Fogos com estampido são proibidos em Divinópolis: Especialistas alertam para graves riscos à saúde de pessoas e animais

Divinópolis
Por -18/06/2026, às 12H07junho 18th, 2026
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Semac orienta população a escolher celebrações silenciosas para proteger a fauna silvestre, pets, idosos e pessoas com autismo na cidade

As festas juninas e a Copa do Mundo costumam reunir amigos, familiares e torcedores em momentos de alegria e celebração. No entanto, a Prefeitura de Divinópolis, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Cuidado Animal (Semac), reforça a importância de comemorar com responsabilidade, respeito e consciência coletiva.

Em Divinópolis, a comercialização, o manuseio e a soltura de fogos de artifício com estampido são proibidos pela Lei Municipal nº 9.355/2024. A legislação foi criada para reduzir os impactos causados pelo excesso de ruído, protegendo pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), idosos, crianças, pessoas acamadas ou sensíveis a sons intensos, além dos animais domésticos e da fauna silvestre. O descumprimento da legislação está sujeito à aplicação de multa. No caso de pessoas jurídicas, além da penalidade financeira, poderá ocorrer a cassação do alvará de funcionamento.

O forte impacto físico e psicológico nos animais domésticos

Em primeiro lugar, vale destacar que os animais de estimação figuram entre os principais afetados pelo barulho dos fogos. Como cães e gatos possuem audição muito mais sensível que a dos seres humanos, eles sofrem frequentemente com crises de ansiedade, medo intenso, tremores, desorientação e tentativas desesperadas de fuga.

De acordo com Gabriel Dutra, médico veterinário e coordenador do curso de medicina veterinária da faculdade UNA Divinopólis, “os animais percebem sons em frequências e intensidades superiores às nossas. Portanto, o estampido desencadeia respostas intensas de medo e estresse.”. Desse modo, o especialista esclarece que o barulho gera tremores, taquicardia, salivação excessiva, vocalização e respiração ofegante nos pets.

Além disso, os animais exibem comportamento destrutivo, perda de apetite e tentativas de fuga que frequentemente provocam acidentes e ferimentos graves. Em situações extremas, o estresse dos ruídos causa crises convulsivas ou agrava doenças cardíacas preexistentes. Por fim, exposições repetidas geram ansiedade, fobias e alterações comportamentais duradouras, prejudicando gravemente a saúde dos bichos.

Os perigos do excesso de ruído para a fauna silvestre

Paralelamente aos animais de estimação, os impactos sobre a fauna silvestre causam igual preocupação na região. O ruído intenso desorienta aves durante o voo, o que provoca o abandono súbito de ninhos e separa pais e filhotes.

Igualmente, o estresse crônico aumenta o gasto energético e eleva os níveis de cortisol em mamíferos silvestres. Como consequência, esse impacto causa alterações comportamentais profundas e sérios prejuízos ao equilíbrio natural das espécies nativas. Esse cenário se torna ainda mais relevante nas áreas urbanas e periurbanas, onde as espécies convivem perto das atividades humanas. Em virtude disso, o pânico dos estampidos gera relatos constantes de colisões, acidentes severos e até mortalidade.

Medidas práticas de proteção para adotar em casa

Com o objetivo de proteger os pets, os tutores podem adotar algumas medidas práticas e simples durante as comemorações. O veterinário recomenda manter cães e gatos em ambientes seguros e fechados, além de vedar portas, janelas e cortinas para minimizar os barulhos externos. Também ajuda disponibilizar refúgios confortáveis, como caminhas ou caixas de transporte abertas, onde o animal se sinta devidamente protegido. Do mesmo modo, os tutores podem usar música ambiente ou televisão em volume moderado para mascarar os sons vindos da rua.

Por consequência, os responsáveis reduzem o risco de perda mantendo coleiras e identificações atualizadas. Além disso, recomenda-se evitar deixar os animais sozinhos quando possível e buscar orientação profissional de um médico-veterinário para tratar os casos de animais muito sensíveis.

A sobrecarga sensorial e o sofrimento no autismo

Além do prejuízo aos animais, o excesso de ruído afeta gravemente a integridade da saúde humana. O Prof. Dr. Michael Andrade, do Laboratório de Cronobiologia, Neurociências e Psicologia do sono do Departamento de Psicologia da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) Divinópolis, explica que a hipersensibilidade auditiva atinge entre 18% e 40% das crianças autistas. Por esse motivo, esses indivíduos enfrentam grande dificuldade para filtrar estímulos irrelevantes do ambiente.

Do ponto de vista neurobiológico, sons intensos e imprevisíveis ativam o sistema auditivo e recrutam simultaneamente regiões cerebrais que processam a atenção, as emoções e o significado dos estímulos. Conforme mostram evidências de neuroimagem, pessoas com hiperresponsividade sensorial exibem maior ativação de circuitos de saliência e menor regulação pré-frontal.

Dessa forma, o cérebro interpreta o som como algo altamente relevante e potencialmente ameaçador. Essa sobrecarga sensorial engatilha crises de ansiedade, choro intenso, fugas desesperadas, agitação psicomotora e episódios conhecidos como meltdowns, que representam respostas involuntárias do sistema nervoso. Eventualmente, o medo e a hiperexcitação persistem por horas, prejudicando gravemente o sono e a rotina de grupos vulneráveis.

Os riscos à saúde em hospitais e casas de repouso

Paralelamente ao autismo, o neurocientista adverte que a recuperação de doenças depende diretamente de um ambiente favorável ao repouso e à estabilidade emocional. Sons inesperados ativam sistemas cerebrais de vigilância, liberam hormônios do estresse, como adrenalina e cortisol, e elevam a frequência cardíaca e a pressão arterial.

Em pacientes hospitalizados, recém-nascidos, idosos com demência e pessoas em cuidados paliativos, essa ativação piora a ansiedade, a agitação e o desconforto físico. Portanto, aquilo que para muitos representa apenas alguns segundos de barulho constitui uma experiência de intenso sofrimento.

Como o sono regula de forma essencial os sistemas imunológico, metabólico e cerebral, a interrupção do descanso retarda os processos biológicos de recuperação. Assim sendo, a soltura de fogos perto dessas instituições gera prejuízos severos e imediatos aos pacientes em tratamento.

Conscientização e alternativas para uma cidade inclusiva

Por isso, a substituição por fogos de baixo ruído surge como uma importante e urgente medida de saúde pública para o município. Essa alternativa inovadora preserva perfeitamente o componente visual e as tradições culturais, mas reduz drasticamente os impactos negativos sobre indivíduos vulneráveis.

Como as pessoas autistas possuem menor tolerância a estímulos abruptos, a adoção de fogos silenciosos funciona como uma estratégia preventiva simples, inclusiva e baseada em evidências científicas. Ademais, a Semac destaca que existem outras opções viáveis para celebrar datas comemorativas, como apresentações culturais, iluminação temática e formas silenciosas de manifestação festiva.

Por fim, a Prefeitura de Divinópolis reforça que o cumprimento da Lei Municipal nº 9.355/2024 é uma responsabilidade de todos. Em suma, a conscientização coletiva da população é fundamental para promover o bem-estar animal, garantir mais inclusão às pessoas sensíveis ao ruído e construir uma cidade cada vez mais acolhedora, segura e respeitosa.