Vereadores ignoram obras religiosas diversas e aprovam apenas bíblia em escolas de Divinópolis

Política
Por -06/08/2025, às 11H22agosto 6th, 2025
leitura da bíblia nas escolas
Imagem de congerdesign por Pixabay

Aprovado projeto que incentiva leitura da bíblia em escolas; Parlamentares barraram a proposta da vereadora Kell Silva para incluir livros de diferentes religiões

Os vereadores de Divinópolis rejeitaram a emenda modificativa apresentada pela vereadora Kell Silva (PV) que ampliava a proposta da Bíblia Sagrada como material paradidático nas escolas do município para incluir obras de diferentes religiões. Com isso, aprovaram, nesta terça-feira (6/8), apenas a utilização da Bíblia, sob o argumento de que 90% da população é cristã, desconsiderando minorias religiosas.

De acordo com Kell, que é professora, mestre e doutora em História, a proposta visava promover um ensino mais inclusivo, plural e culturalmente enriquecedor. A emenda previa autorizar o uso de livros como a Torá, o Alcorão, os Vedas, o Livro dos Espíritos, o Tripitaka, o Livro de Mórmon, o Guru Granth Sahib, além de textos das religiões de matriz africana e saberes dos povos originários.

“Ou é intolerância religiosa ou birra da emenda ter sido apresentada por mim. Não há outra explicação”, afirmou a vereadora.

A emenda recebeu apenas dois outros votos favoráveis, além do dela: Dr. Delano (PL) e Rodyson do Zé Milton (PV).

kell silva vereadora de divinópolis
Veradora Kell Silva (Foto: Divulgação/Câmara Divinópolis)

Debate sobre pluralidade e laicidade

Kell disse que, no plenário, apresentou exemplos práticos de como a religião pode ser analisada pelo viés cultural em sala de aula, dentro da perspectiva da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

“Fiz um discurso ontem (5/8) na tribuna mostrando como a religião é analisada pelo viés cultural em sala de aula e demonstrei na prática como outros livros religiosos são utilizados dentro da perspectiva da bncc. Mas ali, parece que há uma raiva pelo conhecimento.”

Em seguida, ela reforçou que:

“O problema nunca foi a Bíblia, o problema sempre foi ser só a Bíblia.”

Kell também criticou a postura dos colegas:

“Passaram o atestado de intolerantes. Gastam dinheiro público para se autopromoverem e promoverem suas convicções pessoais. Não representamos apenas quem votou em nós, representamos toda a cidade de Divinópolis, que justamente por ter maioria cristã precisa conhecer e respeitar a minoria, para não cair em intolerância e em crime de racismo religioso. A câmara mostrou ontem mais uma vez, que professor não serve pra nada. Uma lástima.”

Católico, o vereador Rodyson do Zé Milton (PV) defendeu a necessidade de separar a crença pessoal da função pública.

“Como a gente assume uma postura pública, a gente não pode trazer para dentro que o meu Galo é melhor do que o cruzeiro (…) Não posso levar meu pensamento pessoal para o plenário da câmara. Se sou católico, eu defendo, vou a missa e comungo, eu tenho minha crença pessoal. O estado é laico, tenho que respeitar aquelas pessoas que são evangélicas, protestantes, que não acreditam. Estou aqui pela cidade, assim como pela população, não estou aqui por eu.”

matheus dias vereador
Vereador Matheus Dias (Foto: Divulgação/Câmara Divinópolis)

Autor do projeto defende exclusividade da Bíblia em escolas de Divinópolis

Autor do projeto, o vereador Matheus Dias (Avante) pediu que os parlamentares rejeitassem a emenda, usando dados do IBGE como justificativa.

“O IBGE mostra que em Divinópolis, mais de 90% da população é cristã (…) O impacto cultural de outras religiões em Divinópolis é irrelevante. Isso demonstra o IBGE.”

Conforme ele, não haverá imposição da leitura da bíblia, apenas incentivo e valorização.

“Nosso projeto não fala em bíblia católica, fala bíblia sagrada. É a bíblia. Nosso projeto deixa isso claro, a bíblia não é um simples livro religioso, é um livro mais lido, vendido e influente. Trata questões culturais, geográficas, tem poemas, questões folclóricas, assim como contos. Estamos falando da realidade de Divinópolis. A emenda é uma tentativa de sabotagem e impedir a votação do nosso projeto de lei, como foi feito em outra ocasião, antes do recesso.”

Matheus afirmou não desrespeitar outras religiões, mas questionou:

“Não é questão de desrespeitar outras religiões. Quem me conheço sabe o respeito que tenho com todos. O que o livro de indu tem haver com a nossa realidade?”

Conforme o Censo 2022, 73,82% da população de Divinópolis se declarou católica, 31,5% evangélica, 2,27% espírita, 0,45% Umbanda e Candomblé. Já 3,8% declararam outras religiosidades e 4,24% sem religião.

Dos vereadores presentes, apenas Kell votou contra o projeto final, que agora, então, segue para sanção do prefeito Gleidson Azevedo (Novo).