Saúde mental LGBTQIAPN+: UEMG Divinópolis cria espaço de acolhimento e troca de vivências

DivinópolisGerais
Por -30/09/2026, às 18H19setembro 30th, 2026

Projeto reúne estudantes e comunidade externa para compartilhar experiências, fortalecer vínculos e discutir os impactos do preconceito na saúde mental

A saúde mental da população LGBTQIAPN+ envolve muito mais do que o acesso a atendimento psicológico. Para entender esse cenário, também é necessário observar as relações familiares, sociais e profissionais que fazem parte da vida dessas pessoas.

Em Divinópolis, a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) mantém, desde 2024, o Grupo de Trocas de Vivências LGBTQIAPN+. A iniciativa reúne estudantes e integrantes da comunidade externa em encontros voltados à escuta, ao acolhimento e à construção de vínculos.

O projeto não funciona como terapia em grupo. Entretanto, as conversas podem produzir efeitos terapêuticos ao permitir que os participantes compartilhem experiências, reconheçam situações semelhantes e encontrem um espaço seguro para falar sobre questões que muitas vezes permanecem silenciadas.

A reportagem integra uma série especial que marca o Setembro Amarelo. A ideia é gerar reflexoes, quebrar tabus e falar abertamente sobre saúde mental.

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Saúde mental também passa por pertencimento

A professora de Psicologia da UEMG e coordenadora do projeto, Marina Dantas, explica que o grupo surgiu como uma possibilidade de acolhimento para estudantes e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+.

Além disso, muitos estudantes chegam à universidade sem uma rede de apoio consolidada. Por isso, encontrar pessoas com experiências semelhantes pode contribuir para a construção de vínculos.

Os encontros abordam temas que aparecem a partir das próprias vivências dos participantes, como religião, preconceito, homofobia dentro de casa, violência e questões relacionadas à identidade e à sexualidade.

É um dispositivo importante no enfrentamento de diversas vulnerabilizações. Elas não são vulneráveis somente por existir e pela sua condição de ser e estar no mundo, mas é justamente por uma diversidade de preconceitos, violências reiteradas que acontecem com essa população que essa demanda surge e esses espaços se tornam tão importantes.”

O projeto acadêmico também aponta que o GTV busca fortalecer vínculos entre estudantes e comunidade externa e criar um ambiente seguro para pessoas de diferentes idades, gêneros e sexualidades.

Dessa maneira, a proposta relaciona saúde mental e pertencimento. Afinal, ter um espaço para falar e ser ouvido também pode ajudar a enfrentar situações de isolamento e rejeição.

Preconceito pode afetar a autoestima

O psicólogo Nilmar Silva, que atua com a população LGBTQIAPN+, explica que a autoestima não se constrói de maneira isolada. Segundo ele, as relações sociais têm papel importante na forma como uma pessoa constrói a própria identidade e a percepção sobre si mesma.

“A nossa autoestima.é uma construção que se dá no processo de encontro com o outro, tanto de afirmação quanto de negação.”

Na sequência, Nilmar destaca que o reconhecimento social também interfere nesse processo.

“Então, embora o termo é autoestima, que diz do auto, do self, do si mesmo, essa construção da nossa autoimagem, ela só se dá através das relações sociais.”

Para o psicólogo, situações de rejeição e de não reconhecimento podem dificultar a construção de uma autoimagem positiva.

Nilmar atua clinicamente com a população LGBTQIAPN+. Além disso, é integrante do Comitê Técnico de Saúde Integral LGBT de Minas Gerais e cofundador e vice-presidente do coletivo Somos Gerais, de Divinópolis e região.

Pessoas trans enfrentam barreiras sociais específicas

Dentro da população LGBTQIAPN+, Nilmar chama atenção para a realidade de travestis e mulheres trans.

Segundo o psicólogo, parte dessa população enfrenta rejeição familiar ainda na adolescência. Quando isso acontece, algumas pessoas precisam buscar abrigo fora de casa e podem enfrentar dificuldades para permanecer na escola e acessar o mercado formal de trabalho.

“Então nós temos um problema que é o seguinte primeiramente, que pessoas trans e travestis muitas vezes são expulsas de casa quando ainda são adolescentes.”

Nilmar também relaciona essa realidade à evasão escolar.

“A evasão escolar é muito grande para essa população. Muitas delas não chegam a completar o ensino fundamental. Isso diminui também todas as possibilidades. A maioria das possibilidades em termos de trabalhos formais.”

Nesse contexto, o psicólogo afirma que a prostituição pode aparecer como uma alternativa de sobrevivência para algumas pessoas, especialmente diante da falta de outras oportunidades.

