Mortes causadas pelo calor podem dobrar e afetar principalmente idosos na América Latina

Minas Gerais
Por -16/10/2025, às 09H16outubro 16th, 2025
calor rio de janeiro
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Estudo alerta que, até 2050, o calor extremo pode ser responsável por mais de 2% das mortes na região, com idosos e populações pobres entre os mais vulneráveis

O número de mortes causadas pelo calor pode mais que dobrar nas próximas duas décadas na América Latina, segundo estudo da rede de pesquisadores do projeto Mudanças Climáticas e Saúde Urbana (Salurbal-Clima). Atualmente, cerca de 1 em cada 100 mortes na região está relacionada às altas temperaturas, mas o índice pode subir para 2,06% até 2054, considerando um cenário moderado de aquecimento global entre 1°C e 3°C.

A pesquisa analisou dados de 326 cidades de nove países entre eles Brasil, Argentina, Chile, Costa Rica, México e Peru e mostra que idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade social serão os mais afetados.

“As pessoas idosas e as mais pobres são as que mais sofrem. Quem vive em áreas periféricas, em moradias precárias e sem acesso a ar-condicionado ou a espaços verdes terá mais dificuldade para enfrentar ondas de calor cada vez mais intensas”, explica Nelson Gouveia, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e um dos autores do estudo.

O pesquisador alerta que o calor extremo não causa apenas desconforto, mas aumenta o risco de infartos, insuficiência cardíaca e outras complicações, especialmente em pessoas com doenças crônicas.

No Brasil, o levantamento utilizou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do DataSUS, e do Censo Demográfico do IBGE. O envelhecimento populacional — especialmente o aumento de pessoas com mais de 65 anos entre 2045 e 2054 — deve ampliar o impacto das temperaturas extremas sobre a saúde.

Os cientistas defendem que parte dessas mortes pode ser evitada por meio de políticas de adaptação climática e ações preventivas, como planos de contingência para ondas de calor, criação de áreas verdes, sistemas de alerta precoce e protocolos de saúde pública para atendimento prioritário de idosos e pessoas com doenças crônicas.

Outras medidas eficazes incluem educação comunitária, melhorias urbanas para reduzir ilhas de calor e corredores de ventilação natural nas cidades.

O projeto Salurbal-Clima, que reúne instituições de nove países latino-americanos e dos Estados Unidos, tem duração de cinco anos (2023–2028) e busca relacionar as mudanças climáticas aos impactos na saúde pública em diferentes contextos urbanos da região.