Cidade terá nomes na disputa pelo Governo de Minas, Senado, Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa; especialistas avaliam os impactos da concentração de candidaturas para a política local
As eleições de 2026 trazem um protagonismo diferente para Divinópolis e a coloca em uma posição de destaque no cenário político de Minas Gerais. A cidade terá candidatos em diferentes disputas, desde o Governo de Minas e o Senado até a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa.
Ao todo, a lista reúne nomes ligados ao município em diferentes campos políticos e partidos. O cenário, portanto, amplia a presença de Divinópolis na eleição estadual, mas também cria uma disputa intensa pelo eleitorado local.
Entre os nomes estão Cleitinho Azevedo (Republicanos) e Professor Túlio Lopes (PCB), que disputam o Governo de Minas. Já Domingos Sávio (PL) concorre ao Senado.
Na disputa pela Câmara dos Deputados, aparecem Gleide Andrade (PT), Ana Elisa (PT), Lohanna França(PV), Cleber Corrêa da TV (Avante) e Gleidson Azevedo (Republicanos).
Além disso, a cidade também terá uma quantidade expressiva de candidatos à Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Entre eles estão Kell Silva (PV), Vitor Costa (PT), Josafá Anderson (PSB), Flávio Marra (PRD), Eduardo Azevedo (PL), Flávia Castro (PSB), Jéssica Carvalho (PCB) e Marcelina Liberato (Rede).
Cleitinho Azevedo e Túlio Lopes (Foto: Reprodução Redes Sociais)
Mais candidatos significam mais força política para Divinópolis?
Para o analista político Antonio Faraco a presença de tantos nomes ligados à cidade demonstra que Divinópolis ampliou sua projeção política para além dos limites municipais.
“Divinópolis já tinha importância regional, mas uma eleição com essa configuração aumenta sua visibilidade na política mineira e faz com que partidos e lideranças estaduais olhem com mais atenção para o município. Isso, evidentemente, não garante que a cidade terminará a eleição com maior representação.”
Isso ocorre, principalmente, nas disputas proporcionais. Com vários candidatos a deputado federal e estadual, o eleitorado local pode ficar mais dividido.
O cientista político Malco Camargos avalia que o cenário coloca Divinópolis em uma posição diferente. A cidade deixa de aparecer apenas como um importante colégio eleitoral do Centro-Oeste e passa também a funcionar como origem de lideranças que buscam cargos de maior alcance.
“De fato, Divinópolis parece a capital de Minas nos últimos tempos. Seja pela movimentação do próprio Cleitinho, seja pela força de seus candidatos a deputado federal. Mas para a cidade, muito pouco quer dizer.”
O cientista político faz, portanto, uma ressalva importante: a visibilidade eleitoral precisa se transformar em resultados concretos para o município.
Nesse sentido, ele chama atenção para a diferença entre a exposição política de Divinópolis e os benefícios efetivamente recebidos pela população, como recursos e políticas públicas.
O cientista político Antonio Faraco (Foto: Arquivo pessoal)
Eleitorado de Divinópolis passa por mudança de perfil
Além do número de candidaturas, os especialistas também analisam quem estará do outro lado das urnas.
Segundo o analista político Antonio Faraco, Minas Gerais e Divinópolis chegam às eleições de 2026 sem uma mudança brusca no perfil do eleitorado.
As mulheres continuam sendo maioria. Entretanto, a principal alteração aparece na idade dos eleitores.
De acordo com a análise, a participação relativa dos mais jovens diminuiu, enquanto aumentou a presença das faixas etárias mais elevadas. Essa mudança pode influenciar os assuntos que ganham maior importância durante a campanha.
“O que chama mais atenção é a mudança etária: diminui relativamente a presença dos mais jovens e cresce a das faixas de idade mais elevadas. Isso pode ter efeito sobre os temas que ganham maior sensibilidade durante a campanha, porque gerações diferentes tendem a chegar à eleição com experiências e preocupações também diferentes.”
