Voluntariado político pode ser decisivo nas eleições de 2026?

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Por -03/09/2026, às 14H11setembro 3rd, 2026
Apoiadoras voluntária da candidata a deputada federal Lohanna França

Apoiadores dedicam tempo e mobilizam redes pessoais em defesa de candidatos; analista explica como o protagonismo do eleitor pode influenciar a disputa

Por Heloisa De Tofoli

As campanhas eleitorais começaram oficialmente no dia 16 de agosto, e o Brasil já está a um mês do primeiro turno das eleições de 2026. Em meio à disputa por tempo de propaganda, recursos financeiros e estrutura partidária, outro elemento ganha espaço nas campanhas: os apoiadores voluntários.

São eleitores que, sem remuneração, dedicam tempo, energia e suas próprias redes de relacionamento para ajudar candidaturas nas quais acreditam. Eles distribuem materiais, participam de eventos, conversam com outros eleitores e, cada vez mais, atuam também nas redes sociais.

O voluntariado político não é um fenômeno novo. Ele acompanha a história das eleições brasileiras. No entanto, a internet e as plataformas digitais mudaram a escala, a velocidade e o custo dessa mobilização.

Mas o que leva uma pessoa a dedicar parte do seu tempo a uma campanha sem receber nada em troca? E, afinal, qual é o impacto desses apoiadores na disputa pelas urnas?

Em entrevista ao Portal Gerais, o analista político João Paulo Barros, explica o que está por trás desse fenômeno e de que maneira ele pode influenciar nas decisões eleitorais.

Identificação e protagonismo na campanha

Para João Paulo Barros, a principal motivação para o eleitor se tornar voluntário está na identificação com a candidatura. Quando se reconhece nas propostas, nos valores e no projeto político apresentado, ele tende a se envolver de forma mais ativa na campanha.

“O principal fator é a identificação com o candidato, suas ideias e o projeto político que ele representa.”

Essa identificação pode levar o eleitor a assumir um papel de protagonismo. Em vez de apenas receber a mensagem da campanha, ele passa a participar de sua construção e circulação. Compartilha conteúdos, conversa com outras pessoas, defende propostas e mobiliza sua própria rede de contatos.

“O eleitor deixa de ser apenas receptor da mensagem e passa a se enxergar como parte da construção daquela candidatura.”

Quando a identificação vira mobilização

É o caso de apoiadoras da deputada estadual Lohanna França (PV). Em conversa com a reportagem, elas contaram desde quando acompanham a parlamentar e o que as levou a participar voluntariamente da campanha.

Para Thainá Félix, tudo começou pelas redes sociais. Ela passou a acompanhar o conteúdo publicado por Lohanna e, posteriormente, decidiu se colocar à disposição quando soube que a candidata estaria em sua cidade.

“Assim que ela apareceu nas redes sociais, eu comecei a seguir, acompanhar o conteúdo dela e achei incrível. Quando eu fiquei sabendo que ela ia para a minha cidade, eu me coloquei à disposição para andar na rua, e a equipe dela entrou em contato comigo. Desde então, eu acompanho a Lohanna. Foi totalmente de forma voluntária, por identificação mesmo.”

Já Tatiana Gomes conheceu Lohanna por meio de uma amiga. Segundo ela, a aproximação aconteceu porque percebeu pontos em comum entre as pautas defendidas pela candidata e experiências que ela própria viveu, especialmente na atuação ligada à educação e à defesa dos professores da rede municipal.

“Quando a Rosânia me apresentou para ela, me mostrou uma menina que estava seguindo um caminho que ia muito de acordo com aquilo que a gente buscava.Sempre buscando melhorias para o professor. E aí a gente viu que as nossas ideias batiam muito e que seria interessante estar junto com ela.”

Ambas estiveram em Belo Horizonte para o lançamento oficial da campanha da deputada que disputa agora, uma vaga para a Câmara Federal.

Lohanna França atraiu voluntários em Belo Horizonte onde lançou a campanha (Foto: Portal Gerais)

Perfil do voluntário político 

Segundo João Paulo Barros, existe um perfil comum entre os apoiadores voluntários. São pessoas que costumam ter maior interesse por política e participação social. Além disso, muitos já possuem redes de relacionamento consolidadas, tanto presencialmente quanto no ambiente digital.

Esse comportamento, no entanto, não pertence a um único grupo político. O analista afirma que o voluntariado espontâneo aparece em candidaturas de diferentes correntes ideológicas.

“Ele aparece tanto em candidaturas progressistas quanto conservadoras.

Segundo o analista, a participação dos eleitores na construção e na disseminação de discursos políticos não se limita também a um único campo ideológico:

“Essa dinâmica pode ser observada em diferentes campos ideológicos e também em redes sociais e movimentos organizados, como movimentos estudantis, sindicais, religiosos e comunitários.”

