Redes sociais podem decidir uma eleição? Engajamento vira força na disputa por votos

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Por -16/08/2026, às 12H09agosto 16th, 2026
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Imagem gerada por IA

Presença digital amplia alcance de candidatos e cria novas formas de mobilização, mas especialistas alertam que engajamento não garante desempenho nas urnas

As redes sociais deixaram de funcionar apenas como ferramentas de divulgação e passaram a ocupar um espaço estratégico na política. Atualmente, candidatos e parlamentares utilizam as plataformas digitais não apenas durante as campanhas eleitorais, mas ao longo de todo o mandato para construir imagem, manter contato com eleitores, defender posicionamentos e mobilizar apoiadores.

Nesse cenário, números como seguidores, visualizações, curtidas e comentários ganharam relevância na análise da força política de uma candidatura. Entretanto, uma questão ganha espaço às vésperas das eleições de 2026: até que ponto milhões de seguidores e altos índices de engajamento conseguem, de fato, se transformar em votos?

Exemplos em Minas Gerais ajudam a dimensionar essa força. Há políticos que construíram parte significativa da projeção pública por meio das redes e conseguiram avançar eleitoralmente. Ao mesmo tempo, a disputa deste ano apresenta candidaturas que chegam à política com grandes audiências digitais, mas sem experiência anterior em cargos eletivos.

Para especialistas ouvidos pelo PORTAL GERAIS, as redes podem oferecer uma vantagem importante, sobretudo para tornar um candidato conhecido. Contudo, o desempenho eleitoral depende de outros fatores e também muda conforme o tipo de eleição.

Redes sociais mudam caminho até o eleitor

O analista político Antônio Faraco explica que as plataformas reduziram barreiras que, anteriormente, dificultavam a construção da popularidade de um candidato. Afinal, alcançar um grande público exigia maior dependência dos meios tradicionais de comunicação, das estruturas partidárias e das articulações políticas.

“As redes sociais mudaram bastante as campanhas porque facilitaram algo que antes custava muito tempo e dinheiro: tornar um candidato conhecido e manter contato frequente com o eleitor. Elas também permitem uma comunicação mais pessoal e favorecem conteúdos capazes de mobilizar emoções e reforçar identidades políticas. Isso tem muito valor eleitoral.”

No entanto, Faraco ressalta que audiência não representa necessariamente voto. Uma pessoa pode seguir um candidato, assistir aos vídeos ou compartilhar publicações sem necessariamente escolhê-lo na urna.

“A dificuldade está na passagem da audiência para o voto. Seguir alguém, compartilhar um vídeo ou concordar com uma postagem não significa necessariamente escolher aquela pessoa na urna. Além disso, uma audiência digital pode estar espalhada pelo país e não coincidir com o eleitorado no qual o candidato está concorrendo.”

Portanto, segundo o analista, o desafio consiste em transformar a relação construída no ambiente virtual em confiança suficiente para influenciar a decisão eleitoral.

Milhões de seguidores mostram dimensão do alcance digital

Alguns números ajudam a demonstrar o tamanho desse fenômeno. Cleitinho Azevedo (Republicanos), por exemplo, acumula cerca de 4,5 milhões de seguidores no Instagram. Conforme as métricas levantadas para a reportagem, as postagens analisadas no último mês registraram média de 577.150 visualizações, 71.657 curtidas e 6.765 comentários.

A trajetória eleitoral do parlamentar também acompanhou o crescimento de sua projeção pública. Cleitinho entrou na política eleitoral em 2016, quando conquistou uma cadeira na Câmara Municipal de Divinópolis. Em 2018, elegeu-se deputado estadual com mais de 115 mil votos. Posteriormente, em 2022, chegou ao Senado com mais de 4 milhões de votos.]]

