Por um futuro que não dependa de promessas políticas

Como é viver esperando pelo cumprimento de uma promessa?

E no caso desta promessa ser uma obra pública onde você mora? Como uma creche, uma escola, a instalação de rede de esgoto, as luzes da rua no seu bairro, uma torre de celular, um hospital, a ampliação da rodovia ou até mesmo um aeroporto.

Nós conhecemos muito bem este sentimento…

Dona Altiva, por exemplo. Ela mora na cidade de Araújos, no interior de MG. Ela espera pela pavimentação da estrada que conecta Araújos à rodovia federal mais próxima há décadas. Altiva provavelmente já perdeu as esperanças, mas seus filhos ainda não. Um deles é motorista de caminhão, uma rodovia pavimentada representaria mais negócios e mais renda para ele.

Fernanda é outro exemplo. Ela mora no bairro de Jardinópolis, na cidade de Divinópolis. Fernanda mudou-se para o novo bairro com a expectativa de uma moradia melhor, uma vida melhor. Fernanda jamais imaginava que ficaria esperando mais de 13 anos pela rede de esgoto (e ela ainda está esperando).

O que Altiva e Fernanda têm em comum? Frustração, descrença, desesperança. Elas querem saber: Essas obras, algum dia, serão realizadas?

A Realidade

O fato é que ninguém acredita mais em promessas políticas. Mas, mesmo para os políticos mais sinceros, porque é tão difícil responder a essa pergunta? Há pelo menos três razões que explicam isso:

  1. No Brasil, o dinheiro está concentrado no governo federal, e as cidades dependem do apoio estadual e federal para realização de obras importantes.
  2. Todo político quer ter seu nome em uma obra pública de grande visibilidade. Mas como os governos mudam a cada ciclo eleitoral, ou seja, a cada dois anos, os políticos mudam, as prioridades também mudam.
  3. No Brasil, existem mais de cinco mil municípios, mais de 500 parlamentares federais, mais de mil deputados estaduais.

Diante disso, poderia ser fácil colocar todas essas necessidades de obras em um planejamento nacional programado? Não, esta não é uma tarefa fácil. E o resultado disso: obras que não são sequer iniciadas, e pior, inúmeras outras que são iniciadas, mas nunca concluídas. Agora pasmem com os números que vou apresentar:

Das 38.000 obras financiadas pelo governo federal, atualmente em andamento, mais de 14.000 delas estão paralisadas! [Fonte: Relatório de Auditoria do TCU ]. Isso é mais de um terço. Em termos de grana, isso representa 10 bilhões de reais já investidos em obras paralisadas, sem nenhum benefício para a população.

É como se governo desse a cada um dos 230 mil habitantes da cidade de Divinópolis o valor de 50 mil reais pra fazer, digamos, uma reforma em casa, mas uma reforma mais ou menos assim: uma bela piscina que não pode encher de água, um sistema completo de aquecimento solar, que não funciona, ou então para construção de uma estátua na porta de casa, apenas para ser observada. A situação é bem essa mesmo.

E lembre-se! Nós estamos falando apenas das obras que estão recebendo recurso federal. Se considerarmos todas as demais obras, este valor mais que duplicaria!

É certo colocar a culpa disso nos políticos? Não necessariamente. A política é essencial para definir importantes investimentos públicos, mas nem sempre os políticos estão munidos das melhores informações – ou interesses – para tomar decisões.

A boa notícia é que Inteligência Artificial está aí, não para substituir os políticos, mas para colocá-los em seu devido lugar. Ou melhor dizendo, Inteligência Artificial vai realocar o debate político, tirando-o de onde atrapalha e colocando onde possa ajudar.

O Problema

Para entender esta solução, primeiramente é preciso entender o problema. Vamos retomar o exemplo que acabamos de mencionar.

A cidade onde mora Dona Altiva, Araújos, espera pelo asfaltamento da rodovia há décadas. O que tem sido uma prioridade para a cidade, tem sido apenas uma promessa vazia de políticos estaduais e federais. E da mesma forma que Araújos tem sua obra prioritária, todas as outras cidades também têm!

