Medo de brigas faz política “sumir” de grupos de WhatsApp, aponta pesquisa

Política
Por -15/12/2025, às 09H27dezembro 15th, 2025
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Foto: Marcelo Camargos/Agência Brasil

Pesquisa mostra queda no compartilhamento de política em grupos de WhatsApp e revela que mais da metade dos usuários tem medo de opinar por causa do ambiente agressivo.

O compartilhamento de notícias, assim como opiniões políticas caiu de forma significativa em grupos de WhatsApp, especialmente em ambientes de família, amigos e trabalho. Além disso, mais da metade dos usuários afirma ter medo de se posicionar politicamente, diante de um clima considerado agressivo e conflituoso. Os dados fazem parte do estudo Os Vetores da Comunicação Política em Aplicativos de Mensagens, divulgado nesta segunda-feira (15).

A pesquisa foi realizada pelo InternetLab e pela Rede Conhecimento Social, organizações independentes e sem fins lucrativos, com apoio financeiro do WhatsApp, que não interferiu no conteúdo do levantamento.

Menos política em grupos de whatsapp de família, amigos e trabalho

O estudo aponta que o WhatsApp segue amplamente presente no cotidiano: 54% dos usuários participam de grupos de família, 53% de grupos de amigos e 38% de grupos de trabalho. No entanto, apenas 6% estão em grupos específicos de debate político, número que caiu em relação a 2020, quando era de 10%.

Ao analisar o conteúdo desses grupos, os pesquisadores identificaram uma redução consistente na circulação de mensagens sobre política, políticos, bem como governo entre 2021 e 2024:

  • Grupos de família: de 34% para 27%
  • Grupos de amigos: de 38% para 24%
  • Grupos de trabalho: de 16% para 11%

Uma entrevistada de 50 anos, de São Paulo, resume a dinâmica atual.

“Evitamos falar sobre política. Acho que todos têm um senso autorregulador ali, e cada um tenta ter bom senso para não misturar as coisas”.

Receio de opinar domina os ambientes digitais

O levantamento revela que 56% dos entrevistados têm medo de emitir opinião política, principalmente porque percebem o ambiente como hostil. Esse sentimento aparece de forma transversal entre diferentes posicionamentos ideológicos, conforme a pesquisa.

  • 63% das pessoas que se identificam como de esquerda
  • 66% das que se dizem de centro
  • 61% das que se consideram de direita

Uma mulher de 36 anos, de Pernambuco, relata:

“Acho que os ataques hoje estão mais acalorados. Às vezes você fala alguma coisa e é mais complicado, o pessoal não quer debater, já quer ir para a briga”.

Autorregulação vira regra nos grupos

Com o aumento dos conflitos, os usuários passaram a adotar estratégias de autocensura e prevenção de embates. De acordo com o estudo:

  • 52% dizem se policiar cada vez mais sobre o que falam
  • 50% evitam política nos grupos de família para fugir de brigas
  • 65% evitam compartilhar conteúdos que ataquem valores de outras pessoas
  • 29% já saíram de grupos por não se sentirem à vontade para opinar

Uma entrevistada resume o cenário:

“As pessoas foram se autorregulando, e nos grupos onde sempre se discutia alguma coisa, hoje é praticamente zero”.

Minoria ainda aposta no confronto

Apesar da tendência de retração, uma parcela dos usuários mantém postura ativa. O estudo mostra que:

  • 12% compartilham conteúdos considerados importantes mesmo que gerem desconforto
  • 18% dizem expor suas ideias mesmo que possam soar ofensivas

Uma mulher de 26 anos, de Minas Gerais, afirma:

“Eu taco fogo no grupo. Gosto de assunto polêmico, gosto de falar, gosto de tacar lenha na fogueira”.

Estratégias para falar de política sem conflito

Entre os 44% que se sentem seguros para falar sobre política no WhatsApp, surgem estratégias para reduzir atritos:

  • 30% usam humor para abordar o tema
  • 34% preferem conversar no privado
  • 29% falam apenas em grupos com pessoas de visão semelhante

Um entrevistado de 32 anos, do Espírito Santo, explica:

“Eu gosto de discutir, mas é individualmente. Eu não gosto de expor isso para todo mundo”.

Amadurecimento no uso do WhatsApp

Para a diretora do InternetLab e autora do estudo, Heloisa Massaro, o WhatsApp se tornou uma ferramenta profundamente integrada à vida social, refletindo dinâmicas do mundo offline.

Conforme ela, ao longo dos anos, os usuários passaram a desenvolver normas éticas próprias para lidar com política nos aplicativos de mensagem.

“Elas se policiam mais, relatam um amadurecimento no uso”, afirma. “A ética dos grupos vai se consolidando com o tempo”.

A pesquisa ouviu 3.113 pessoas com 16 anos ou mais, de todas as regiões do Brasil, entre 20 de novembro e 10 de dezembro de 2024, e integra um monitoramento anual iniciado no fim de 2020.

Com informações da Agência Brasil