Nikolas Ferreira supera Cleitinho Azevedo e lidera pesquisa para o governo de Minas Gerais.(FOTO: Reprodução/Câmara dos Deputados/Gladyston Rodrigues)
Nikolas Ferreira e Cleitinho Azevedo (Fotos: Deputados/Gladyston Rodrigues)

Outro exemplo da dimensão alcançada pela política nas redes aparece no perfil de Nikolas Ferreira (PL), candidato à reeleição como deputado federal. Com cerca de 22 milhões de seguidores no Instagram, o parlamentar registra em suas métricas do último mês, média de 10,68 milhões de visualizações, 1,94 milhão de curtidas e 133 mil comentários.

Nikolas já mantinha forte presença digital antes de conquistar o primeiro mandato. Em 2020, elegeu-se vereador em Belo Horizonte como o segundo candidato mais votado na história da Câmara Municipal com 29.388 votos. Posteriormente, em 2022, conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados com 1,49 milhão de votos.

Os números, entretanto, funcionam como exemplos da dimensão do alcance digital e não permitem estabelecer, isoladamente, uma relação direta entre seguidores e votos.

Eleição proporcional e majoritária apresentam desafios diferentes

Para o cientista político Malco Camargos, as redes já ocupam um papel fundamental nas eleições. Contudo, a capacidade de transformar esse desempenho em vitória depende, entre outros aspectos, do cargo em disputa.

“As redes sociais são fundamentais, não só nessa eleição, mas já há um bom tempo. A questão é: é possível eleger apenas com o bom desempenho da rede?”

Na avaliação do cientista político, existe uma diferença importante entre uma candidatura para deputado, definida pelo sistema proporcional, e uma disputa majoritária, como ocorre para governador.

“Isto é possível em uma eleição proporcional. Em uma eleição majoritária, o candidato precisa, além de um bom desempenho nas redes, também uma boa relação com os veículos de comunicação e sem esquecer que a mobilização e a campanha de rua também importam.”

Assim, uma grande audiência pode funcionar como ponto de partida. Entretanto, para Camargos, uma candidatura majoritária precisa alcançar também públicos que estão fora da bolha digital construída pelo próprio candidato.

“Não basta estar nas redes, tem que estar também na televisão, no rádio, nos blogs, nos podcasts e estar também nas ruas junto com os eleitores, pois só assim se alcança 50% dos votos mais 1.”

Presença digital pode dar vantagem na largada

Ao analisar o peso das redes em uma disputa pelo Governo de Minas, Camargos considera uma presença digital consolidada uma condição favorável para iniciar a corrida eleitoral, mas ressalta que isso não determina o resultado.

Segundo o cientista político, chegar à vitória também depende da penetração em outros meios de comunicação, da mobilização nas ruas, das propostas apresentadas, dos apoios construídos ao redor da candidatura e da capacidade de apresentar um projeto para o Estado.

Dessa maneira, estar à frente dos adversários nas redes representa uma vantagem, mas não constitui, isoladamente, sinal de vitória.

Faraco segue uma linha semelhante ao avaliar candidaturas que já demonstraram capacidade de transformar popularidade digital em votos.

“No caso de Cleitinho, sim, porque sua força nas redes já passou pelo teste das urnas. Ele construiu boa parte de sua imagem pública com uma comunicação direta, simples e muito personalizada e conseguiu transformar essa notoriedade em sucessivas vitórias eleitorais.”

Entretanto, o analista pondera que uma eleição para governador aumenta o grau de exposição e cobrança.

“A dúvida começa quando a disputa pelo governo ganha outra intensidade. Uma campanha estadual amplia a exposição, aumenta a cobrança sobre propostas e obriga o candidato a demonstrar domínio de problemas muito variados de Minas e capacidade de gestão.”

Redes Sociais / @anaelisast

Influenciadores chegam às urnas com público já formado

Por outro lado, as eleições de 2026 também ajudam a observar o movimento inverso: pessoas que primeiro conquistaram audiência na internet e, posteriormente, entraram em uma disputa eleitoral.

É o caso da petista Ana Elisa, candidata a deputada federal. Sem experiência anterior em cargos eletivos, a influenciadora possui cerca de 1,7 milhão de seguidores no Instagram e ficou conhecida por vídeos de opinião e debates relacionados, entre outros assuntos, à igualdade de gênero, raça e questões econômicas.