Voluntários podem decidir uma eleição?

Apesar da importância da mobilização, João Paulo Barros alerta que seria um erro tratar o voluntariado como uma variável isolada capaz de definir uma eleição.

“Recursos financeiros, estrutura partidária, exposição na televisão e no rádio, presença territorial, conhecimento prévio do candidato e desempenho nas redes sociais continuam sendo fatores relevantes.”

Nesse cenário, João Paulo afirma que o principal valor dos voluntários está na capacidade de ampliar a circulação da mensagem. Um apoiador pode apresentar um candidato a pessoas que talvez não fossem alcançadas diretamente pela estrutura oficial da campanha.

Isso pode ser especialmente importante para candidaturas com menos recursos ou menor presença territorial. A rede de contatos do voluntário, nesse caso, funciona como um canal adicional de comunicação.

“Uma pessoa engajada pode funcionar como um ponto de distribuição política dentro da sua própria rede de relações.”

No entanto, o analista ressalta que o voluntariado não elimina as desigualdades entre as campanhas. Uma candidatura com poucos recursos continua enfrentando dificuldades relacionadas à produção de conteúdo, logística, comunicação, pesquisa, estrutura jurídica e presença territorial.

“Eu diria que o voluntariado funciona melhor como um multiplicador de recursos políticos, e não como um substituto completo dos recursos financeiros e da estrutura partidária.”

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O exemplo de Tabata Amaral

A eleição da deputada federal Tabata Amaral, em 2018, mostra como a mobilização de apoiadores pode ampliar o alcance de uma candidatura. Durante a campanha, a então candidata utilizou as redes sociais para organizar voluntários e formou centenas de grupos de WhatsApp.

A estratégia ajudou a ampliar a comunicação da campanha, e Tabata terminou a eleição como uma das deputadas federais mais votadas de São Paulo.

Ainda assim, João Paulo Barros pondera que não é possível atribuir o resultado eleitoral exclusivamente ao trabalho dos voluntários, pois uma eleição reúne diversos fatores.

“Não podemos afirmar que o voluntariado, isoladamente, foi responsável pela eleição. O resultado eleitoral é produzido por um conjunto de fatores. O que podemos dizer é que, em algumas campanhas, a mobilização voluntária foi uma estratégia relevante para ampliar alcance”

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Analista político João Paulo Barros (Foto: Arquivo Pessoal)

Nem toda interação caracteriza-se voluntariado

As redes sociais criaram novas formas de participação política. No entanto, João Paulo Barros faz uma distinção: nem toda curtida ou interação pode ser considerada voluntariado político.

Segundo o analista, esse tipo de mobilização exige maior envolvimento, esforço e recorrência. Ações como compartilhar conteúdos de forma constante, produzir materiais ou mobilizar outras pessoas, por exemplo, podem caracterizar uma participação mais ativa na campanha.

“Todo voluntariado político envolve algum tipo de engajamento, mas nem todo engajamento digital é necessariamente voluntariado.A fronteira está principalmente no grau de esforço, recorrência e intencionalidade.”

Como as redes transformaram o voluntariado político 

Para o analista, as plataformas digitais aceleraram a construção de vínculos entre candidatos e eleitores. Antes da internet, a aproximação política dependia mais de estruturas intermediárias, como partidos, sindicatos, associações, movimentos sociais e lideranças comunitárias.

Hoje, um eleitor pode conhecer um candidato pelas redes sociais, acompanhar sua rotina e suas propostas e interagir diretamente com ele. A partir desse contato, pode passar de espectador a apoiador e, posteriormente, a mobilizador.

As plataformas também reduziram as barreiras para a participação. Compartilhar um vídeo, criar um grupo de mensagens, convidar amigos para um evento ou produzir conteúdo exige menos estrutura do que as formas tradicionais de mobilização.

Isso não significa, porém, que engajamento digital se transforme automaticamente em votos. Curtidas, seguidores, visualizações e compartilhamentos demonstram atenção e interação, mas não permitem prever, sozinhos, o comportamento do eleitor nas urnas.

A principal transformação, segundo João Paulo Barros, está na mudança da própria lógica de comunicação das campanhas.

“A campanha deixou de ser uma comunicação exclusivamente vertical.”

Além de receber a mensagem, o eleitor também pode ajudar a produzi-la, adaptá-la e distribuí-la dentro de suas próprias redes.

“O voluntariado político continua existindo, mas mudou de formato. Ele deixou de estar concentrado apenas na militância presencial e passou a incorporar redes digitais, grupos de mensagens e comunidades de apoiadores”, esclarece João Paulo