Muito além do cansaço: o desafio das mães para garantir um lugar no mercado

Minas Gerais
Por -30/05/2026, às 21H22junho 3rd, 2026
brenda fernandes e o filho
Brenda Fernandes e o filho Tomás de 3 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

A escassez de creches e políticas públicas cobram um preço alto das mulheres: limitação financeira, além do esgotamento mental

Brenda Fernandes
Amanda Quintiliano

“Levantamos às 6 horas e retornamos após as 18h”. Essa rotina exaustiva não é uma realidade particular apenas da auxiliar administrativa Thaissa Fernanda. O dia dela, assim como o de outras mães, começa, às vezes, antes de o sol nascer e só se encerra quando o filho finalmente dorme. A sobrecarga da rotina do cuidado – culturalmente atribuída às mulheres – se mistura à ausência de políticas públicas que garantam condições mais seguras de recolocação delas no mercado de trabalho.

Essa é a segunda reportagem da nossa série que mostra a relação da maternidade x mercado de trabalho.

Para conciliar trabalho e maternidade é preciso malabarismo, uma rede de apoio privada e aquela velha tática: respirar fundo para manter o equilíbrio.

Enquanto Thaissa equilibra “os pratinhos” para manter-se ativa, uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra uma realidade preocupante. Após 24 meses, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade não está mais presente no mercado de trabalho, um padrão que se repete até mesmo 47 meses depois.

A própria Thaissa só voltou a trabalhar há cerca de um mês, quando o filho completou um ano. “Sem creche não tem como trabalhar. Quando minha licença-maternidade terminou, eu preferi ficar com meu filho. Era inviável naquele momento retornar, conciliar. Não era compensatório”, relembra. Enquanto ela assumia os cuidados da casa, o marido ficava responsável pela renda.

A maternidade ainda gera uma penalidade significativa na trajetória profissional feminina. Essa é a avaliação da cientista política Natália Fernandes: “Enquanto a paternidade tende a não produzir o mesmo efeito negativo sobre a participação laboral masculina, a maternidade penaliza as mulheres. Isso faz com que políticas de cuidado infantil tenham um papel central para reduzir as desigualdades de gênero no trabalho”, afirma.

Um dos empecilhos que pesam na decisão de voltar ou não a trabalhar é exatamente a ausência de creches públicas suficientes. O momento pede um lugar de confiança, seguro e acessível para que as mães deixem seus filhos; contudo, elas esbarram na escassez de vagas, principalmente em período integral. Quando encontram oportunidades, nem sempre os horários são compatíveis com o expediente profissional.

Dados do Censo Escolar 2024, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), indicam que o estado de Minas Gerais ampliou o percentual de matrículas para creches em tempo integral de 59,4% para 61,6% entre 2022 e 2024. Na pré-escola, o salto foi mais significativo: saiu de 12,6% para 14,8% no mesmo período. Números ainda longe se serem os ideais.

Em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas, há 6.259 crianças matriculadas na educação de infantil – de 2 a 5 anos. Delas, apenas 654 são atendidas em período integral, conforme dados da Secretaria Municipal de Educação. Não há creche para idade inferior e nem projetos imediatos para sanar esse deserto assistencial.

Burnout materno

A ausência de políticas que garantam um espaço seguro e uma ambiente mais acolhedor para essas mães e filhos tem outro impacto: o psicológico ou, nas palavras da psicólogoca Flávia Campos de Cássia César Campos: “Burnout Materno”.

“No cenário atual, a mulher enfrenta uma “fratura” interna: o sofrimento ético e emocional da separação do filho ou filha e, do outro lado, um mercado de trabalho que cobra dela uma produtividade como se ela não tivesse filhos.”, afirma a psicóloga Flávia de Cássia César Campos.

Para a psicóloga, os problemas vão além da relação da mulher com a ausência de políticas públicas, englobando também a falta de acolhimento corporativo institucionalizado. “Muitas mulheres enfrentam o medo real da demissão logo após o término da estabilidade da licença-maternidade, ou são sutilmente preteridas em promoções e novas oportunidades de liderança”, diz.

Olhar para a maternidade exige a desconstrução da ideia romântica estabelecida culturalmente pela sociedade. “O que se observa não é um processo puramente biológico, mas um fenômeno profundamente atravessado pela sobrecarga. O impacto na saúde mental se dá, principalmente, pela jornada invisível do cuidado”, argumenta.