Nas métricas, o perfil registra média superior a 270 mil visualizações mensais e 43.221 curtidas. Dessa forma, ela inicia a campanha com uma audiência que candidatos estreantes tradicionalmente precisam construir durante o próprio processo eleitoral.

Para Camargos, o sistema proporcional torna esse tipo de capital digital especialmente relevante.

“O caso da Ana Elisa, como ela é candidata numa eleição proporcional, os seus seguidores podem representar o número de votos necessários para vencer este pleito.”

Ele ressalta, contudo, que a situação seria diferente em uma eleição majoritária. Na disputa proporcional, segundo Camargos, manter um alto nível de engajamento digital pode contribuir para que uma candidatura alcance uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Seguidores podem estar fora do eleitorado

Faraco chama atenção para outro elemento: o local onde estão os seguidores. Uma audiência de milhões de pessoas pode incluir usuários de diferentes estados e até de outros países. Para uma candidatura a deputado federal por Minas Gerais, porém, somente os votos do eleitorado mineiro entram naquela disputa.

“Uma candidatura a deputada federal precisa obter votos em Minas Gerais, enquanto seguidores de redes sociais podem estar espalhados pelo país e ter graus muito diferentes de envolvimento político.”

Além disso, outros componentes entram no cálculo eleitoral.

“Também pesa a inserção da candidatura dentro da federação partidária, o apoio recebido na campanha e sua capacidade de chegar a eleitores que não fazem parte do público que já a acompanha na internet.”

Por isso, segundo Faraco, candidaturas oriundas diretamente das redes oferecem uma oportunidade de observar até onde a notoriedade digital consegue chegar quando confrontada com o voto.

Redes criam um novo caminho para entrar na política

Apesar do crescimento dos influenciadores nas eleições, Faraco não define o fenômeno como o surgimento de um perfil completamente novo de candidato. Para ele, popularidade e capacidade de comunicação sempre tiveram peso nas urnas. O que mudou foi a maneira de construir esse reconhecimento.

“Eu não diria que surgiu um novo perfil de candidato, porque popularidade e boa comunicação sempre tiveram relevância em eleições. O que mudou foi o caminho para chegar competitivo a uma eleição.”

Antes, segundo o analista, partidos, mandatos, movimentos sociais, igrejas, associações e lideranças locais funcionavam como caminhos importantes para a construção de projeção política. Agora, as redes permitem que uma pessoa chegue à primeira candidatura já acompanhada por milhares ou milhões de potenciais eleitores.

“Hoje, alguém pode entrar na política já trazendo uma audiência própria construída na internet. Isso encurta bastante o caminho para alcançar notoriedade, mas não elimina a importância dos partidos.”

Engajamento não substitui estrutura política

Mesmo com a expansão das campanhas digitais, elementos tradicionais continuam relevantes. Faraco destaca que os partidos oferecem recursos, organização, presença nos municípios, apoio de lideranças e acesso à propaganda eleitoral.

Além disso, nas eleições proporcionais, o desempenho individual não determina sozinho a conquista de uma vaga. O resultado também depende da votação obtida pelo partido ou pela federação.

“As redes acrescentaram uma nova fonte de capital político, mas continuam convivendo com mecanismos bastante tradicionais da competição eleitoral brasileira.”

Assim, seguidores, curtidas, comentários e visualizações se tornaram indicadores importantes da capacidade de comunicação e mobilização de uma candidatura. No entanto, não existe uma conversão automática entre alcance digital e resultado eleitoral.

Nas eleições de 2026, portanto, as urnas também funcionarão como um teste dessa relação. De um lado, candidatos com trajetórias políticas consolidadas utilizam milhões de seguidores para ampliar o contato direto com o eleitor. Do outro, influenciadores chegam à disputa já carregando uma audiência construída fora da política institucional. O resultado ajudará a mostrar até que ponto a influência conquistada nas telas consegue atravessar o ambiente digital e chegar às urnas.