
“O cidadão pode não dominar o regimento interno da Câmara, mas entende perfeitamente quando um movimento é desproporcional”
Em ano eleitoral, não existe movimento inocente. Existe cálculo — mal feito ou não.
Em Divinópolis, a tentativa de cassação do vereador Vítor Costa (PT), após a divulgação de uma crítica sem autor identificado, não é, na prática, um debate sobre ética parlamentar. É disputa de narrativa. E, ironicamente, pode produzir exatamente o efeito oposto ao pretendido: transformar um alvo em ativo político.
Porque vamos ser francos: ninguém se mobiliza de verdade por excesso de formalidade. O eleitor médio não acorda indignado porque um vereador compartilhou uma crítica sem assinatura. Mas ele entende — e reage — quando percebe cheiro de perseguição.
E é aí que mora o erro estratégico.
Ao tentar enquadrar Vítor Costa, seus adversários — com destaque para o vereador Matheus Dias (Avante), autor da denúncia — acabam entregando a ele o que toda campanha gostaria de ter: um enredo: “estão tentando me calar”.
Não é sobre o conteúdo da crítica. É sobre o símbolo que se constrói.
A política brasileira — especialmente no interior — ainda opera muito mais na lógica da emoção do que da técnica. E, nesse jogo, a vítima ganha tração. Quem parece perseguidor perde densidade moral, mesmo quando pode ter razão jurídica.
Cassação e o oportunismo com verniz legal
Existe, claro, um debate legítimo: parlamentares devem ter responsabilidade ao divulgar informações. Mas transformar isso em processo de cassação? Em pleno calendário eleitoral? Isso deixa de ser zelo institucional e passa a parecer oportunismo com verniz legal.
E o eleitor percebe.
Aliás, percebe mais do que muitos estrategistas imaginam. O cidadão pode não dominar o regimento interno da Câmara, mas entende perfeitamente quando um movimento é desproporcional. E política, no fim, é sobre proporção — entre erro e punição, entre crítica e reação.
Quando essa balança pesa demais de um lado, a opinião pública costuma compensar do outro.
O resultado provável?
Vítor ganha centralidade
Vítor Costa, que talvez estivesse num papel secundário, ganha centralidade. Sai da condição de mais um para o lugar de protagonista. Sai do debate técnico para o campo emocional. E, nesse território, a lógica muda completamente.
Cassação vira palco. Processo vira campanha.
Porque, no fim das contas, a pergunta que fica para o eleitor não é “ele errou?”.
É: “por que estão querendo tirar ele?”
E essa é uma pergunta perigosíssima — principalmente para quem achou que estava no controle do jogo.
Vítor Costa já percebeu essa oportunidade e faz do limão uma limonada. Pré-candidato a deputado estadual, começa a acumular notas de apoio e manifestações públicas que tratam o episódio como tentativa de perseguição — exatamente o tipo de narrativa que impulsiona, não freia.
Enquanto isso, a falta de leitura política de Matheus Dias pode não ficar restrita ao episódio. Em ano eleitoral, movimentos mal calculados não atingem só quem os protagoniza — contaminam aliados, desgastam grupos e podem custar caro nas urnas.
No fim, quem achou que estava armando uma contenção pode ter aberto, sem querer, um palanque.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do PORTAL GERAIS.



