Infectologista critica volta à Onda Amarela em Divinópolis: ‘Grave risco de desassistência’

Decisão ignora casos em leitos suplementares e laboratórios particulares; Infecções no Natal e Ano-Novo tendem a impulsionar volta à Vermelha

Ricardo Welbert

A decisão de voltar Divinópolis à Onda Amarela na classificação do combate ao novo coronavírus desconsiderou os números de infecções confirmadas em leitos de saúde suplementar e laboratórios particulares. A afirmação é da infectologista Rosângela Guedes, que atuou no comitê de enfrentamento à pandemia na gestão de Galileu Machado (MDB). Ela explica que a realidade ignorada decisão seria “mais do que suficiente” para fazer o município subir dos atuais 18 para 19 pontos, quando a classificação passa a ser vermelha.

“A gestão anterior decidiu acatar uma orientação do comitê estadual e optou por colocar a cidade em onda vermelha. Na semana anterior, os indicadores avaliados mensalmente pelo ‘Minas Consciente’ classificaram a macrorregião oeste na Onda Amarela. A nossa microrregião apresentava pontos que garantiriam a permanência na Onda Amarela. Na ocasião, 18 pontos. Mas, por orientação do comitê estadual, o então prefeito optou por colocar a cidade em Onda Vermelha para restringir o número de pessoas circulando”, avalia.

A decisão foi baseada na crescente ocupação hospitalar e na também elevada incidência da doença nas quatro semanas. Outra reclassificação aconteceu e a Divinópolis, que tinha 18 pontos, passou a ter 19 (Onda Vermelha). Desta vez, o comitê estadual e o municipal fizeram uma sugestão para que o município ficasse na Vermelha.

“O ‘Minas Consciente’ não avalia a ocupação dos leitos de saúde suplementar e nem a positividade de exames que são realizados em laboratórios particulares. Um dado que nós estamos observando nos próprios boletins da Prefeitura é a taxa de ocupação dos leitos da saúde suplementar maior do que a nossa ocupação dos leitos do SUS e a positividade dos exames de forma geral. Se consideramos exames no SUS e nos laboratórios particulares, o município chega a mais de 70%, muito superior ao apontado no ‘Minas Consciente’”, avalia.

Na interpretação da profissional, se as estatísticas considerassem os casos confirmados em leitos suplementares e laboratórios privados, Divinópolis já teria pontuação igual ou superior a 19 – o número necessário para entrar na Onda Vermelha.

Regresso arriscado

Ainda segundo a infectologista, a decisão do atual governo de Gleidson Azevedo (PSC) de recolocar a cidade na Onda Amarela é arriscada.

“Isso tem algumas repercussões, porque a Onda Vermelha é para diminuir a circulação de pessoas. É claro que não adianta nada sacrificar o comércio e os serviços que não são essenciais se as pessoas continuarem circulando ou fazerem festas clandestinas no final de semana. O objetivo não é esse”, avalia.

Para Rosângela Guedes, as autoridades de saúde de Divinópolis precisam estar atentas à taxa de incidência da covid-19, que tem aumentando progressivamente. “Há 30 dias era de 168 casos para cada 100 mil habitantes. Hoje é de 302 para cada 100 mil. Isso significa que temos agora uma circulação maior do vírus, com um número maior de casos ativos e por isso existe tendência de aumento da doença nas próximas semanas”, alerta.

Reflexos das festas

As equipes médicas dos hospitais da região já se preparam para um colapso na oferta de leitos para pacientes com covid-19. Profissionais ouvidos pelo PORTAL GERAIS preveem o pico para os dias entre 10 e 12 de janeiro. Consequência das infecções iniciadas no Natal e Réveillon.

“As repercussões hospitalares do período de festas. Estamos esperando um aumento de taxa hospitalar. Ou seja, mais pacientes para hospitais que já estão cheios. Se observarem no boletim mais recente, os leitos da saúde complementar já tem ocupação de mais de 80% e os do SUS, de quase de 70%”, explica.

A restrição de circulação é apontada pela infectologista e pela ciência em todo mundo como forte responsável pela diminuição de novos contágios. Mas também é preciso consciência coletiva e obediência às regras.

“Se não houver o cuidado que já se faz necessário, teremos grave risco de desassistência aos pacientes que precisarão de assistência hospitalar nos próximos dias. Isso é muito grave. Peço à população que se cuide e reflita bem antes de sair de casa e aglomerar. Porque nós vamos colher os frutos ruins disso nos próximos dias”, orienta.

Com o risco que bate à porta, Divinópolis está prestes a voltar à Onda Vermelha.

“Não adianta reabrir tudo agora se temos um risco iminente de Onda Vermelha para as próximas semanas. Se considerarmos só os casos confirmados no SUS, já estaremos em Onda Vermelha. Mais do que as questões sociais e econômicas, são vidas que serão perdidas. Quanto mais o vírus circula, mais pacientes vão parar nas UTIs e mais mortes acontecem. Temos um aumento de 27% dos óbitos só em 14 dias. É preciso prestar atenção nisso e cuidar melhor do que importa, que é a nossa vida”, finaliza.

Ricardo Welbert

Ricardo Welbert

Ricardo Welbert, jornalista formado pela Uemg em Divinópolis e mestrando em Ciências da Comunicação na Universidade do Porto, em Portugal.

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