Tragédia na Zona da Mata e o planejamento urbano

EditorialMinas Gerais
Por -25/02/2026, às 06H00fevereiro 24th, 2026
tragédia em zona da mata
Foto: Imprensa MG

A tragédia na Zona da Mata não pode se tornar apenas mais um capítulo de luto coletivo.

A tragédia provocada pelos temporais na Zona da Mata, que deixou 28 mortos e 43 desaparecidos em Minas Gerais, não pode ser tratada apenas como consequência de um evento climático extremo. O desastre que atingiu Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa escancara, mais uma vez, o impacto direto da falta de planejamento urbano, da ocupação desordenada e do descaso histórico com políticas ambientais estruturantes.

Segundo o governo do Estado, 22 mortes ocorreram em Juiz de Fora e seis em Ubá. Além disso, 43 pessoas seguem desaparecidas. O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais já realizou 98 resgates com vida, enquanto mais de 550 agentes das forças de segurança e defesa civil atuam nas áreas atingidas.

Volume extremo de chuva e cidades vulneráveis

O governador Romeu Zema destacou que, em poucas horas, choveu quase o equivalente a um mês inteiro em Juiz de Fora. O vice-governador Mateus Simões acompanhou as ações emergenciais na região.

No entanto, embora o volume pluviométrico tenha sido excepcional, é preciso reconhecer que tragédias dessa magnitude não resultam apenas da força da natureza. Elas se intensificam quando encontram cidades frágeis, impermeabilizadas, com encostas ocupadas irregularmente, redes de drenagem insuficientes e áreas verdes cada vez mais reduzidas.

Já foi dito neste espaço: planejar o crescimento urbano, investir em sustentabilidade e fortalecer políticas ambientais não constituem agenda ideológica, mas sim estratégia de sobrevivência coletiva. Ignorar essa premissa custa vidas.

O custo da destruição ambiental

A destruição de áreas de preservação, o desmatamento de encostas, a canalização inadequada de cursos d’água e a expansão imobiliária sem critérios técnicos ampliam o risco de deslizamentos e enchentes. Soma-se a isso a poluição, o descarte irregular de resíduos e o pouco incentivo a projetos de infraestrutura verde.

Além disso, a ausência de planejamento integrado entre municípios, estado e União compromete a prevenção. Falta mapeamento atualizado de áreas de risco, faltam políticas habitacionais consistentes e, sobretudo, falta visão de longo prazo.

Enquanto isso, a cada novo temporal, repetem-se as imagens: casas soterradas, famílias desalojadas, desaparecidos sob a lama. Mortes transformadas em estatísticas.

Recursos emergenciais e resposta do Estado

O governo estadual anunciou a antecipação de repasses financeiros às prefeituras atingidas. Juiz de Fora deve receber cerca de R$ 38 milhões, enquanto Ubá contará com mais de R$ 8 milhões. O Estado também decretou luto oficial de três dias.

A mobilização emergencial é necessária e deve ser reconhecida. A atuação das forças de segurança, da defesa civil e da polícia científica, que montou força-tarefa para identificação das vítimas, demonstra resposta institucional diante da crise.

Entretanto, recursos emergenciais não substituem planejamento preventivo. A reconstrução precisa vir acompanhada de revisão estrutural dos planos diretores, investimentos em drenagem urbana, recuperação ambiental e políticas habitacionais que retirem famílias de áreas de risco.

Cidades sustentáveis: responsabilidade compartilhada

Municípios, estados e União precisam assumir compromisso efetivo com cidades sustentáveis. Isso significa integrar planejamento territorial, preservação ambiental, mobilidade urbana e habitação social. Significa, também, investir em educação ambiental e fortalecer a fiscalização.

Eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes. Portanto, insistir em modelos urbanos ultrapassados representa negligência. Cada encosta ocupada irregularmente, cada nascente aterrada, cada área verde suprimida amplia o potencial destrutivo das chuvas.

A tragédia na Zona da Mata não pode se tornar apenas mais um capítulo de luto coletivo. Se o poder público e a sociedade não romperem o ciclo da omissão, novas tempestades continuarão transformando vítimas e mortes em números frios.

Planejamento urbano não é luxo. Sustentabilidade não é discurso. São políticas públicas que salvam vidas.