Lohanna sobre gestão da UPA: ‘condições criminosas de trabalho’

Vereadora critica falhas na Unidade de Pronto Atendimento e pede auditoria

A vereadora Lohanna França (Cidadania) classificou como “condições criminosas de trabalho” as situações às quais os médicos e outros profissionais de saúde da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Divinópolis têm sido expostos. A afirmação foi feita na tarde desta quinta-feira (10/6), quando a parlamentar falou na Câmara sobre os resultados de uma inspeção feita um dia antes pela Comissão de Saúde e que terminou com a interdição parcial do CTI da unidade pela Vigilância Sanitária.

Durante reunião horas antes com membros do Executivo, Lohanna pediu a instauração de uma autoria nas contas da UPA e diz que a indicação foi bem recebida. Ela listou três pontos que considera como cruciais para entender a crise. O primeiro trata das bombas usadas para diluir medicamentos e que, segundo especialistas, precisam estar disponíveis na proporção de quatro unidades para cada leito.

“Logo, se tinham 30 leitos, teriam de ter 120 bombas. E tinham 39. Ou seja: não tinham a quantidade de bombas prevista pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] e constantes em um contrato que são obrigados a cumprir”.

A parlamentar classificou como “mentirosa” uma alegação do administrativo da UPA e da empresa gestora, de que a falta de bombas se dá pelo momento de ampliação de casos de Covid-19 e pela ampliação de leitos que eles fizeram.

“Esse argumento não se sustenta. Não para de pé, porque essa ampliação são de outros 12 leitos. Não são sobre os outros 30 leitos, que eles já têm há muito tempo. E as bombas deveriam estar lá já. Eles dizem que as bombas estavam em manutenção. Têm 80 bombas em manutenção?”.

Oxigênio

O segundo ponto listado é o fato de que todos os pacientes da UPA estavam recebendo 100% de oxigênio, mesmo sem necessidade. Especialistas explicam que existe uma porcentagem necessária de gás que a pessoa tem que receber. O ideal é que seja mais parecida com a porcentagem do ar.

“Quando não tem, por exemplo, nitrogênio nessa mistura do gás comprimido, a pessoa tem que fazer mais esforço para respirar e isso pode causar até lesão pulmonar. Sabe o que o pessoal falou aqui nesse plenário sobre a questão da lesão pós Covid-19, de pacientes que ficam com a lesão depois de se curarem da doença, precisado, por exemplo, de fisioterapia pulmonar? Isso pode aumentar o número desses casos”.

Sedativos

A terceira polêmica engloba sedativos. Ainda segundo a vereadora, esses medicamentos já não estão mais em falta na UPA. Porém, isso só ocorreu após a ida de membros da comissão legislativa ao local.

“Acho muito curioso. Quando a Comissão de Saúde chegou lá, eles disseram que estavam com muitas dificuldades para a compra, o que eu entendo. Afinal, estamos vivendo uma pandemia que é internacional. O que eu acho interessante é que é só a comissão aparecer, que conseguem comprar. Que bom que compraram. A população agradece. Sinal de que fizeram a obrigação deles. Mas, o que eu acho estranho é: a dificuldade é imensa, internacional. Agora: será que tem, mas está caro e eles não estão querendo pagar?”, questionou.

Empenho

Lohanna afirmou ainda que a Comissão de Saúde continuará empenhada na busca por respostas.

“A Vigilância foi lá e pediu uma resposta prazo de até 24h em relação a todas as questões. Foi perguntado qual é a real capacidade de atendimento da UPA. A unidade topou um aditamento de contrato. Não estão fazendo caridade ou trabalho voluntário. […] Combinado não sai caro. Se você combinou de oferecer 40 leitos, tem que ter tudo o que 40 leitos tem. O que é medicamento, o que é bomba. O que for tem que ter. Então, não fala que dá conta só para assinar um contrato. Porque foi isso que eles fizeram”.

Em seguida, a vereadora defendeu os trabalhadores da saúde que atuam na UPA.

“Essa aqui não é uma crítica aos profissionais de saúde de lá, que estão se virando em 30. Isso é uma crítica à gestão, ao administrativo, que tem sido incompetente e cruel com a população”.

Auditoria

Na manhã desta quinta, a vereadora participou de uma reunião virtual com representantes da Prefeitura e da UPA.

“Pedi uma auditoria na UPA e o prefeito acatou. Disse que vai fazer e eu senti o compromisso nele de resolver essa situação. O que me deixa muito feliz, muito satisfeita, porque a gente sabe que a UPA é a nossa porta SUS e isso, seu governador, é a consequência de Divinópolis não ter um hospital SUS. Porque cabe lembrar que o São João de Deus, que salva tantas vidas aqui, não é do SUS. É um hospital filantrópico, privado. Será que algum dia nós vamos ter o sonho do hospital do SUS?”

A vereadora afirmou ainda que considera inadmissível que falta de insumos sejam motivo para justificar o risco de morte de pacientes.

“Gente morrer porque não tem máquina de oxigênio funcionando? Porque não tem bomba que dilui medicamento? E aí vem diretor médico de hospital falar ‘ah, mas dá pra diluir o medicamento por gotejamento’. Meu querido, você tem técnico de enfermagem pra fiscalizar todos esses gotejamentos de todos os pacientes? Porque, até onde eu sei, não tem”.

Por fim, a vereadora questionou o fato de o preço de cada plantão médico na UPA ser um dos mais altos da região.

“Por que um dos plantões mais bem pagos, R$ 1.500 por plantão, não acha médico? Hospitais que pagam menos estão contratando e a UPA não consegue. Será que é porque os médicos não querem se submeter a essas condições criminosas de trabalho? Eu acho que pode ser”, finalizou.

Ricardo Welbert

Ricardo Welbert

Ricardo Welbert, jornalista formado pela Uemg em Divinópolis e mestrando em Ciências da Comunicação na Universidade do Porto, em Portugal.

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