O ciclo da violência contra mulheres só será interrompido quando o agressor também romper com o padrão que o legitima.
Em menos de uma semana, Divinópolis voltou a figurar no noticiário policial por dois episódios da escalada da violência contra a mulher, um deles envolvendo uma gestante que precisou provocar um acidente para escapar de uma ameaça de feminicídio; o outro, um homicídio consumado dentro do ambiente familiar. A polícia também trata este último caso como feminicídio.
No primeiro caso, uma mulher grávida de dois meses, acompanhada da filha de apenas 8 anos, colidiu o veículo de forma intencional para escapar da tentativa de feminicídio.
Dias depois, a cidade amanheceu com outro crime bárbaro: uma mulher de 43 anos morta a tiros após uma discussão envolvendo conflitos familiares. O suspeito: o próprio primo. O assassinato ocorreu na casa da avó, de 81 anos.
Feminicídio no Brasil: números que alarmam
Os casos locais refletem uma realidade nacional preocupante. O Brasil registrou 6.904 vítimas de feminicídio consumado ou tentado em 2025, aumento de 34% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 5.150 ocorrências.
Conforme o levantamento, houve 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, o que representa quase seis mulheres mortas por dia no país (5,89). A estatística revela que a violência de gênero não é episódica, é estrutural.
A repetição dos crimes demonstra que não existem espaços absolutamente seguros para mulheres. Nem dentro de casa, no carro e nem na presença de familiares.
Medidas protetivas que não protegem
Medidas protetivas são fundamentais, leis são indispensáveis, mas não têm sido suficientes para conter o agressor que age impulsionado por sentimento de posse, controle e, muitas vezes, pela percepção de impunidade.
Quando o agressor decide agir, ele não calcula riscos jurídicos. Ele executa.
No mês em que se celebra o Dia Internacional das Mulheres, os fatos contradizem o discurso festivo. Enquanto se fala em avanços, a violência avança em paralelo.
O estupro coletivo ocorrido em Copacabana, no Rio de Janeiro, tornou-se símbolo recente da vulnerabilidade feminina.
Recorda-se ainda o caso de Indianópolis, onde um homem de 35 anos acabou condenado por estuprar uma menina de 12 anos, com consentimento da própria mãe. Episódios distintos, contextos diferentes, mas a mesma raiz: a banalização da violência contra mulheres e meninas.
Não é sobre idade, classe social ou localização geográfica. É sobre cultura.
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O enfrentamento precisa incluir os homens
O debate sobre violência contra a mulher não pode se limitar ao fortalecimento feminino, ainda que essencial. Precisamos ampliar o foco para quem agride.
Enquanto políticas públicas discutem autonomia financeira, apoio psicológico e incentivo ao rompimento de relações abusivas, é indispensável investir em reeducação masculina, prevenção primária e transformação comportamental.
O ciclo da violência só será interrompido quando o agressor também romper com o padrão que o legitima.
Educação como estratégia de longo prazo
Levar o debate para as escolas, trata-se de medida estratégica. Conversar com filhos e filhas sobre respeito, consentimento, limites e igualdade não é pauta ideológica, é política pública preventiva.
Mulheres fortes e corajosas continuam denunciando, rompendo relações abusivas e enfrentando ameaças. Mas nenhuma força individual será suficiente se a estrutura social continuar tolerando comportamentos violentos.
Se a sociedade não assumir responsabilidade coletiva, continuará reagindo a tragédias em vez de preveni-las.
Nadando contra a correnteza: violência contra mulheres
Mais do que homenagens no mês de março, o que se exige é ação contínua. Porque, no ritmo atual, estamos nadando contra a correnteza e perdendo vidas todos os dias.