Quando há recolocação no mercado de trabalho, ela vem com a responsabilidade jogada sobre as mulheres do “bem-estar da criança”.

“Isso gera o que chamamos hoje de Burnout Materno: um estado de exaustão extrema físico e mental. Além disso, existe a cobrança social pela “mãe perfeita”. Quando essa mulher se depara com o cansaço real, com a perda da sua identidade individual para além do papel de mãe, a culpa se instala. Essa dissonância entre a expectativa social e a realidade é o principal gatilho para quadros severos de ansiedade e depressão pós-parto”, relata Flávia.

Condição que afeta também no ambiente profissional. De acordo com um estudo da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro realizado com 247 mil mães com idade entre 24 e 35 anos, 50% acabam demitidas após aproximadamente dois anos do início da licença-maternidade. Um contraste com dados do Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE) que mostram que a mão de obra feminina representa 54% da força de trabalho no Brasil.

“Desistir nunca foi uma opção”

O impacto não é apenas psicológico, mas também no bolso. Thaissa, a nossa personagem do início desta matéria, não teve alternativa a não ser colocar o filho em uma escola particular.

“Fica difícil deixar ele na única escola em tempo integral que o governo ajuda. Estou tendo que custear um valor alto para deixar meu filho na escola que fica acessível para eu poder trabalhar”, diz Thaissa.

De acordo com dados do Educa Mais Brasil de 2023, o valor das creches no país varia de R$ 300 a R$ 3.200. Em Minas Gerais, os preços partem de R$ 450, variando conforme fatores como infraestrutura, número de profissionais por criança e localização.

Considerando o valor de um salário mínimo (que atualmente é de R$ 1.621,00), isso significa comprometer no mínimo 27,76% da renda com a creche, apenas para que a mãe consiga ir trabalhar.

“Quando o Estado falha em fornecer uma rede de apoio institucionalizada e segura, ele retira dessa mulher a sua autonomia econômica. Sem ter onde deixar os filhos, a mãe chefe de família fica impedida de procurar emprego, de aceitar vagas de tempo integral ou de investir na sua qualificação profissional. Isso a empurra diretamente para a informalidade, para o subemprego e, consequentemente, para a vulnerabilidade social e a dependência financeira, o que muitas vezes impede as mulheres de saírem de ciclos de violência doméstica”, afirma Flávia.

Estudantes

Muitas mães necessitam da escola em tempo integral para se inserirem no mercado de trabalho, mas também existe uma grande porcentagem de mulheres que encaixam outra atividade na rotina: os estudos. A história de uma das repórteres responsáveis pela apuração e produção desta reportagem se assemelha à de muitas dessas mulheres.

Brenda Fernandes, de 24 anos, mãe de um garotinho de 3 anos, engravidou ainda durante a graduação em Jornalismo. Para não abandonar a faculdade, precisou conciliar a maternidade, os estudos e, por vezes, o estágio até dezembro do ano passado, quando se formou. Sem vagas em creches na rede pública, ela recorreu primeiro à privada, até descobrir no programa Creche para Todos, da Defensoria Pública, uma alternativa.

“O programa fez muita diferença, principalmente financeira, porque por muito tempo eu pagava de creche todo o valor que ganhava no estágio”, afirmou.

Desistir, embora fosse difícil, nunca foi uma opção para ela. “Continuei porque sabia o quanto aquele momento investido na minha educação era importante, principalmente para o Tomás”, afirma a jornalista.

Só após judicializar o caso, ela conseguiu uma vaga custeada pelo poder público em uma creche da rede particular, aliviando o orçamento e permitindo investir no cuidado do filho e da família.

Uma pesquisa divulgada pelo Inep mostra que o número de mulheres matriculadas em cursos de graduação no Brasil em 2022 era de aproximadamente 3 milhões, enquanto o de homens era de 2,22 milhões.

O programa Creche para Todos, como detalhado na primeira reportagem (link abaixo), ingressa com ações judiciais para assegurar o direito das crianças à educação e das mães ao trabalho. Em Divinópolis, somente em 2025, a Defensoria Pública ajuizou 180 ações garantindo que o município fornecesse a vaga, seja em instituições públicas ou por meio de contratação na rede privada