E ae? De quem é a prioridade? A resposta deveria ser simples:

“Prioritária é a obra que traz mais benefícios para o maior número de pessoas”

Sendo assim, tudo bem! Se a cidade vizinha tem uma obra mais prioritária, a próxima obra passa a ser a de Araújos, certo? Infelizmente não, pois o que decide a prioridade da obra não é os benefícios que ela traz, mas sim os votos que ela rende. E é justamente aí que mora o perigo, pois enquanto a decisão se faz em cima da popularidade, algumas obras indiscutivelmente mais prioritárias ficam pra trás. Veja, por exemplo, a situação do saneamento básico. Trata-se de obra debaixo da terra, rende poucos votos. Logo, nunca é vista como prioritária, para a tristeza de Fernanda e de toda a vizinhança do bairro Jardinópolis.

Então, o que pode ser feito para que prioridade seja tratada, de fato, como prioridade?

A Solução

O primeiro passo é ter todas as necessidades de obras registradas no mesmo sistema, independentemente de ser uma obra municipal, estadual ou federal. Funcionaria como um banco de projetos, permitindo que todos eles sejam avaliados pelos mesmos parâmetros e, depois, priorizados de acordo com os benefícios que trazem para a sociedade (Nada de estádio de futebol se ainda não tem esgoto e água tratada, blz?)

Opa! Mas tem um probleminha aqui! Uma vez colocados todos estes projetos em fila, vão surgir divergências sobre a forma como eles foram priorizados. E ae?!!!…

Bingo! Isso não é problema! Na verdade, isso é ótimo!!!! Isso porque, neste novo sistema, a discussão torna-se técnica, baseada nos critérios que avaliam os benefícios de cada projeto, e não nos interesses desse ou daquele político nas próximas eleições. E tem mais! À medida que os políticos passam mais tempo debatendo os parâmetros e critérios de avaliação dos benefícios de uma obra, o sistema vai se aprimorando, e ao longo do tempo vai se alinhando cada vez mais com as necessidades da população.

Então, o que tá achando até agora? Não é simplesmente incrível?

Bem, não é tão simples. Temos um probleminha e você já deve ter percebido. Alguns usuários do sistema podem aprender como manipulá-lo para se beneficiarem, e na tentativa de “furar a fila” da prioridade, é possível que os benefícios de um projeto sejam elevados de maneira irrealista (Sempre tem um espertinho querendo furar a fila, não é mesmo?)

O desafio é: como lidamos com isso? Infelizmente, faz parte da natureza humana tentar fugir das regras ou enganar o sistema, mas é justamente aí que entra a Inteligência Artificial. É possível, e relativamente simples, desenvolver um algoritmo que reconheça quando os benefícios de um projeto estão muito acima do que seria normal para aquele tipo de projeto. Feita a detecção, o robozinho inteligente alerta um conselho de especialistas para dar uma conferida nas informações do projeto.

E ae? O que achou? Não tá na hora do Brasil aprender a planejar? Não tá na hora da gente tirar estas importantes obras públicas da política e as colocarmos na gestão? Os benefícios de um sistema integrado e inteligente como esse são inúmeros.

Tal sistema poderá até informar que não há dinheiro para determinada obra no presente momento. No entanto, não deixará a população eternamente sem uma resposta.

Enquanto isso, Altiva e Fernanda apenas querem poder planejar o futuro. Metodologia e tecnologia para transformar essa ideia em realidade já existem. Depende de nós para que isso aconteça. Altiva e Fernanda ficarão muito agradecidas.


Will Bueno

Assessor Parlamentar na Vice-Presidência do Senado Federal (Senador Antônio Anastasia), Analista de Infraestrutura do Ministério da Economia, Engenheiro Mecânico pela UFMG e Mestre em Administração Pública pela Universidade de Columbia – NY. Co-fundador do Infra2038, membro do Movimento Agora.

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Will Bueno

Will Bueno

Assessor Parlamentar na Vice-Presidência do Senado Federal (Senador Antônio Anastasia), Analista de Infraestrutura do Ministério da Economia, Engenheiro Mecânico pela UFMG e Mestre em Administração Pública pela Universidade de Columbia - NY. Co-fundador do Infra2038, membro do Movimento Agora.

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