Não adianta só fazer vídeo

Políticos que gostam de postar cobranças precisam saber rito

A regra é clara: aos vereadores e deputados cabe fiscalizar o Executivo. Vereadores fiscalizam governos municipais, deputados estaduais ficam de olho nos governadores e os deputados federais atuam junto ao presidente e seus ministros. Para que essas fiscalizações tenham efeito, é preciso formalizá-las.

Essa formalização só pode ser feita por meio de ofício – um documento padrão no qual o autor diz o que quer, assina e envia. Tudo isso ainda é pouco para considerar o comunicado como bem sucedido, pois ainda é preciso que o gabinete do destinatário receba a carta e emita um recibo com o dia e o horário da chegada e também a assinatura de quem recebeu.

Tudo isso parece pouco para parlamentares acostumados a cobrar muita coisa por meio de vídeos postados em suas redes sociais. Com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, vereadores e deputados se sentem à vontade para mostrar situações com as quais não concordam e cobrar ações por parte dos responsáveis por cada uma das questões que eles relatam.

Seja em transmissões ao vivo ou em vídeos gravados, eles disponibilizam essas cobranças nas mídias sociais e esperam pelas reações. As reações dos eleitores e do público em geral chegam primeiro (e rápido), por meio de likes, compartilhamentos e comentários. Felizes com o resultado, recarregam as baterias e vão para a próxima transmissão ou gravação, ávidos por puxar as orelhas dos gestores.

Um bom exemplo disso é um vídeo que o vereador Wesley Jarbas (Republicanos) disponibilizou à imprensa nesta terça-feira (8/6), como sugestão de pauta. Na gravação ele mostra um trecho de rodovia federal que considera como perigoso e cobra medida ao deputado federal Domingos Sávio (PSDB).

“Pessoal, trevo da morte acima do Parque de Exposição, onde a cidade cresceu muito do lado de cá. Região do Jardim das Acácias, bairro Santo André e Copacabana e continua da mesma forma. Então essa BR-494, que é competência do governo federal, eu vou buscar solução com o nosso deputado federal Domingos Sávio. Tenho certeza de que ele vai me atender aqui. Pra gente solicitar as melhorias para esse trevo, que é um trevo muito perigoso. Ontem mesmo teve um acidente aqui. Eu vim aqui fiscalizar e levar até ele, que é competência do Dnit [Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes], para que possamos resolver a situação desse trevo. Porque vários relatos de pessoas que me ligaram me chamando para a gente resolver essa questão. É questão de salvar vidas”, diz Wesley Jarbas no vídeo.

Procurada pelo blog, a assessoria de imprensa do deputado informa que também recebeu o vídeo nesta terça, enviado pelo vereador. Porém, não houve a formalização.

“Ele nos enviou o vídeo ontem à noite e hoje pela manhã fizemos contato com a assessoria dele perguntando qual era o quilômetro que compreendia as duas entradas, tanto essa que dá acesso à avenida Paraná quanto a que dá acesso ao Jardinópolis, e não souberam responder. Pedimos também que o vereador oficiasse, por meio de ofício ou algo que fosse um documento. Porque isso aí não é um documento. Ele simplesmente encaminhou o vídeo. Pra que a gente pudesse solicitar uma reunião no Dnit. Coo esse foi o primeiro contato que ele fez e foi ontem à noite, não foi dada nenhuma providência a respeito disso, até porque foi feito com informações faltantes. A partir do momento em que a gente receber as informações de forma completa e oficiais por meio do vereador, a gente vai, a partir daí, buscar as informações junto ao Dnit”, informou a assessoria de Domingos Sávio.

Não tenho nada contra quem faz vídeo. Inclusive já publiquei um artigo aqui no blog no qual defendo os vídeos como forma eficaz (e legítima) de prestar contas à população. Mas, para que as cobranças feitas nos vídeos publicados possam, de fato, proporcionar alguma melhoria à população, é preciso ir além das curtidas, dos compartilhamentos e dos comentários. É preciso formalizar.

Ricardo Welbert

Ricardo Welbert

Ricardo Welbert, jornalista formado pela Uemg em Divinópolis e mestrando em Ciências da Comunicação na Universidade do Porto, em Portugal.

Deixe seu comentário

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do PORTAL GERAIS. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O PORTAL GERAIS poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.