Sono, humor e escola: profissionais explicam sinais de alerta, atendimento especializado e como família e atividades lúdicas ajudam no desenvolvimento de crianças e adolescentes
Por Bruna Faria e Heloisa Benicio
A saúde mental também começa na infância. É durante os primeiros anos de vida que crianças desenvolvem aspectos emocionais, psicológicos e sociais que terão influência nas etapas seguintes do crescimento. Por isso, falar sobre saúde mental exige olhar também para quem ainda está aprendendo a compreender e expressar as próprias emoções.
Dentro da série especial sobre saúde mental, a reportagem aborda os desafios do cuidado com crianças e adolescentes. Em Nova Serrana, o Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi) mostra como o acolhimento pode assumir características próprias para atender esse público, com acompanhamento profissional, atividades lúdicas e participação das famílias.
Para o médico do CAPSi, Lucas Patrick Silva Batista, a infância representa um período fundamental para o desenvolvimento.
“A base neuropsicossocial da criança, do ser humano em si, é formada principalmente durante a infância. Os estudos científicos já comprovam isso, que principalmente dos zero aos seis anos de vida é onde a criança vai ter a principal formação psicológica dela.”
Nesse sentido, o acompanhamento desde cedo pode ajudar a criança a construir segurança emocional e enfrentar as transformações que surgem ao longo do crescimento.
A reportagem integra uma série especial que marca o Setembro Amarelo. A ideia é gerar reflexões, quebrar tabus e falar abertamente sobre saúde mental.
Saúde mental precisa de atenção desde a infância
A psicóloga do CAPSi, Laísa Oliveira, também ressalta que sinais relacionados a transtornos mentais podem surgir ainda nos primeiros anos.
“Eu vejo que é muito importante, porque, se a gente for olhar, metade dos transtornos mentais começa na infância. Então, é muito importante a gente cuidar desde cedo para que a criança e o adolescente fiquem saudáveis.”
Além das próprias transformações dessa fase, crianças e adolescentes convivem hoje com novos fatores que podem afetar o bem-estar emocional. Entre eles, Laísa chama atenção para as redes sociais, o excesso de informações e as comparações.
“Ainda mais no mundo de hoje, com as redes sociais, muitas informações e muitas comparações, que fazem nossas crianças e, principalmente, nossos adolescentes adoecerem bastante.”
Ao mesmo tempo, o diretor do CAPSi, João Carlos, destaca que o sofrimento pode aparecer em diferentes ambientes. Questões familiares, dificuldades na escola e relações sociais também fazem parte desse cenário.
“São fases de desenvolvimento e transformações, tanto cognitivas como de emoções. Ao longo da vida, a criança e o adolescente passam por muitas questões emocionais”, explica.
Sinais podem aparecer em pequenas mudanças
Identificar que uma criança precisa de ajuda nem sempre é simples. Diferentemente dos adultos, ela pode não conseguir explicar claramente aquilo que sente. Por isso, mudanças aparentemente pequenas merecem atenção.
Lucas cita alterações no sono e na alimentação, irritabilidade, agitação, dificuldades de concentração e mudanças no comportamento escolar como exemplos.
“Essas alterações, às vezes, na criança são muito sutis. Às vezes é difícil para os pais perceberem, mas, a partir do momento que percebem alguma alteração de comportamento, é importante procurar avaliação psicológica, avaliação profissional.”
Além disso, professores podem contribuir para essa percepção, já que acompanham parte importante da rotina das crianças e podem identificar mudanças na interação, concentração e comportamento.
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Um atendimento pensado para crianças e adolescentes
Quando uma criança ou adolescente precisa de acompanhamento especializado, o cuidado também precisa considerar as particularidades dessa fase da vida.
No CAPSi de Nova Serrana, por exemplo, o atendimento começa com um acolhimento humanizado. Depois, a equipe avalia cada situação para definir quais cuidados o paciente necessita.
“Primeiramente, a gente faz o acolhimento humanizado aqui no equipamento. Depois desse acolhimento, passa pelas referências técnicas. Elas vão ver a necessidade de ser admitido aqui no serviço ou se faz um acompanhamento mais ambulatorial”, explica João Carlos.
