Levantamento aponta “retrato” da violência contra mulheres em Divinópolis, Pará de Minas, Nova Serrana e Itaúna. Especialistas analisam machismo estrutural e fatores que sustentam agressões e feminicídios.
Os ataques brutais em São Paulo na última semana escancararam novamente a cultura de violência contra mulheres que se repete em todo o país. Levantamento realizado pelo PORTAL GERAIS revela 3.448 casos de agressões entre janeiro e outubro deste ano nas quatro maiores cidades do Centro-Oeste de Minas: Divinópolis, Nova Serrana, Itaúna e Pará de Minas. Número 10,48% superior às ocorrências registradas no mesmo período de 2024. Juntas, elas somam seis feminicídios apenas este ano, conforme dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).
Divinópolis, a maior cidade do Centro-Oeste lidera. Entre janeiro e outubro de 2025, a cidade registrou 1.566 ocorrências de agressões, contra 1.429 do mesmo período de 2024. Em todo o ano passado, o total chegou a 1.745. Além disso, quatro feminicídios ocorreram apenas neste ano.
Nova Serrana também registra aumento: 746 casos de agressões contra mulheres de janeiro a outubro de 2025, contra 666 no mesmo intervalo de 2024. Em 2025, a cidade já contabiliza um feminicídio.
Em Itaúna, os registros seguiram a mesma tendência. A cidade teve 690 casos em 2025, superando os 627 do ano anterior no mesmo período e somando um feminicídio este ano.
Já Pará de Minas confirmou 446 ocorrências de violência contra mulheres, acima das 401 registradas entre janeiro e outubro de 2024. Em 2025, também houve um feminicídio.
Violência contra mulheres em São Paulo assusta
A violência contra as mulheres voltou a ganhar repercussão após os episódios ocorridos em São Paulo. Em um dos casos, uma mulher de 31 anos teve as duas pernas mutiladas após ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro. No outro, um homem invadiu a pastelaria onde sua ex-companheira trabalhava e atirou várias vezes com duas armas.
A violência de gênero é resultado de uma combinação de fatores individuais, culturais e sociais que se entrelaçam de forma complexa, conforme especialistas ouvidas pela reportagem. Elas apontam o machismo estrutural como eixo central, por organizar expectativas, comportamentos e relações de poder.
“Do ponto de vista psicológico, observamos com frequência dificuldades de regulação emocional, padrões de pensamento distorcidos, ciúmes excessivos. Sensação de posse sobre o outro e baixa tolerância à frustração.”, afirma a psicóloga Marina Souza Silva, coordenadora do curso de Psicologia da Faculdade Anhanguera de Divinópolis.
Conforme ela, dificuldades de regulação emocional, ciúmes excessivos, baixa tolerância à frustração e crenças rígidas sobre papéis de gênero estão entre os principais gatilhos individuais. Ao mesmo tempo, a sociedade ainda normaliza comportamentos de controle e desigualdade que mantêm o ciclo da violência.
“A educação emocional limitada destinada aos meninos, que ainda aprendem a suprimir vulnerabilidade e diálogo, favorece relações baseadas em imposição. Além disso, o silêncio das vítimas, seja por medo, dependência emocional e/ou financeira, pela falta de redes de apoio, facilita a manutenção do ciclo da violência.”.
Comportamentos violentos aprendidos
Marina ainda aponta que “comportamentos violentos são aprendidos e reforçados culturalmente, e não fazem parte da natureza humana”.
“Quando compreendemos esse conjunto de fatores, conseguimos pensar em estratégias mais efetivas de prevenção, educação emocional e fortalecimento do apoio às mulheres”, sugere.
Machismo estrutural
A psicóloga afirma que o machismo estrutural ainda sustenta a violência de gênero e se manifesta diariamente, inclusive de formas sutis. A naturalização do controle masculino, a responsabilização da mulher pela “paz do lar” e a minimização de denúncias moldam crenças que legitimam desigualdades e abusos.
Conforme explica, repetimos essas mensagens desde a infância e, com isso, elas moldam comportamentos baseados em controle, desvalorização e abuso. Isso, mesmo quando não percebidos conscientemente.
“Com o tempo, esses padrões passam a orientar comportamentos de controle, desvalorização e abuso, mesmo quando não são percebidos conscientemente”, alerta.
Crenças que sustentam agressões e feminicídios
As agressões geralmente nascem de crenças distorcidas, como:
- Posse sobre a parceira;
- Suposta superioridade masculina;
- Justificativas para agressão, como “ela provocou”;
- Confusão entre ciúme e amor;
- Papéis tradicionais que colocam a mulher como responsável por manter a relação.
Marina ainda aponta que a violência de gênero não pode ser reduzida a um único tipo de personalidade. Conforme ela, existem padrões que se repetem nos agressores.
