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Linha de produção

Uma palavrinha que virou moda é a tal da RESILIÊNCIA. Sua raiz deriva da física e tem a ver com a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica. Apropriada para a nossa condição, resiliência está relacionada à resignação e à nossa capacidade de adaptação às circunstâncias.

Olhando de certa distância, a tal da resiliência aparenta ser um gesto altruísta de espíritos mais evoluídos. Gente que quase sempre, pela dor ou por privações diversas, se rearranja na vida.

As histórias de casos assim pululam na TV, redes sociais e nas conversas. É beltrano que sofreu um acidente e ficou sequelado e mesmo assim se arrasta com um lindo sorriso no rosto. Tem também o cicrano que depois de 20 anos, com a crise, a sua empresa quebrou e hoje cuida da família com os seus salgados vendidos no semáforo/sinal/farol.

Resiliência revela histórias sofridas, nas quais a exceção acaba por ser uma quase regra.

A resiliência pode esconder os fatos. O porquê de as coisas serem daquela maneira e, portanto, o porquê de as pessoas passarem por privações/problemas que nem sempre foram motivados por elas.

Uma atitude resiliente em época de crise é se reinventar. Ok, concordo. Mas obrigar todo mundo a ser empreendedor sem ter vocação pra tal coisa é covardia. Então quem não se propõe a isso deixou de ser resiliente? Não teria outro meio?

Cada pessoa é uma pessoa. Com tempos diferentes de reação perante as circunstâncias. Escolher um padrão de resiliência e fazer todos entenderem que é possível pode não funcionar para todo mundo. Temos nossas particularidades e o nosso “time” para as coisas. Cada um desabrocha no seu momento e com suas certezas; não, necessariamente, com a dos outros.

O problema é que em tempos do digital e do consumo tipo “fast food” não há muito espaço para maturação. Na sociedade pós-moderna até as dores e privações devem ser digeridas rapidamente. Já deixando o caminho livre para as próximas que virão.

Sentir deveria ser algo abstrato no particular de cada um. Mas está cada vez mais pasteurizado. As dores e as soluções estão em linha de produção. Tudo feito de um mesmo jeito, ou quase, quando se deseja as mesmas reações das pessoas.

Nesse contexto, a resiliência é um perfeito balão de ensaio. Por exatamente querer nos condicionar nesse ambiente à espera dos mesmos resultados. Cada vez mais menos indivíduo e mais padrão.

Em seu livro Contrarresiliente, o poeta Zeh Gustavo aborda essa questão. Dele roubo trecho do poema “A trago seco”, que compartilho abaixo:

(…) A contrarresiliência é como lugar cavado sem expectativa do que encontrar/ Buraco que segue sendo tecido com a pá da brasa aquosa/ Em farsa desvelante das teias (…).

Resiliência não é sentença. Não precisa ser fardo. É preciso ressignificar.

Cada um com o seu sentido.

Rodrigo Dias

É jornalista e web poeta, há mais de duas décadas trabalha no mercado de comunicação. Formado em Publicidade e Propaganda, também atua como assessor de comunicação.