A equipe desenvolve, então, um Projeto Terapêutico Singular (PTS) de acordo com as necessidades de cada paciente. Assim, o acompanhamento pode envolver profissionais de psicologia, medicina, psiquiatria, enfermagem e outras áreas.
A frequência também varia. Em situações que exigem maior atenção, a equipe pode realizar atendimentos semanais. Conforme a evolução, os encontros podem passar para quinzenais ou mensais.
Brincar e interagir também fazem parte do cuidado
O acompanhamento da saúde mental infantil não acontece apenas durante consultas. No CAPSi, atividades lúdicas ajudam a criar vínculos, estimular a interação e trabalhar questões enfrentadas pelas crianças.
A unidade oferece oficinas de horta, desenho, pintura, karaokê e culinária.
“A gente está tendo oficina de horta, desenho, pintura, karaokê, inclusive, os usuários gostam muito de karaokê e de culinária também. Isso tem ajudado muito as crianças e os adolescentes”, conta a artesã do CAPSi, Simone de Queiroz.
Além disso, os profissionais desenvolvem grupos conforme as necessidades percebidas no cotidiano. Temas como bullying, preconceito, sexualidade, questões raciais e interação social também entram nas atividades.
A unidade ainda promove grupos com os pais. Dessa forma, o cuidado busca ultrapassar o atendimento individual e alcançar também os ambientes nos quais crianças e adolescentes vivem.
Receba a notícia no seu celular. Participe do nosso grupo de WhatsAppCasos mais graves exigem acompanhamento próximo

Quando uma criança chega à unidade em situação de crise, o atendimento muda conforme a gravidade. Nesses casos, o CAPSi oferece a chamada permanência-dia.
“É quando o paciente já é mais grave, já chega aqui em crise. A gente tem que olhar ele mais de perto. O médico já olha, atende e ele fica aqui o dia todo em observação com a gente”, explica Laísa.
Durante esse período, a criança ou adolescente recebe alimentação, participa das oficinas e permanece sob acompanhamento da equipe.
Além disso, conforme explica a enfermeira Márcia Ferreira dos Santos, profissionais podem buscar o paciente em casa. A unidade conta com motorista para realizar o transporte e, ao final do dia, levar a criança novamente para a residência.
Cuidar cedo pode fazer diferença no futuro
Mais do que tratar sintomas, os profissionais defendem que cuidar da saúde mental na infância significa contribuir para um desenvolvimento mais saudável.
“O impacto seria a criança já ter um desenvolvimento mais saudável. Antes disso, ela já pode apresentar alguns sintomas. Então, eles têm que ser analisados e trabalhados”, afirma Laísa.
Lucas também destaca que a intervenção precoce pode favorecer o acompanhamento.
“Esse é o momento mais oportuno para a gente intervir, porque tudo na área da saúde que você descobre precocemente, investiga e trabalha precocemente tem mais chance de dar certo.”
O objetivo, portanto, passa também por permitir que a criança consiga desenvolver atividades cotidianas, manter vínculos, frequentar a escola e conviver com outras pessoas.
Presença da família também protege a saúde mental
Nesse processo, os profissionais destacam um cuidado que começa dentro de casa: estar presente e ouvir.
Para João Carlos, momentos de lazer e conversa ajudam pais e responsáveis a conhecerem melhor os filhos. Já Laísa destaca que perguntas simples podem abrir espaço para que crianças expressem aquilo que sentem.
“Faça perguntas simples: como foi o dia do seu filho? O que ele mais gostou? Qual é o hobby que ele gosta de fazer? Fique mais próximo dele. O mais importante para a criança e para o adolescente é se sentir acolhido, se sentir amado.”
Além disso, Lucas chama atenção para hábitos que podem contribuir para a promoção da saúde mental. O médico recomenda atividades físicas, brincadeiras, arte e momentos longe das telas.
Assim, cuidar da saúde mental infantil não significa apenas agir quando um transtorno aparece. O cuidado também envolve prevenção, diálogo, convivência e atenção às mudanças de comportamento.
E, quando surgirem sinais de sofrimento, os profissionais reforçam a importância de procurar ajuda. Afinal, oferecer acolhimento ainda na infância pode contribuir para que crianças e adolescentes atravessem as diferentes etapas do desenvolvimento com mais suporte e qualidade de vida.





