Primeiro polo de produção de álcool de mandioca da América Latina, prédio se transformou em patrimônio histórico e hoje recebe evento após reformas
A reabertura do Teatro Municipal Usina Gravatá marca um novo capítulo para um dos patrimônios históricos mais importantes de Divinópolis. Após um período fechado para reformas, o espaço volta a receber artistas e eventos culturais, retomando a função que desempenha desde 2007. Antes disso, porém, o prédio ficou conhecido por outro motivo: foi a primeira usina de produção de álcool de mandioca da América Latina.
Construída em 1932, às margens do Rio Itapecerica, a Usina Gravatá nasceu em um período de busca por combustíveis alternativos. O empreendimento colocou Divinópolis em posição de destaque no cenário nacional ao produzir álcool combustível a partir da mandioca, tecnologia considerada inovadora para a época.
Segundo a historiadora e coordenadora do Centro de Memória Professora Batistina Corgozinho da Universidade do Estado de Minas Gerais (Cemud/UEMG), Flávia Lemos, a cidade tornou-se referência em inovação ainda na década de 1930.
“A Usina Gravatá foi pioneira como a primeira unidade de produção de álcool combustível da América do Sul. Esse feito é de extrema relevância, pois destaca o vanguardismo tecnológico de Divinópolis, indo muito além das fronteiras de Minas Gerais.”
Divinópolis tornou-se referência em inovação
De acordo com a historiadora, o projeto surgiu em meio à crise econômica e de abastecimento registrada entre as décadas de 1920 e 1930, após a Primeira Guerra Mundial. Na época, o Governo de Minas escolheu Divinópolis para sediar a unidade de produção.
A usina entrou em funcionamento em setembro de 1932. Dois anos depois, consolidou a viabilidade comercial do álcool de mandioca. Flávia destaca que registros históricos mostram uma fila de 22 veículos aguardando abastecimento na primeira bomba de distribuição do combustível instalada no Brasil.
“É fundamental valorizar esse marco, pois, muitas vezes, subestimamos a capacidade de inovação fora dos grandes centros metropolitanos. O legado da Usina Gravatá abrange dimensões intelectuais, tecnológicas e econômicas.”
Entretanto, com o avanço da produção de álcool a partir da cana-de-açúcar, considerada mais eficiente, a usina perdeu competitividade e encerrou as atividades na década de 1940. Posteriormente, o imóvel serviu como depósito e, por muitos anos, permaneceu abandonado.
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Tombamento evitou a perda do patrimônio
A história do prédio mudou em 1988. Naquele ano, a Companhia de Armazéns e Silos do Estado de Minas Gerais (Camig) anunciou a intenção de vender o terreno por meio de licitação.
Segundo Flávia Lemos, a notícia mobilizou integrantes do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, que iniciaram uma campanha para impedir a descaracterização do imóvel.
“Surgiu uma mobilização imediata para impedir a descaracterização do espaço, alertando a população sobre a importância histórica e o pioneirismo tecnológico da edificação.”
Ainda em 1988, a Prefeitura de Divinópolis tombou o prédio como patrimônio histórico, garantindo a preservação de um dos principais marcos da história industrial do município.
Teatro levou quase 20 anos para sair do papel
O tombamento já previa que o antigo complexo industrial receberia uma nova função. Como a usina não voltaria a operar, o projeto estabeleceu que o imóvel passaria por uma requalificação para se transformar em um espaço cultural.
A captação de recursos para as obras começou em 1988. No entanto, devido à complexidade da restauração, o Teatro Municipal Usina Gravatá só foi inaugurado em 29 de junho de 2007.
“Transcorreram quase vinte anos entre o tombamento e a efetiva entrega do espaço à comunidade.”
Desde então, o teatro tornou-se o principal palco público de Divinópolis, com capacidade para quase 300 espectadores e estrutura voltada à realização de espetáculos, apresentações musicais e eventos culturais.
Reabertura reforça importância da cultura
Agora, após passar por reformas, a Usina Gravatá volta a abrir as portas para artistas e produtores culturais. Para Flávia Lemos, a retomada das atividades representa mais do que a recuperação de um prédio histórico.
“A arte e a cultura são pilares essenciais para a identidade de qualquer sociedade.”
A historiadora ressalta que Divinópolis possui poucos equipamentos públicos voltados às artes e, por isso, o Teatro Municipal desempenha um papel estratégico para a produção cultural da cidade.
“O Gravatá é o único teatro municipal de Divinópolis. Ele preserva a história e, ao mesmo tempo, evidencia a necessidade de ampliar os investimentos em novos espaços culturais.”
Com a reabertura, o Teatro Municipal Usina Gravatá retoma a agenda de eventos e reforça sua dupla missão: preservar um patrimônio que marcou a história da inovação em Divinópolis e incentivar a produção cultural do município para as próximas gerações.




