Psicólogos explicam como a construção da masculinidade afeta o cuidado emocional e apontam sinais de sofrimento que podem passar despercebidos
Por Heloisa De Tofoli
Ele perdeu o emprego, mas disse para todo mundo que estava bem. Ele terminou um relacionamento longo e passou a descontar as frustrações na bebida. Histórias como essas continuam a se repetir por um motivo: muitos homens ainda encontram dificuldades para lidar com a própria saúde mental.
Para entender esse tabu e identificar situações de sofrimento psíquico no grupo masculino, o PORTAL GERAIS conversou com especialistas sobre o assunto.
A reportagem integra uma série especial que marca o Setembro Amarelo. A ideia é gerar reflexoes, quebrar tabus e falar abertamente sobre saúde mental.
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A dificuldade de falar sobre emoções
Durante o mês de setembro, campanhas ampliam a conscientização sobre saúde mental. Entretanto, quando o assunto envolve os homens, a discussão ainda encontra barreiras. Entre elas, está a dificuldade de reconhecer emoções, procurar ajuda e até mesmo admitir que existe algum problema.
De acordo com a psicóloga, Flávia Campos, que é servidora pública no Centro Especializado em Assistência Social (Creas) de Divinópolis e também professora de Psicologia no Centro Universitário Una do município, pensar na saúde mental masculina ainda envolve um tabu. Para ela, a situação está relacionada a um contexto histórico e cultural que restringe a vulnerabilidade dos homens.
“A gente vem de um contexto histórico e cultural de que um homem não tem problemas, que ele é o provedor, o protetor, o forte, que o homem não chora, que o homem não adoece. Então, quando a gente fala de saúde mental, as pessoas já dão uma assustada achando que ou é você louco, ou você não precisa de cuidar da saúde mental. E a saúde masculina mais ainda.”
Além disso, segundo Flávia, essa construção também interfere na procura por atendimento. Afinal, se o homem aprende desde cedo que precisa demonstrar força, ele pode deixar de buscar ajuda mesmo quando enfrenta sofrimento.
Receba a notícia no seu celular. Participe do nosso grupo de WhatsAppEducação emocional começa na infância
Essa dificuldade, porém, não surge apenas na vida adulta. Pelo contrário, ela começa ainda na infância, quando meninos e meninas recebem diferentes estímulos para lidar com as próprias emoções.
Nesse sentido, o psicólogo e professor de Psicologia na Anhanguera, Lucas Tavares, explica que muitos homens aprendem desde cedo a invalidar sentimentos considerados negativos, como tristeza, medo e raiva.
“Quando uma criança dá birra, os pais já repreendem. Então, a criança não pode dar birra, que é uma expressão da raiva da infância. Homem não pode sentir medo.”
A psicóloga Flávia explica que enquanto a sensibilidade costuma aparecer como uma característica feminina, os homens recebem maior incentivo para demonstrar força e objetividade.
“Mulher é a parte sensível, homem é a parte objetiva. Então, exclui-se a objetividade na mulher e a sensibilidade, no homem. Então, o homem não pode chorar, ele não pode sentir, ele não pode ficar triste.”
Além disso, Flávia destaca que a sociedade costuma aceitar algumas emoções nos homens mais do que outras. A raiva e a agressividade, por exemplo, podem aparecer como comportamentos tolerados, enquanto o choro e a tristeza ainda são vistos como sinais de fraqueza.
“Agora, ele pode ficar bravo, ele pode se irritar, né, ele pode bater, ele pode agredir. Então, é um reflexo dessa criação, né, do emocional.”
Menos diagnósticos não significam menos sofrimento
Outro ponto importante aparece nos dados sobre depressão. De acordo com Flávia, os registros de diagnóstico de depressão em homens são maiores que em mulheres, porém, isso não significa que os homens não enfrentem o transtorno.
Para Flávia, justamente a dificuldade masculina de procurar atendimento ajuda a explicar essa diferença. Afinal, para receber um diagnóstico, o paciente precisa chegar até um profissional de saúde.
“Não é que não exista, só que não é diagnosticado”, destaca a psicológa.
Dessa forma, a ausência de diagnóstico pode esconder parte do sofrimento vivido pelos homens. Além disso, a própria maneira de expressar os sintomas pode dificultar a identificação do problema.
Segundo a psicóloga, a depressão não aparece necessariamente apenas por meio de tristeza ou choro. Nos homens, por exemplo, irritabilidade, agressividade e isolamento também podem indicar sofrimento psíquico.
“Às vezes, a agressividade, o uso de bebida alcoólica é um sinal de depressão e às vezes negligenciado porque, principalmente no homem, se o homem está produzindo, se o homem está mantendo, sendo forte, ninguém vai perceber.”
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Álcool pode virar uma forma de esconder o sofrimento
Além da dificuldade para falar sobre sentimentos, o consumo de álcool e outras substâncias também aparece como uma forma de fuga diante de problemas emocionais.
