos domingos, as celebrações ocorrem em três horários para atender a demanda de fiéis que vão de outras cidades em devoção ao venerável.
O turismo religioso como oxigênio financeiro
Para Padre Libério ser considerado “Santo” ainda há outras duas etapas. Mesmo sem previsão e um processo que pode ser estender por anos, a espera enche de entusiasmo quem tem no turismo religioso um oxigênio financeiro.
“A gente está aguardando e acredito que vamos ser pegos de surpresa. Em breve ele vai ser beatificado legalmente pela Igreja Católica e esse turismo maravilhoso só tende a aumentar”, afirma a proprietária do restaurante da Beth, Elizabete Luiza.
O estabelecimento de Beth, como gosta de ser chamada, fica, literalmente aos pés da Matriz de São Sebastião. Estrategicamente, junto da rodoviária, onde desembarcam fieis. “Daqui vem minha renda”, diz com o sorriso de quem deposita no Venerável as intenções de ver o negócio prosperar.
Essa devoção movimenta não só a igreja, mas toda a cidade. E, em Leandro Ferreira, a presença dos peregrinos também se transforma em apoio para ações comunitárias. Em datas como o da Sexta-feira da Paixão barracas solidárias são montadas com foco em reverter a renda para causas sociais.
“Alguns ajudam a casa de repouso, outros ajudam a APAE. Hoje, esse ano, teve uma barraca ajudando para a construção da Capela de Moinhos, que é aqui da nossa paróquia, na zona rural. Então, é um prazer a gente poder contribuir com o nosso trabalho, sabendo que outras pessoas vão se sentir bem, vão ser mais valorizadas e vão ter um acolhimento melhor. É prazeroso”, afirma Juliana Rabelo, moradora de Leandro Ferreira e voluntária.
Estrutura que barra turistas em Leandro Ferreira
A devoção a Padre Libério começou de forma orgânica e, agora, esbarra em gargalos estruturantes que segura turistas. Ciente de que a fé move a economia, a prefeitura e o Sebrae estão desenvolvendo uma espécie de diagnóstico para mapear os gargalos e traçar soluções.
“Entre eles, nós identificamos a falta de medição do fluxo de pessoas nos finais de semana comuns e também nas grandes festas religiosas”, explica a analista do Sebrae Poliana Oliveira.
O diagnóstico aponta, por exemplo, problemas de mobilidade urbana e um setor hoteleiro que requer mais investimentos.
“Tem também a capacitação de atendimento desses pequenos negócios, para que os romeiros tenham uma experiência de qualidade e principalmente indiquem a cidade para outras pessoas”, acrescenta.
A partir do resultado, a analista está estruturando um plano de trabalho continuado para apresentar aos parceiros – a prefeitura e o Sicoob, para dar continuidade de forma organizada. “Inclusive com o apoio da Unidade de Indústria e Comércio e Serviço que tem uma especialista em turismo religioso e está nos ajudando”, completa Poliana.
Paralelo, ações buscam capacitar colaboradores, bem como os empreendedores. No dia 26 de maio, durante a Semana no Microempreendedor Individual (MEI), o Sebrae realizou uma oficina com foco no atendimento. As mobilizações objetivam também tirar negócios da informalidade.
Enquanto a cidade se estrutura, uma certeza permanece: Leandro Ferreira seguirá atraindo fieis de canto a canto do Estado, tanto para pedir a benção do Venerável como para agradecer pelas graças recebidas.
“Já alcancei muitas graças com ele. É uma fé que move montanhas mesmo. Inclusive hoje vim trazer meus filhos, que são bênção, graça que a gente alcançou”, afirma Jéssica Andrade, moradora de Carmo do Cajuru que esteve no município na Sexta-Feira da Paixão.



