Declaração foi feita durante reunião na Câmara Municipal: “fazer sepultamento” e “dar sopa para vagabundo”
O pastor Wilson Botelho, responsável pelo projeto Quero Viver, que atua com dependentes químicos em Divinópolis, fez declarações graves durante uma reunião da Comissão de Justiça, Legislação e Redação na Câmara Municipal, na segunda-feira (8/9). Em meio ao debate sobre o atendimento à população em situação de rua, ele afirmou que não aceita pessoas vindas de outros municípios e disparou:
“Se não forem embora, é só eu dar uma ligada aqui e você tomar dois tiros na cabeça”.
Além disso, o líder religioso declarou que não poderia distribuir sopa para “não engordar vagabundos”.
“Como que vou dar sopa para morador de rua, se não tenho a solução para ele, como que vou tratar: vou engordar o vagabundo, engordar o pilantra. Vai dar sopa? Dá sopa. Mas dá a solução. Você é de onde, Pará de Minas? Então vai embora, aqui não pode ficar”.
Em outro momento disse: “fazer o sepultamento às 16h”.
“Tinha 10 homens comigo lá na praça. Eu perguntava: de onde você é? Sou lá de Campo Grande. Então você vai embora agora. Não fica aqui. Se você atravessar aquela ponte, amanhã as 16h farei seu sepultamento. Só dar uma ligada aqui e você tomar dois tiros na cabeça”.
Repercussão imediata
As falas geraram indignação entre parlamentares. O vereador Vítor Costa (PT), por exemplo, considerou a declaração inadmissível.
“Estamos falando de seres humanos em extrema vulnerabilidade. Ouvir um líder religioso e gestor de instituição incitar violência contra essas pessoas é perverso e criminoso. O mínimo que se espera é repúdio”.
Já o vereador Matheus Dias (Avante), que atua na defesa de comunidades terapêuticas, saiu em defesa do pastor e disse que ele enfrenta problemas psicológicos.
A deputada estadual Lohanna França (PV) também condenou as declarações.
“O plenário da Câmara de Divinópolis virou palco de discursos de ódio, preconceito e até incitação à violência contra a população em situação de rua. Isso é inaceitável”, lamentou.
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Câmara Municipal reage
A Câmara Municipal divulgou nota oficial classificando as falas como “inaceitáveis, repugnantes” bem como, “incompatíveis com os valores de uma sociedade democrática”. O Legislativo reafirmou compromisso com os direitos humanos. Além disso, pediu às autoridades que apurem o caso.
“Rejeitamos, com toda a firmeza, qualquer incentivo à violência, à intimidação ou à expulsão sumária de pessoas em situação de vulnerabilidade. A retórica de coerção que transforme ações de acolhimento é grave e desumaniza cidadãos que merecem atendimento, políticas públicas e respeito.”, consta na nota.
- Não compactua com quaisquer práticas, que atentem contra a integridade física, a segurança ou a dignidade das pessoas;
- Repudia veementemente as declarações, que incentivam ou enaltecem a violência e a intimidação;
- Solicita às autoridades competentes a apuração dos fatos e a tomada das providências legais cabíveis, inclusive quanto a eventuais responsabilizações penais e administrativas;
- Reafirma o compromisso desta Casa com a proteção dos direitos humanos, com o atendimento digno às pessoas em situação de rua e com a promoção de políticas públicas, que priorizem a assistência, a reinserção, assim como a proteção social.
Moradores de rua de outras cidades
A declaração vem após denúncias feitas pelo vereador Matheus Dias e referendadas pelo prefeito Gleidson Azevedo (Novo). Ambos acusam cidades vizinhas de colocar pessoas em situação de rua dentro de ônibus e mandarem para Divinópolis. Na lista, citaram Pará de Minas, Carmo do Cajuru, Nova Serrana, Pedra do Indaiá, assim como Lagoa da Prata. Os municípios negam.
A prefeitura realizou na quarta (3/9) uma ação na Praça do Santuário de acolhimento de pessoas em situação de rua. A iniciativa ocorreu no dia seguinte em que a polícia prendeu um homem com 25 pedras de crack. Ao falar sobre o assunto, a secretária de assistência social Juliana Coelho disse que é preciso diferenciar a vulnerabilidade com criminalidade.
“É importante dizer o que é a população de rua e o que são usuários de drogas. Ontem mesmo uma pessoa foi presa por tráfico de drogas, aqui e em menos de 24 horas essa pessoa já foi solta e já está nas ruas. Então, até que ponto a gente está aí mantendo o crime nas ruas?”
“O carrapateiro atrai tudo”
As falas do pastor seguiram a mesma linha. Disse que os prefeitos mandam as pessoas em situação de rua para Divinópolis por se tratar da cidade polo do Centro-Oeste. “Os prefeitos enchem os carros e jogam aqui na cidade”, declarou.
Lembrando a época em que cobravam pedágio na região no bairro Niterói para atravessar pontes, ele disse que chegou a se aproximar de pessoas vulneráveis com alimentação para leva-las para outros municípios. “Levei carro cheio para Oliveira”, afirmou, citando outras cidades: Nova Serrana, Pará de Minas. “Por que aquele carrapateiro atrai tudo que é desxxxxx de ser humano”.
A reportagem fez contato com o Pastor Wilson por meio do telefone do projeto Quero Viver, contudo, não conseguiu falar diretamente com ele. O espaço segue aberto.