O ponto central, segundo ele, não é tratar a prostituição como um problema moral. A questão está nas circunstâncias sociais que podem fazer com que ela se torne a única alternativa disponível.

“O problema é quando a prostituição se torna uma opção única para as pessoas por causa de questões de vulnerabilidades sociais.”

Exclusão social também impacta a saúde mental

Para Nilmar, a falta de reconhecimento da identidade de gênero pode gerar consequências emocionais.

“Os efeitos são da exclusão de pessoas que vão sofrer por causa de um processo de não reconhecimento delas. Elas vão viver, de uma certa forma, em alguns momentos, uma certa invisibilidade.”

Ele também cita situações em que pessoas trans e travestis deixam de ocupar determinados espaços sociais durante o dia por causa da falta de aceitação.

“Essas pessoas às vezes ficam dentro de casa durante o dia, porque socialmente elas não são tão aceitas.”

Na avaliação do psicólogo, esse conjunto de fatores ajuda a compreender a presença de problemas relacionados à saúde mental nessa população.

“É por isso que a gente tem índices alarmantes em termos de transtornos de ansiedade e depressão na população LGBTQIAPN+, especialmente na população trans e travesti, porque todos esses elementos contribuem significativamente para que essas pessoas não se sintam bem.”

Violência contra população LGBTQIAPN+ aparece nos dados

O cenário de violência ajuda a contextualizar os impactos sociais que podem atravessar a saúde mental da população LGBTQIAPN+.

De acordo com o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que reúne dados de 2025, Minas Gerais registrou 31 homicídios dolosos de pessoas LGBTQIAPN+, contra 20 no ano anterior. O aumento foi de 55%. O estado também teve 662 registros de lesão corporal dolosa, ante 537 em 2024, crescimento de 23,3%.

Os dados, entretanto, não representam toda a violência vivenciada pela população. O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta para a precariedade dos registros de violência contra pessoas LGBT e para a possibilidade de subnotificação.

Por isso, os números ajudam a dimensionar o contexto, mas não permitem medir sozinhos o impacto psicológico de cada experiência.

Divulgação

Grupo da UEMG oferece espaço para falar sobre essas experiências

É nesse ponto que o Grupo de Trocas de Vivências LGBTQIAPN+ atua.

A proposta é oferecer um espaço em que os participantes possam falar sobre experiências pessoais e ouvir outras pessoas que passaram por situações semelhantes. Assim, o grupo pode contribuir para a criação de uma rede de apoio.

A estudante de Psicologia Larissa Endi Magalhães Menezes, que participa do projeto, explica que os temas compartilhados podem produzir efeitos terapêuticos justamente porque permitem identificação entre os participantes.

“Quando esses assuntos surgem no grupo, acaba trazendo um efeito muito terapêutico, pois as pessoas vão ver ali vivências que elas já passaram ou então vão de alguma forma se solidarizar com aquela pessoa e ter uma oportunidade de falar sobre também.”

As atividades também incluem dinâmicas, jogos teatrais e expressões artísticas. O objetivo é estimular a participação e permitir que diferentes questões sejam trabalhadas a partir das experiências apresentadas pelo grupo.

As inscrições para quem deseja participar do grupo são realizadas através de um formulário que é disponibilizado no início do todo semestre letivo da unidade.

Quando o acolhimento precisa virar atendimento individual

Apesar da importância da troca coletiva, o projeto também reconhece situações que exigem acompanhamento individual.

Quando a equipe identifica que uma pessoa enfrenta uma situação mais delicada, o participante pode ser encaminhado ao serviço-escola de Psicologia da UEMG.

A partir disso, pode receber atendimento de plantão psicológico ou acompanhamento psicoterapêutico, conforme a necessidade.

Assim, o GTV não substitui a psicoterapia. Na prática, ele funciona como um espaço de acolhimento, escuta e construção de vínculos, enquanto o atendimento individual oferece acompanhamento específico quando necessário.

Saúde mental LGBTQIAPN+ precisa de espaços de escuta

A experiência da UEMG mostra que discutir saúde mental LGBTQIAPN+ também significa discutir pertencimento, reconhecimento e relações sociais.

Para pessoas que enfrentam rejeição familiar, preconceito ou isolamento, encontrar um espaço em que possam falar sobre as próprias experiências pode representar uma forma de cuidado.

Por isso, o cuidado em saúde mental não se limita ao consultório. Ele também passa pela possibilidade de conviver, criar vínculos, ser reconhecido e encontrar pessoas dispostas a ouvir.

Em Divinópolis, o Grupo de Trocas de Vivências LGBTQIAPN+ aposta justamente nessa construção coletiva. A iniciativa reúne universidade e comunidade para transformar a escuta em uma ferramenta de acolhimento e promoção da saúde mental.