Assim, temas como saúde, segurança, renda e serviços públicos podem ganhar ainda mais espaço no debate eleitoral.
Em Divinópolis, essa transformação fica mais evidente porque o número total de eleitores mudou pouco.
Já Malco acrescenta outro aspecto à discussão. Para ele, existe uma diferença entre o perfil da população e quem efetivamente ocupa espaços de poder.
“Mesmo as mulheres sendo maioria no eleitorado, na política elas são subrepresentadas. Mesmo os pardos sendo maioria na sociedade, na política eles são subrepresentados.”
O cientista político também cita a sub-representação de negros e de pessoas com ensino médio. Para ele, o problema está na falta de diversificação da elite política, além da elitização e masculinização desse espaço.
Outro fator que pode pesar na escolha dos eleitores é a polarização política.
Para Antonio Faraco, o fenômeno deve continuar forte em 2026. Entretanto, ele diferencia a disputa presidencial da corrida pelo Governo de Minas.
Na eleição para presidente, a tendência é de uma disputa mais marcada entre lulismo e bolsonarismo/antipetismo. Já na eleição estadual, a configuração é diferente.
Isso porque, segundo o analista, a direita possui uma base eleitoral importante, mas está dividida entre diferentes lideranças. A esquerda, por outro lado, enfrenta dificuldades para transformar a força de Lula em uma candidatura competitiva para o governo estadual.
Consequentemente, um mesmo eleitor pode adotar critérios diferentes em cada uma das disputas.
Malco também chama atenção para esse comportamento. Para ele, mais do que uma simples polarização ideológica, existe uma polarização afetiva, marcada pela identificação emocional do eleitor com determinado candidato.
“O eleitor apaixonado, assim como um cidadão apaixonado, age relativizando muito as ações do outro, podendo gerar então uma decisão que parece acertada no primeiro momento, mas que depois pode gerar algum tipo de frustração.”
Candidaturas locais podem aumentar o interesse dos eleitores?
Antonio Faraco avalia que o número de candidaturas pode aproximar a eleição do cotidiano dos moradores.
Afinal, quando pessoas da própria cidade concorrem a diferentes cargos, a política estadual e nacional ganha um rosto conhecido.
Além disso, a presença desses candidatos tende a aumentar a quantidade de debates, eventos, entrevistas, conteúdos nas redes sociais e cobertura da imprensa local.
Consequentemente, a campanha pode se tornar mais presente na rotina da população.
Porém, o analista faz uma ressalva: interesse político e comparecimento às urnas são fenômenos diferentes.
“Eu teria mais cautela, porém, em dizer que esse movimento levará necessariamente mais eleitores às urnas. Interesse político e comparecimento eleitoral não são a mesma coisa. Uma eleição muito competitiva pode mobilizar grupos, intensificar disputas e aumentar a atenção sem alterar de maneira significativa a abstenção.”
O cenário de 2026 coloca Divinópolis diante de uma situação que combina protagonismo e disputa interna.
De um lado, a quantidade de candidatos mostra que lideranças da cidade buscam espaço em praticamente todas as principais esferas da política estadual. Dessa forma, Divinópolis ganha visibilidade e passa a ser observada com mais atenção por partidos e grupos políticos de Minas.
Por outro lado, a grande quantidade de nomes pode provocar uma pulverização dos votos.
Nas eleições proporcionais, candidatos da mesma cidade disputarão o mesmo eleitorado. Assim, uma candidatura forte não significa necessariamente uma bancada local maior.
Ainda assim, para Antonio Faraco, o cenário tem relevância política. A presença de nomes em diferentes cargos demonstra que Divinópolis conseguiu projetar sua política para além do município.
Agora, a questão que ficará para as urnas é saber se essa projeção também resultará em representação efetiva e maior poder de articulação para a cidade.
A resposta dependerá não apenas da quantidade de candidatos, mas da capacidade de cada um deles de conquistar votos dentro e fora de Divinópolis.