“É comum observamos dificuldades de regulação emocional, impulsividade, baixa tolerância à frustração, necessidade de controle, ciúmes intensos e crenças rígidas sobre papéis de gênero”, lista.
“É importante destacar que, embora esses padrões existam, a violência é um comportamento aprendido e reforçado culturalmente, e não uma característica inata de um indivíduo. Por isso, não falamos de um “perfil padrão”, e sim de fatores psicológicos e sociais que, quando se combinam, aumentam o risco de comportamentos abusivos”.
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Estruturas patriarcais
A cientista política Natália Fernandes reforça que a violência de gênero, além de alimentada por estruturas patriarcais, também está ligada a outros fatores, como desigualdades raciais e socioeconômicas, bem como à fragilidade das políticas públicas de proteção.
“Que incluem impunidade, subnotificação e falta de serviços especializados”, completa.
Ela ainda classifica o machismo estrutural como eixo central, por organizar expectativas, comportamentos e relações de poder.
“Ele se manifesta no cotidiano por meio da desqualificação de mulheres, naturalização do ciúme como cuidado, controle de roupas e amizades, interrupção constante da fala feminina, responsabilização das mulheres por conflitos, além da normalização da agressividade masculina.”
Para ela, a violência de gênero no Brasil contemporâneo “é um fenômeno estrutural alimentado por diversos fatores sociais que se articulam entre si, revelando como desigualdades históricas, normas culturais e falhas institucionais moldam esse problema”.
“Do ponto de vista sociológico, o principal eixo ainda é o machismo estrutural, que se mantém como princípio organizador das relações sociais ao naturalizar hierarquias entre homens e mulheres. Ele reforça a divisão sexual do trabalho, sobrecarrega mulheres no cuidado e, em muitos casos, gera dependência econômica”.
Autonomia financeira e escolaridade não eliminam risco
A cientista também aponta que a autonomia financeira e a alta escolaridade não eliminam o risco. “Pois a violência de gênero atravessa todas as classes sociais: mesmo mulheres com maior nível de instrução são alvo de controle, assédio, violência psicológica e coerção, porque essas práticas estão enraizadas em padrões culturais amplamente aceitos e transmitidos socialmente”, analisa.
A socialização de gênero reproduz expectativas desiguais desde a infância, legitimando comportamentos agressivos masculinos e responsabilizando mulheres por conflitos, o que demonstra como o machismo estrutural se manifesta no cotidiano.
“Esse processo é reforçado pela violência simbólica, que normaliza a subordinação feminina e sustenta crenças como a ideia de que homens têm direito de controlar a vida das mulheres ou que ‘ciúme é cuidado’”, afirma.
Desigualdade racional e o impacto na violência contra mulheres
A desigualdade racial intensifica esses efeitos, tornando mulheres negras as principais vítimas de violência letal, evidenciando o entrelaçamento entre gênero, raça e classe na produção e manutenção desse fenômeno.
“Do ponto de vista antropológico, normas culturais e crenças arraigadas sustentam atitudes violentas. A valorização de uma masculinidade baseada em posse, virilidade e controle cria um ambiente que normaliza práticas de dominação nas relações afetivas”, sustenta.
A crença de que “problemas de casal” devem permanecer privados contribui para o silêncio, conforme Natália, enquanto a sexualização e objetificação contínua do corpo feminino alimentam sua desumanização e reforçam a tolerância social à violência sexual.
“Marcas da colonialidade seguem presentes, reproduzindo estereótipos sobre mulheres negras, indígenas e pobres e legitimando formas específicas de controle e violência”, pondera.
Ela ainda aponta a ausência de políticas públicas.
“Do ponto de vista político, a violência de gênero persiste porque o Estado não garante proteção efetiva. Embora o Brasil possua marcos legais importantes, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, a falta de recursos, a baixa integração da rede de atendimento e a impunidade reiterada impedem que esses instrumentos funcionem plenamente.”
Conforme ela, disputas políticas em torno das pautas de gênero, especialmente a resistência à educação sexual e ao debate público sobre desigualdades, fragilizam ações preventivas e reforçam crenças que legitimam a violência.
“Além disso, desigualdades socioeconômicas ampliam a vulnerabilidade de muitas mulheres, enquanto práticas de violência institucional, como atendimentos revitimizantes, afastam vítimas dos serviços públicos e contribuem para a perpetuação do problema.”
Feminicídio
Feminicídio é o homicídio de uma mulher cometido em razão do seu gênero, caracterizado por violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação contra a condição feminina. Considerado a expressão máxima da violência de gênero, ocorre frequentemente como desfecho de um histórico de agressões. No Brasil, é considerado um crime hediondo e, quando tipificado como qualificador do homicídio, com pena de reclusão de 12 a 30 anos.