Flávia explica que, dentro da própria cultura masculina, o consumo de bebida muitas vezes recebe maior aceitação social. Assim, alguns homens podem recorrer ao álcool para evitar o contato com aquilo que provoca sofrimento.
“Vícios, de uma forma geral, são escapes, são válvulas de escape para a gente poder lidar com conteúdos internos, com tristezas, com fragilidades, com dores emocionais que a gente não consegue expor.”
Segundo ela, o problema aparece quando a substância passa a funcionar como uma maneira de mascarar o sofrimento.
Receba a notícia no seu celular. Participe do nosso grupo de WhatsAppComo identificar sinais de sofrimento
Embora nem sempre o homem demonstre tristeza, alguns comportamentos podem indicar que ele precisa de ajuda.
Entre os sinais citados por Flávia estão o afastamento de familiares e amigos, mudanças repentinas de comportamento, conflitos frequentes, crises de agressividade, irritabilidade e início ou aumento do consumo de álcool e outras substâncias.
Além disso, a psicóloga destaca alterações na rotina profissional e pessoal.
“Os principais sinais de alerta de que o homem precisa de apoio, de ajuda, a gente começa a perceber um afastamento daquelas pessoas próximas, seja o grupo familiar ou de amigos ou no trabalho.”
Da mesma forma, abandonar projetos, mudar repentinamente de emprego ou apresentar comportamentos que não faziam parte da rotina também pode indicar alguma mudança emocional.
Segundo o psicólogo Lucas, dificuldades para dormir e perda do apetite também são sinais de sofrimento psíquico. No entanto, raramente o homem falará o que está sentindo. Por isso, segundo os especialistas, não é necessário esperar que o homem demonstre tristeza para perceber que existe um problema.
“Uma pessoa que ela tem se isolado, tem tido alterações de sono, alterações de apetite, tem estado mais pra baixo, mais deprimida ao longo dos dias. Mas raramente esse homem ele vai vir dizendo com essas palavras.”
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Como ajudar um homem em sofrimento
Diante desses sinais, a rede de apoio pode ter um papel importante. Entretanto, a abordagem precisa considerar a dificuldade que muitos homens têm para falar sobre o que sentem.
Para Flávia, o primeiro passo consiste em incentivar a busca por ajuda profissional ou por alguém de confiança.
“Você não precisa anunciar aos sete cantos que você está procurando ajuda. Hoje a gente tem profissionais, tem unidade de saúde, tem serviços públicos, tem serviços privados.”
Além disso, ela destaca que o homem pode começar pela própria rede de apoio.
Receba a notícia no seu celular. Participe do nosso grupo de WhatsApp“Procure, peça ajuda a uma rede de apoio, alguém de confiança, ou procure um profissional de confiança.”
Cuidado precisa começar antes do sofrimento se agravar
O psicólogo Lucas chama atenção para a importância da prevenção. Além de reconhecer os sinais, buscar atendimento no início do sofrimento pode facilitar o cuidado com a saúde mental. No entanto, segundo Lucas Tavares, muitos homens adiam essa procura e chegam aos serviços apenas quando a situação já se agravou.
“A maioria das pessoas, a maioria dos pacientes, dos homens inclusive, eles esperam o último minuto pra buscarem ajuda.”
Para Flávia, a mudança precisa também começar na infância. Dessa forma, meninos podem aprender que expressar emoções não diminui sua masculinidade.
“A gente começar um trabalho de conscientização desde em casa mesmo com os filhos, na escola, no ambiente profissional, de que o homem pode, ele tem direito de não estar bem, de pedir ajuda, de chorar, ele tem o direito de ser frágil.”
Segundo a psicóloga, reconhecer a própria vulnerabilidade não significa perder força. Pelo contrário, permite que o homem desenvolva formas mais saudáveis de lidar com as dificuldades.
“Isso não vai tirar dele o lugar de homem, não vai tirar nenhum poder. Ninguém fica mais fraco ou mais forte.”
Assim, ampliar o debate sobre saúde mental masculina pode ajudar a reduzir o silêncio em torno do sofrimento psíquico. Além disso, reconhecer os sinais e incentivar a busca por atendimento pode facilitar o acesso ao cuidado antes que a situação se agrave.
Em Divinópolis, uma das possibilidades é procurar os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) que funciona 24 horas por dia, portas abertas. O serviço integra a rede municipal de saúde mental e atende pessoas com diferentes necessidades. Além disso, não é preciso esperar uma crise para buscar acolhimento.
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Como mostrou o PORTAL GERAIS em reportagem sobre o funcionamento dos CAPS na cidade, a pessoa pode procurar o serviço ao perceber os primeiros sinais de sofrimento, quando a equipe avalia qual modalidade de acompanhamento é mais adequada.




